“Não tive problemas com salários”

Com estrutura e Estádios aos frangalhos, o campeonato capixaba é um dos piores estaduais do Brasil em incontáveis aspectos, mas ainda circulam pelo Estado jogadores com experiências interessantes e inusitadas no currículo. É o caso do meio-campista Miltinho, do Grêmio Esportivo Laranjeiras (GEL). O jogador de 25 anos vem de uma passagem pelo Kenitra Athletic Club (KAC) do Marrocos, um dos clubes mais antigos do país.
“Um treino do Kenitra dá mais público que um jogo do Campeonato Capixaba” compara o futebolista, ex-América e Atlético/MG.
É escasso o número de brasileiros e sul-americanos no Botola, nome oficial da Liga marroquina profissional. Neste descontraído bate-papo, o capixaba conta sua experiência na região magrebe e relata que está acertando um retorno ao país do norte da África no meio deste ano.
Dentro de campo
“Os marroquinos são iguais aos brasileiros. Habilidosos, técnicos, mas tem um estilo de jogo com muita força física. Lá se treina em período integral. O calor é muito grande, mas eles correm muito. O sonho de todo jogador marroquino é atuar na Europa. Quando a TV mostra as ligas européias, eles falam “Já pensou eu ali?”
Torcedores
“Fanáticos. Dá muita gente até nos treinos. Um treino do Kenitra dá mais público que um jogo do Campeonato Capixaba. Os torcedores marroquinos levam muitas bandeiras, foguetes e rojões para os estádios”.
As forças
“Raja e WAC Casablanca e mais o FAR Rabat são as potências. São times que têm melhor estrutura e dinheiro”.
Cidade de Kenitra
“Tem mais problemas sociais que o Brasil. Nas ruas tem muitos mendigos e senhoras pedindo esmolas. Principalmente onde o comércio fica concentrado. Uma coisa que reparei é que em todos os lugares que eu entrava, podia ser loja ou banco, tinha a foto do Rei deles (Mohammed VI)”.
Adaptação
“Foi difícil. Tinha dois marroquinos no elenco que falavam um pouco de espanhol e eles me ajudaram. Eu não tive problemas com salários atrasados e morava até bem, não tinha do que reclamar. O único problema foi em relação aos valores que inicialmente eles prometeram uma quantia e quando cheguei lá era outra menor. Eles gostam muito de brasileiros, puxam assunto e gesticulam. Mas enjoei da comida. Apesar disso, estou conversando para ver se volto pra lá em julho porque a realidade aqui é muito triste”.
Constrangimentos
“Eu ia sozinho ao restaurante e só sabia pedir um tipo de prato, que é um arroz meio amarelado com molho e um kibe. No inicio eu gostei, mas com o passar das semanas eu enjoei daquilo. Esses dois companheiros que sabiam espanhol riram quando eu falei que queria comer outra coisa. Eles tentaram me ensinar a pedir frango, mas eu fiquei meia hora discutindo com o pessoal do restaurante, que não entendeu o meu pedido e no final acabei comendo o mesmo de sempre”.
Futebolistas na noite
“Tinha uma boate no fundo do hotel aonde eu estava hospedado, mas os jogadores não tinham coragem de ir porque a cidade inteira iria saber, eles sempre negavam alegando isso. Lá tem muitas mulheres de programa. Eu, todo inocente, vi uma mulher e falei pra esse meu companheiro que sabia espanhol “Nossa, olha aquela que linda, parece brasileira” e ele respondeu “dê a ela 100 dirham* que você consegue o que quer!”. Era prostituta. Tinha um senegalês no nosso time que gastava uma fortuna com elas. Ele sempre levava prostitutas para o apartamento”.
*moeda do Marrocos


