Muito feito, muito mais a fazer

Toca o telefone do jornalista Marcelo Barreto, apresentador da Rede Globo e do SporTV. É Luis Miguel Pereira, jornalista do SportTV – não o mesmo canal onde Barreto trabalha, mas uma emissora portuguesa, a cabo. Pereira telefona, pois está interessado em publicar alguns de seus livros no Brasil. E pergunta quantos livros Marcelo já publicou. Ao que o brasileiro responde: “Dois livros. E você, quantos livros?” O português, então, dá a resposta que surpreende Marcelo: “22”.
Este caso foi contado por Barreto em uma mesa redonda, realizada na 22ª Bienal Internacional do Livro, que ocorre atualmente no Anhembi, em São Paulo. E, aparentemente, parece indicar que há um longo caminho entre a importância que o futebol tem no mercado editorial de outros países e a tida no Brasil – bem como no número de publicações sobre o assunto. Aparentemente, nada mudou: livros de boa qualidade sobre o esporte mais famoso do país ainda são raríssimos.
Entretanto, outra frase, de outro participante da mesa (Sidney Garambone, editor-chefe do Esporte Espetacular, programa da TV Globo), mostra um cenário esperançoso de mudança: “Acredito que pode-se traçar uma linha divisória: antes e depois da Copa de 2010.” Se o próprio período em que a Bienal ocorre – de 12 a 22 de agosto – não consegue pegar a época de maior número de lançamentos sobre futebol (historicamente, as épocas pré-Copa), é inegável, também, que as publicações existentes mostram cada vez mais qualidade.
Como destaques entre os lançamentos, na verdade, há poucas coisas: apenas “O Mundo das Copas”, de Lycio Vellozo Ribas, publicado pelo selo Lua de Papel, pertencente ao grupo português LeYa. Depois, a coleção “Os onze maiores”, publicada pela editora Contexto – coleção, aliás, que tinha três autores no debate supracitado: além de Marcelo Barreto e Sidney Garambone, lá estava Milton Leite, narrador do SporTV. E, como o único “não-futebolista” da mesa, Artur Xexéo, colunista d’O Globo – e autor de mais um lançamento, “O Torcedor Acidental”, coletânea de crônicas inéditas, editado pela Rocco.
Parece pouco. Mas não é. Pelo menos, não tanto. Milton Leite opinou, durante o debate, que “o diferencial destes livros é a grande qualidade que eles têm”. Qualidade que, por sinal, fundamenta-se na predominância da pesquisa jornalística. Ao invés de romancear o futebol – característica de autores históricos, como Nelson Rodrigues e Armando Nogueira -, as publicações atuais caracterizam-se por alto rigor jornalístico, baseado nos fatos. O que corrobora outra frase que permeou o debate: “A valorização da literatura esportiva é a valorização do jornalismo esportivo”.
Xexéo, porém, discordou da tese de que o futebol é alvo cada vez maior de publicações. Pelo menos, discordou em termos. O jornalista reconheceu o valor dos lançamentos, mas ainda acredita que o futebol como ficção é assunto pouco tratado na literatura. Usou de exemplos do cinema para ilustrar sua tese: “Nas décadas de 1960 e 1970, houve grandes filmes a respeito dos mitos do futebol brasileiro. “Garrincha, a alegria do povo”; “Tostão, a fera de ouro”; “Isto é Pelé”. E, no entanto, não foi dado prosseguimento a isso.” E o colunista ainda disse descrer de que o cenário mudaria até a Copa de 2014 – apontada como uma possível catalisadora de uma explosão futebolística no mercado editorial.
Tal ponto fez com que a discussão chegasse à clássica pergunta: por que a literatura liga tão pouco para o futebol, no Brasil? Marcelo Barreto alegou ser este um grande problema, dizendo: “É preciso quebrar um pouco esta barreira, este certo ‘respeito’ que existe do futebol em relação à literatura. Mais: é preciso aproximar a literatura futebolística do torcedor. Em Portugal, os livros sobre futebol são vendidos em bancas de jornais”.
No entanto, Xexéo fez questão de valorizar os livros sobre futebol – especialmente, as publicações dos autores presentes -, alegando: “É literatura, sim. Tem o estilo próprio do autor na escrita.” E o final do debate foi otimista, com a conclusão de que, por mais que o futebol ainda tenha de quebrar os preconceitos das prateleiras, ele ainda é motivo de publicações interessantes. Como disse Marcelo Barreto, quando indagado sobre se haveria um ponto de partida para o início do interesse pelo esporte: “Já havia livros sobre futebol. A diferença é que eles passaram a ser vistos”.


