Medicina Futebol Clube

Um dia, num longínquo janeiro de 1967, o futebol brasileiro perdeu um lateral. Uma dividida com o ponta Gílson Porto, talento que brilhou com as camisas do Corinthans, Internacional e Bahia, um choque no alambrado e… a carreira do lateral Quincas chegava ao fim. Com o joelho arrebentado e numa era paleozóica para a medicina esportiva, restava ao jovem aceitar o fato de que, daquele momento em diante, só jogaria futebol de botão ou pebolim. Morria o futebolista… e nascia um dos mais renomados profissionais médicos que o futebol brasileiro já teve em seus quadros. Morria Quincas, nascia Joaquim Grava.

A história do médico é contada no livro “Medicina Futebol Clube”, da editora Artemeios. Já na capa do livro, vê-se uma peculiaridade: “Joaquim Grava por Tim Teixeira”. Ou seja, em vez de fazer uma autobiografia propriamente dita, Grava preferiu apenas fornecer os dados relativos a sua história pessoal e profissional, deixando para o jornalista Tim a espinhosa tarefa de ´ajeitar o meio-campo´ do livro. Resistiu, assim, à tentação que transforma os biografados em escribas da própria história, com resultados muitas vezes de gosto duvidoso.

O médico e os monstros

A história pessoal de Joaquim Grava é como a de muitos brasileiros. Menino pobre, sonhava em ser jogador de futebol. Chegou a obter destaque nos times amadores do Estrela Vermelha e do Guapira, de São Paulo. Tudo se acabou num jogo entre o Paulistano, que defendia por empréstimo, e a Portuguesa de Vila Guilherme, quando sofreu a já mencionada contusão. Das idas e vindas com sua mãe, Dona Tite, ao hospital, de tanto ver outras pessoas machucadas, Grava fez uma promessa à mãe: seria médico. Não só médico, mas ortopedista. E do Corinthians, time de seu coração, que aprendera a amar após uma vitória de 1 a 0 sobre o Palmeiras, em setembro de 1964. E da seleção brasileira, que vivia dias de glória após os títulos mundiais de 1958 e 1962.

As quatro etapas da promessa foram cumpridas à risca, com direito a uma curta passagem pela Portuguesa. Só de Corinthians, foram 25 anos, 18 dos quais à frente do departamento médico do clube do Parque São Jorge. Com tanto tempo de carreira, Grava é uma testemunha e tanto das calmarias e tormentas que se abateram sobre o Timão. O caso Giba, que até hoje nas entrelinhas acusa o médico de ter acabado com sua carreira, os quilinhos a mais de Neto no Brasileirão de 90, a tentativa de Casagrande em nadar na junção das águas dos rios Solimões e Negro durante uma estada do time no Amazonas, tudo está registrado lá. Essas passagens estão sempre no fim de cada capítulo, o que faz um interessante contraponto com a história pessoal do médico.

Há, também, passagens esquecíveis. Jogadores de maus bofes, dirigentes com rompantes de estrelismo… e Grava não tira o bisturi da dividida. Ninguém, por mais suja que seja a história, tem seu nome omitido. Estão todos lá: Marcelinho, Luxemburgo, Dualib e, principalmente, Roque Citadini. Não vou contar o que Grava fala sobre ele no livro, até para não estragar a surpresa. Fica a dica: não convidem os dois para um duelo de espadas…

A história de Joaquim Grava, no fundo, tem um quê de fábula moderna. Garoto pobre, torcedor fanático do Corinthians, realizou por outras vias que não o caminho traçado dentro das quatro linhas o sonho de trabalhar no clube do coração. Tanto sua história pessoal como suas histórias profissionais mostram que uma dividida ríspida com um adversário, às vezes, pode acabar sendo um bom negócio.

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