Mudar sem mudar

Quando a Espanha venceu a Eurocopa, em 2008, um dos motivos apontados para o grande rendimento da equipe em Áustria e Suíça foi o achado do esquema 4-1-4-1. E, claro, a ótima fase dos jogadores que os compunham: Casillas e Puyol dando segurança na zaga; Marcos Senna oferecendo força, como único homem de marcação no meio-campo; Xavi e Iniesta (com o auxílio de Fàbregas) armando as jogadas com brilhantismo para Torres, o único homem para finalizar. Todos, jogadores que se destacaram na conquista continental da Fúria. Ficava a pergunta: com a saída de Luis Aragonés, como Vicente del Bosque, o sucessor, daria continuidade a um trabalho que terminara tão bem?
Pois o nativo de Salamanca conseguiu executar sua tarefa. Manteve o time espanhol com um estilo de jogo ofensivo e fluido, sem deixar de, vagarosamente, colocar sua marca na equipe. Substituindo algumas peças e introduzindo novas caras na equipe, o técnico conseguiu mudar o esquema-base da seleção: ao invés do 4-5-1, estruturou a equipe num 4-4-2, usando algumas variantes, como jogar com apenas um homem na marcação do meio-campo e dois atacantes, ou com três homens na armação. Tudo isso, sem esquecer o esquema anterior, ao qual ainda volta algumas vezes. Com isso, Del Bosque conservou a boa fase espanhola, garantindo uma ótima campanha nas Eliminatórias para a Copa.
Tal mudança já foi testada no primeiro jogo sob Del Bosque, em 20 de agosto de 2008, na vitória por 3 a 0 sobre a Dinamarca, em amistoso. Ao invés de sofrer para escolher um atacante entre Villa e Torres, o técnico simplesmente escalou ambos. O meio-campo é que não mudou muito: Marcos Senna cuidava da marcação, enquanto a dupla Xavi-Iniesta monopolizava a armação, junto de David Silva. Já na defesa, apenas uma alteração: Puyol teria Raúl Albiol como seu novo parceiro de zaga, enquanto Capdevila, Sergio Ramos e Casillas persistiam firmes em seus lugares.
No primeiro jogo das Eliminatórias, contra a Bósnia, ainda houve a aposta no 4-1-4-1, com Villa sendo escalado como único atacante – e um experimento no meio-campo, com Diego Capel sendo escalado ao lado de Xavi, Iniesta e Fàbregas. Porém, a aposta de Del Bosque foi a mais usada na qualificação: em cinco dos dez jogos, a equipe espanhola foi a campo com um 4-4-2 – e, em quatro dos cinco jogos da participação na Copa das Confederações, foram usadas duas variações do esquema (contra a Nova Zelândia, o time foi de 4-3-1-2; nos três posteriores, foi usado um 4-1-3-2; além da decisão do terceiro lugar, contra a África do Sul, quando o time voltou ao 4-4-2 básico).
A defesa foi um dos setores mais alterados pelas mudanças ocorridas ao longo do comando de Del Bosque. Não com relação ao gol, onde Casillas é o titular indubitável, pela experiência que o tornou capitão do time e um dos melhores goleiros do mundo. Mas nas posições restantes. A boa fase de Gerard Piqué fez com que, aos poucos, o defensor do Barcelona fosse tomando o lugar de Albiol como quarto-zagueiro – até para aproveitar o entrosamento com Puyol.
Ainda no setor defensivo, pela capacidade de jogar nas duas laterais, Alvaro Arbeloa começou a ser mais chamado, a partir de 2009, tornando-se o reserva imediato de Sergio Ramos e Capdevila. Aos poucos, até Marchena, que fora esquecido pouco após a Euro 2008, voltou às convocações. E Puyol chegou a ficar de fora por algumas partidas (como nas duas contra a Turquia, pelas Eliminatórias), antes de voltar. Talvez, o capitão barcelonista seja o único titular inquestionável, além de Casillas. Pela experiência, pela voluntariedade e pela capacidade de, quando necessário, também poder ser improvisado na lateral.
No meio, a única escolha sem questionamentos é Xavi. Com relação ao jogador do Barcelona, nada mudou desde a Euro: ele continua sendo o ponto de equilíbrio do setor, com rara habilidade para armar jogadas e deixar o ataque em boas condições, além de auxiliar a marcação. Porém, em torno dele, houve uma alteração substancial. O 2009 turbulento que Iniesta teve, em razão de contusões que o deixaram fora até da Copa das Confederações, fez com que a equipe desse mais força ao setor de marcação.
Já com idade avançada demais para fazer o que fez na Euro (isto é, agüentar sozinho a tarefa de repelir os ataques adversários), Marcos Senna foi dando lugar a Xabi Alonso. E este tinha a ajuda de, às vezes, receber a companhia de Cazorla – e até de Busquets, mais um que se valeu das atuações no Barcelona para ganhar vaga na seleção. Já na armação, Fàbregas e Albert Riera receberam mais oportunidades, mas não conseguiram o entrosamento que a dupla Xavi-Iniesta possui.
Villa e Torres, no ataque, são outros dois titulares indubitáveis. Por saberem buscar as jogadas fora da área, ambos evitam a “colisão” de estilos: um pode agir como finalizador, enquanto outro recebe as bolas. E a mobilidade do ataque aumenta quando, por exemplo, Mata e Silva (ou Jesús Navas) chegam pelos lados. E há até a hipótese de fortalecer apenas a finalização: nesse caso, geralmente Güiza pode ser usado. Ou até Negredo.
Porém, os últimos jogos indicaram que Del Bosque pode estar retornando ao cenário que encontrou: nos amistosos contra Argentina e França, a equipe foi a campo, respectivamente, com um 4-1-4-1 e um 4-2-3-1. E Marcos Senna, aos poucos, vai voltando à equipe. O que prova que a equipe até mudou com Del Bosque. Mas continua a mesma.


