Na tática de “El Loco”

Com um apelido bastante apropriado para alguém que gosta de ousar, Marcelo “El Loco” Bielsa provou com seu esquema bastante ofensivo que o Chile poderia voltar a acreditar em uma participação mundial, depois de 12 anos de jejum. O treinador argentino conseguiu a façanha tão sonhada e esperada pelos chilenos há tanto tempo, e acabou se tornando um ídolo popular e indiscutível entre os fanáticos do time nacional – não poucos esperam muito do comandante durante o próprio mundial, acreditando piamente que classificar da primeira fase e até o título são milagres ao alcance da equipe de vermelho.
Mesclando sua experiência com juventude e apostando em escolhas táticas certas, “El Loco” conseguiu seu objetivo inicial: a passagem para a África do Sul em 2010. Na partida da conquista da vaga, a Colômbia chegou a sair na frente, em casa, e os chilenos reagiram e viraram. Para não faltar emoção, os anfitriões cederam o empate mas, com um gol de Jorge Valdívia, não por acaso ídolo chileno, os visitantes retomaram a vantagem e ainda fizeram mais um com Orellana, fechando o placar em 4 a 2.
O treinador argentino tem uma formação preferida para a Roja: o 3-4-3, mas propriamente um 3-3-1-3. Este “1” é a posição tão conhecida pelos latino-americanos de língua hispânica como o “enganche”, ou seja, o armador de jogada no meio-campo, que alimenta um trio ofensivo com um centroavante no meio e dois atacantes pelas pontas. O esquema supracitado armou não só os chilenos atualmente sob o comando de Bielsa, mas é também a sua marca por todas as equipes que trabalhou: no Newell's Old Boys, vice-campeão da Libertadores de 1992, e a Argentina, que foi muito bem nas Eliminatórias para a Copa de 2002.
Como qualquer esquema tático, o de Bielsa deu certo apenas pela presença de bons jogadores, que se encaixaram bem nos planos do argentino. O treinador soube bem aproveitar a boa geração de atletas que se destacaram no time terceiro colocado mundial no Sub-20 de 2007, como os ótimos Gary Medel e Arturo Vidal, que são usados na linha de 3 da defesa, além do excelente Matías Fernandez, que é o “1” do desenho do técnico, além de Alexis Sánchez, um dos atacantes. Para completar, não menos importantes foram as boas atuações de Humberto Suazo e Valdívia, que voltaram a jogar muito bem pela equipe nacional.
Sua tática funcionou – e muito bem – no estilo de jogo sul-americano. Mas sua característica extremamento ofensiva, com um trio de atacantes à frente, alimentados pelo armador e protegidos por um volante mais recuado e três zagueiros, permitem que elencos fortes e bem organizados, como da Seleção Brasileira de Dunga, encontrem o espaço adequado para montar seu jogo. E foi nesta abertura, em especial para os contra-golpes, que o Chile de Bielsa tomou uma lavada do Brasil durante as Eliminatórias.
São dois pontas que dominam as laterais, e carregam grande parte das criações de jogadas do time, alternando a posse de bola para cada lado. É um esquema que surpreende mais o adversário, e se torna mais imprevisível, mas permite uma liberdade maior para um oponente que tenha jogadores criativos , uma vez que abre espaço com pouca marcação. A zaga chilena é muito exposta e, pior, tem jogadores relativamente baixos, o que os deixa à mercê do time que entrar ofensivamente encaixado. Porém, o time consegue compensar com o talento de Sánchez e Suazo, que formam uma ótima dupla de atacantes, que se completam e são rápidos e goleadores, ajudados também por Beausejour na esquerda, alimentados por Matías, que é o cérebro do time, o jogador mais habilidoso.
Para “El Loco”, a ideia é que o jogo aconteça no campo do adversário, o que deixa a defesa mais frágil, mas o ataque sempre perigoso. São três zagueiros para cobrir dois atacantes, e um volante defensivo, que saia menos para o jogo. Para criar as jogadas restam os meias que atuam pelas laterais, procurando sempre jogar a bola pra frente, em criação constante nos flancos.
O estilo de jogo acaba imprimindo muita pressão e velocidade, de jogo rápido, o que exige um excelente preparo físico. No caso, atuando contra uma equipe de veloz contra-ataque, como o Brasil, o resultado pode ser desastroso. No retorno de Valdívia, ele passou a criar mais as jogadas do que os pontas, e deixou espaço para o Matías Fernandez atacar mais, enquanto Suazo é o principal finalizador – muito superior a Valdívia, que fica definitivamente melhor na criação.
Com essa formação, basta que Bielsa tenha todos os seus principais jogadores disponíveis na Copa, talvez fortalecendo sua defesa, e a Roja certamente dará trabalho aos favoritos na Copa. Enquanto isso, os chilenos acham que não custa sonhar e acendem velas na esperança de mais um milagre de “El Loco”…


