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“Não tememos ninguém”

A Costa Rica estréia nas Eliminatórias da CONCACAF para a Copa do Mundo de 2010 neste sábado contra Granada. Para saber como está indo a preparação dos ‘Tricolores’ batemos um papo com o preparador físico da ‘sele’, o uruguaio Marcelo Tulbovitz, que acompanha o técnico Hernán Medford desde o Deportivo Saprissa. Conhecido como um trabalhador incansável, aos 46 anos, acumula experiência em grandes clubes uruguaios como Defensor e Nacional.

Como trabalhar com jogadores desgastados fisicamente e prepara-los para a partida de estréia da Costa Rica nas eliminatórias da CONCACAF neste sábado contra Granada?
Partimos do principio de individualidade do treinamento esportivo e temos em conta a quantidade de jogos e o desgaste real. Temos preparado um conjunto de avaliações físicas e médicas, porém, infelizmente não pudemos avaliar todos os jogadores porque os clubes decidiram alargar em quatro dias o fim do torneio nacional. Isso nos levou a mudar os planos na avaliação individual de cada atleta, mas aí entra a outra parte, a que nunca deve faltar aos profissionais que é a experiência e o senso comum. A idéia é nos primeiros dias cada jogador fazer um trabalho físico segundo os resultados das avaliações.

Quais as dificuldades e diferenças para um clube na preparação de uma seleção antes de uma partida?
A diferença é drástica, estou sentindo e vivendo isso e não há nenhum ponto em comum, somente a vontade de vencer. A planificação e a organização e adrenalina de cada domingo fazem falta, eu estranho muito e a maneira de planejar é diferente. Estou na seleção desde o final de 2006 e antes eu só tinha objetivos em meses e desde então só tenho uma coisa na cabeça, o Mundial da África do Sul em 2010. No clube você tem a responsabilidade de mentalizar cada jogador que as batalhas são a cada 7 dias e isso me encantava, eu desfrutava muito.

Quando o assunto é Eliminatórias na CONCACAF se tem a idéia fixa de que somente Estados Unidos e México são rivais temíveis e com classificação garantida para as Copas. O que pensa?
Para mim tem 8 ou 9 seleções com capacidade para se classificar e não temo nenhuma delas. Tenho que respeitar o que as pessoas dizem, mas nada garante que EUA e México garantirão vagas. Honduras, Jamaica, Cuba, Canadá, Panamá, Haiti e Trinidad & Tobago são todas perigosas e quer saber? Não descarto também a Guatemala, são duros jogando como locais. Em principio, respeitamos todos, não tememos ninguém e nem nos colocamos abaixo ou acima de nenhum rival.

Como é trabalhar com Medford, ex-ídolo costarriquenho e agora treinador da seleção?
Quando vim para Costa Rica, vim para trabalhar com ele no Saprissa, era estréia dele como treinador (2003). Não o conhecia pessoalmente, somente como jogador. Ele jogou na Europa e no México e teve grandes treinadores, dos quais aprendeu muito. Sua principal qualidade como técnico é a convicção na transmissão das idéias e a liderança. Também tem melhorado seus impulsos e tem amadurecido.

Como é dividir o campo com ele nos treinos?
Medford me dá muita liberdade, nos respeitamos, eu não invado seu espaço e nem ele me corta. Além disso, ele agüenta critica e apesar de ser o chefe, sempre escuta o ‘staff’. As coisas que não me agrada nele, ele sabe. Hoje ele está sendo criticado, mas em janeiro de 2006 era o 18º melhor técnico do mundo segundo a FIFA, e com apenas 36 anos. Assim é o futebol. Estou convencido que vai melhorar muito ainda porque quer ser melhor, é um ganhador e bom companheiro.

Zamorano abriu as portas para os jogadores chilenos na Europa quando emigrou muito cedo para Suíça e com seus gols e sucesso o mundo passou a conhecer o futebol chileno. Acha que a boa fase de Saborio na Suíça é indicativo de que ele pode abrir portas para os costarriquenhos na Europa?
Um jogador de 26 anos que em duas temporadas na Europa fez mais de 30 gols fala por si só. É um goleador de raça, lembra os artilheiros do passado, um assassino de área. Estive quase 4 anos com ele no Saprissa e ele marcou quase 100 gols em poucos anos. Essa é uma boa comparação porque Zamorano também era assim, fazia gols de esforço e instinto. Sempre acreditei e continuo acreditando nas suas qualidades e pode jogar em grandes ligas como na Inglaterra por ser um jogador que trabalha para a equipe e se mata em campo e isso contagia os demais. Sem dúvida, esta abrindo portas para outros jogadores ‘ticos’.

Saborio e Bryan Ruiz se entendem bem no ataque ou é difícil jogar com os dois juntos?
Bryan Ruiz é outro caso de ‘abrir portas’. Ele é fundamental em sua equipe (Gent, da Bélgica), as pessoas o reconhecem e tem ofertas. Bryan tem tremendas condições técnicas e habilidade, adquiriu maturidade e é o típico caso do atleta que poderia ter o mesmo corpo que tem agora se eu pudesse ter trabalhado com ele nas divisões inferiores. Ele tem confiança com a bola, é muito bom companheiro e tem tudo para triunfar. Pelas suas características, gostaria de vê-lo na Espanha, França ou Holanda. Já atuaram juntos e tem estilos diferentes que se complementam. Eles são muito importantes para nós.

Aqui no Brasil muitos comentaristas fizeram análises negativas sobre as atuações do goleiro Porras, que foi muito infeliz no Mundial da Alemanha. A Costa Rica não tem um jovem para suplantá-lo?
Antes de se lesionar, Porras era o melhor goleiro da América Central e entre 2005 e 2006 o melhor da CONCACAF. Ganhou tudo com o Saprissa onde era o capitão e foi escolhido pela FIFA como o melhor jogador do país. Qual goleiro na CONCACAF ganhou isso tudo e como criticar alguém que ganhou tanto assim? Depois que se lesionou se complicou um pouco, não esta jogando nem na seleção e nem no Saprissa, mas isso não apaga seus anos brilhantes.

A diferença estrutural entre o futebol na Costa Rica e no Uruguai é muito grande?
Olha, aqui é um país de paixão que consome futebol, porém quase não há apostas para se trabalhar nas categorias de base, que é o ideal. No Uruguai, Danúbio e Defensor são exemplos para toda a América porque são clubes pequenos tem grande mentalidade e são considerados fábricas de jogadores no país. Aqui na Costa Rica nem o Saprissa e o Alajuelense tem condições e campos a altura. Quem dera que os jovens daqui pudessem jogar em campos como aqueles. Nas sete províncias da Costa Rica se respira futebol, porém, apostas a médio e longo prazo vejo poucas. Me encantaria ver campos, ginásios e técnicos de alto nível na base. Seria fortalecer o que já é popular, mas com base e visando o futuro.

Como são as partidas da liga costarriquenha?
Já participei de muitos clássicos da liga atuando pelo Saprissa e é legal o ambiente, também tive a chance de estar envolvido num Nacional e Peñarol e digo que os clássicos são outra forma de expressão. Não sei exatamente, mas te digo como se fosse uma novela ou um poema, são únicos e toca toda a sociedade. Aqui na Costa Rica se vive e se desfruta intensamente essas partidas.

Porque deixou o futebol uruguaio?
Em 2002 estava no Defensor e acabou minha relação profissional com o técnico que eu estava trabalhando há 10 anos. No inicio de 2003 pensei “E agora, o que faço?” Agarrei a chance que tive no Juventud de las Piedras para ajudar um amigo que se lançava como treinador, Jorge Calvi. Naquele mesmo ano, um amigo que trabalhava no Chivas, Daniel Ipata, me chamou e disse que o dono do seu clube comprou o Saprissa, que estava quebrado sem ganhar títulos e clássicos e havia apostado em Hernan Medford como treinador. Os mexicanos me chamaram e aí começou uma história que jamais pensei que ia ser assim.

Nem imaginava chegar à seleção.
Eu cheguei para ficar um ano, mas os dirigentes do Saprissa, depois de 5 meses, renovaram por mais cinco anos. Nunca me ofereceram um contrato assim! Em novembro de 2006 veio o convite para seleção. Um processo assim eu sonhava muito no Uruguai.

Acha que o futebol uruguaio se perdeu nas últimas décadas e agora está voltando a se impor?
Creio que Peñarol, Nacional e Defensor não conseguem atingir um grande nível de organização e planejamento. É interessante ressaltar que em países pequenos costumamos subestimar nossas conquistas e supervalorizar os fracassos. Acontece também na Costa Rica, o Saprissa chegou na final da Copa CONCACAF, deixando para trás equipes mexicanas e norte-americanas, mas perdeu para o Pachuca dando luta, isso é fracasso? Jamais! O Puntarenas ganhou a Uncaf 2007, uma tremenda conquista porque foi em cima de clubes históricos como o Olímpia, de Honduras. Gostaria que o Uruguai voltasse a ganhar algo para as novas gerações terem o prazer de ver a celeste ganhar e se contagiar dessa coisa bem nossa que nos fascina desde criança.

Pela sua experiência em El Salvador, eles tem alguma perspectiva de progresso?
Estive lá entre 91 e 92 e tive o privilégio de treinar Jorge ‘mágico’ Gonzalez. Vi alguns bons jogadores, porém, vi também que não trabalhavam a base, havia pouca estrutura, estavam no fim da guerra. Voltei lá com a seleção da Costa Rica e conversando com amigos de lá, me contaram que quase nada avançou. É uma pena, pois é um país futebolístico que sofreu muito e poderia ter alguma satisfação esportiva. Tenho imenso carinho por eles.

*Agradecimentos a Sandri e Leonardo Spadetti
 

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Equipe Trivela

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