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“Me arrependi de deixar o Bayern Munique”

Depois de ganhar a Liga dos Campeões em 2001 e marcar 133 gols na Bundesliga pelo Bayern Munique, tornando-se assim o segundo estrangeiro a marcar mais gols na história do Campeonato Alemão, Giovane Élber saiu do time da Baviera e foi para o Lyon.

A mudança acabou não sendo tão boa como ele esperava, e admite hoje em dia: “Fiquei chateado em sair do Bayern”.

Nesta entrevista exclusiva à Trivela, ele contou os motivos pelos quais saiu dos Roten. Além disso, Élber elogiou Franz Beckenbauer, Ottmar Hitzfeld e Paolo Maldini e disse o significado de ter ganhado uma Liga dos Campeões no estádio do Milan.

Você foi para o Milan com 17 anos. Pelo fato de não ter jogado no clube, você se arrependeu de ter saído do Brasil?
De maneira alguma. A melhor coisa que podia ter acontecido na minha carreira foi ter feito um contrato com o Milan. Porque foi lá que começou a minha trajetória. Sair de um clube como o Londrina, que era da terceira divisão no Campeonato Brasileiro, e já ir para uma equipe como o Milan, só tive que agradecer.

Então, mesmo não jogando, você não pensou em voltar?
Não, nunca passou pela cabeça. Na época só podiam jogar três estrangeiros no Campeonato Italiano. E o Milan tinha três holandeses que eu não tinha como passar por eles, que eram Van Basten, Gullit e Rijkaard. Então tive que ter paciência. Sabia que a minha hora iria chegar. Tinha que trabalhar. Por isso, fui para a Suíça e até fiquei meio sumido do futebol. Lá comecei o meu trabalho visando três, quatro anos depois.

Depois foi para o Stuttgart.
Quando eu cheguei no Stuttgart, já conhecia a forma de jogar do Campeonato Alemão e dos campeonatos europeus. Então nem senti tanta pressão no Stuttgart e no Bayern Munique.

Como é a forma de jogar dos europeus?
No Brasil, tem mais toque de bola. Aguarda-se mais para chegar ao gol adversário. Na Europa, não tem que ficar dando pedalada, tem que chegar o mais rápido possível em direção ao gol.

No Bayern Munique você conviveu com um dos maiores jogadores alemães de todos os tempos, o Franz Beckenbauer. Como o Kaiser é pessoalmente?
Ele é uma excelente pessoa, que trata todo mundo igual e com respeito, independente se o jogador que está no clube é titular ou reserva. Por isso ele é o Kaiser. Isso não só com os atletas do Bayern Munique. Eu já vi e presenciei ele cumprimentando os jogadores de outros times depois das partidas. O Kaiser tem uma estrela fora do comum. Ele é a pessoa mais gente boa que eu conheci no futebol por tudo o que fez dentro de campo, pelo nome que tem e pela representação dele no futebol mundial.

Como era o contato do Beckenbauer com os jogadores do clube?
O contato com ele era mais nos dias de jogos e quando a gente ficava no hotel para jogar a Liga dos Campeões e ele viajava junto. Não era um contato de toda hora estar do lado dele. Encontrava ele na hora do café da manhã, do almoço, do jantar. Fora isso, ele fazia os compromissos dele com a Uefa e a gente se concentrava no jogo.

Na época em que você jogou no Bayern, a equipe teve como capitão Stefan Effenberg e Oliver Kahn. Como era a liderança de cada um?
O Oliver Kahn sempre respeitou o Stefan Effenberg quando este era capitão. Foi uma opção do treinador. O Effenberg, por ter uma liderança entre os jogadores, tinha o respeito de todo mundo, não só do Kahn. Ele sempre brigou pela gente, pelos jogadores do time dele. O Oliver Kahn, assim que o Effenberg saiu do Bayern Munique, tornou-se o capitão. Foi o capitão mais pela idade de clube e pela idade dele. O Kahn era uma pessoa de poucas palavras, diferente do Effenberg, que conversava bastante dentro de campo. O Kahn chamava a atenção no vestiário, essa era a maneira dele de ser capitão.

Em uma entrevista, você disse que o Ottmar Hitzfeld usava a psicologia para ajudar os jogadores. Como isso funcionava?
Se um treinador não usa um pouco a psicologia, ele não consegue liderar um clube como o Bayern Munique, que só tem estrelas. Os jogadores que estão no Bayern jogam em seleções, então o técnico tem que ter a cabeça boa e no lugar. Tem que ser um psicólogo que sabe extrair o máximo de cada um e que conversa com o jogador na fase difícil e passa coisas boas para melhorar.

O Hitzfeld foi o melhor treinador com quem você já trabalhou?
Sem dúvida. Ele foi para mim o melhor treinador por causa desse lado psicológico de conseguir manter o time em um só pensamento e objetivo, que é o de ganhar o título.

Depois de dez anos na Alemanha, você foi para o Lyon. Por que você saiu do Bayern?
O Bayern queria contratar o [Roy] Makaay e o meu contrato estava acabando. Eles pensavam que se eu ficasse mais um ano no clube, sairia a um custo zero. Então fizeram um trabalho para que eu ficasse aborrecido e saísse do Bayern Munique. Assim eles conseguiriam algo na venda. Deixaram claro para mim que, se eu continuasse, seria banco ou ficaria só na tribuna. Então pensei o seguinte: “Tenho 32 anos, não quero ficar na tribuna recebendo o meu salário. Quero jogar futebol”. Por isso resolvi sair e conseguiram me vender para o Lyon. Saí meio chateado. Só que eu disse que iria sair e não pensei duas vezes. Quando cheguei em Lyon, me arrependi. Pela forma de jogar, o campeonato francês como um todo… Fui campeão francês no meu primeiro ano no Lyon. No segundo ano, infelizmente, machuquei o tornozelo. Mesmo vencendo o Campeonato Francês, não me considero como campeão porque foi um ano muito ruim.

Em 2003, quando o Lyon enfrentou o seu ex-clube, o Bayern, no Olympiastadion, ficou com medo da reação da torcida dos alemães quando você marcou o gol da vitória?
Não, de maneira alguma. Nunca senti medo jogando com o Bayern Munique nem contra eles. Eu sempre senti o carinho que os torcedores têm por mim. Até o Juninho Pernambucano brincou: “Parece até que um presidente do Brasil está chegando em Munique”. Ele nunca tinha visto tantos fotógrafos e jornalistas esperando um jogador do time adversário chegar em um país. Então foi um sentimento muito gostoso. Um sentimento de que tudo o que eu fiz pelo clube teve um reconhecimento dos torcedores do Bayern Munique. Mesmo eu fazendo um gol que naquele momento estava retirando o Bayern da Liga dos Campeões, os torcedores gritaram o meu nome.

O que você acha que um jogador precisa fazer para se tornar ídolo do Bayern?
Muito trabalho. Respeitando os torcedores, a hierarquia e os diretores do clube e fazendo a sua parte dentro de campo, você conquista o seu espaço em qualquer clube, não só no Bayern Munique.

Você ainda tem uma ligação muito forte com o Bayern…
Tenho. O Bayern Munique me deu tudo. Os títulos mais importantes que eu conquistei foram com a equipe. É um clube que deixou marcada a minha trajetória na Europa.

Você tem o sonho de assumir algum cargo dentro do clube?
No momento, isso não passa pela minha cabeça. Penso em ajudar o clube da forma que eu posso ajudar, tanto se for dentro do Bayern perto dos torcedores quanto fora.

Você voltou ao futebol brasileiro em 2006 para jogar no Cruzeiro. Como foi se adaptar ao futebol aqui depois de só ter jogado em clubes europeus?
A readaptação é difícil. Assim como precisei de tempo para me acostumar com o futebol europeu, precisei de uns três, quatro meses para me readaptar ao estilo, gramado e treino do Brasil. Na época, teve o Campeonato Mineiro. Comecei a jogar no banco de reservas, me tornei titular e acabei sendo artilheiro do Cruzeiro e campeão mineiro. No Campeonato Brasileiro foi muito legal. Mas comecei a pensar o quanto foi bom eu ter saído cedo do Brasil. O Campeonato Brasileiro é desgastante. Os jogos, as viagens e o tempo de concentração são muito longos. Isso cansa muito o atleta. Durante a semana, eu passava um dia em casa. O resto era viajando e na concentração.

Recentemente o Bayern anunciou que não contratará mais jogadores sul-americanos. Por que a diretoria tomou essa medida?
Na temporada passada, o Bayern conquistou a Bundesliga e a Copa da Alemanha e chegou à final da Liga dos Campeões sem ter contratado, só investido nas categorias de base. Então o treinador quer fazer a mesma coisa nos próximos anos. Mas não é todo ano que você vai ter uma safra como teve ano passado no Bayern Munique. Esta temporada, já deu para sentir que os jogadores e o clube não estão muito bem no campeonato. Já começaram a Bundesliga patinando. Eles falam que vão reverter a situação e já estão pensando na contratação para janeiro.

E por que não contratar mais os sul-americanos?
Acredito que seja pelo tempo que tem que se esperar para um jogador sul-americano se adaptar ao país. Então o Bayern acha melhor comprar os jogadores que estão na Europa, pode até ser sul-americano que já joga na Europa. As últimas contratações não deram tanto resultado. Contrataram o argentino Sosa, que mal jogou no Bayern. O Breno, que se machucou, e agora está voltando. O último que saiu da América do Sul e deu certo foi o Martín Demichelis.

Os jogadores sul-americanos têm mais dificuldade de se adaptar ao país e ao clube?
Não é que eles têm mais dificuldade. Todo jogador tem dificuldade de se adaptar em um novo clube. Às vezes, você muda de time e tem dificuldade de se adaptar mesmo jogando na liga e no país em que estava anteriormente. Nem sempre você se adapta ao estilo de jogo da outra equipe. Isso acontece não só com sul-americanos. É que o sul-americano, pode-se dizer, é um jogador de menos paciência, que se ele não teve oportunidade concreta de jogar nos três primeiros meses no clube, já fala que quer sair.

Você era conselheiro do Bayern até o mês passado, mas deixou o posto quando o time anunciou que não contratará mais jogadores sul-americanos. Você pretende no futuro voltar a assumir algum cargo no Bayern Munique?
É difícil falar isso agora. Eu continuo fazendo coisas para o Bayern Munique. Quando me falaram que não contratariam mais jogadores sul-americanos, falei: “Não tem porque eu continuar olhando para vocês os jogadores na América do Sul. Então vamos deixar as coisas em aberto. Assim que vocês precisarem de alguma informação, vou ajudar”. Tanto que, há uma semana, veio uma pessoa do Bayern Munique para o Brasil para ver algumas partidas do Campeonato Brasileiro. Então não está 100% fechado para os sul-americanos. Uma porta sempre estará aberta para um jogador de boa qualidade.

Você se lembra da decisão do Mundial de Juniores em 91 contra Portugal?
Lembro, não tem como esquecer. A gente tinha tudo para ter ganho no tempo normal. O Paulo Nunes até chegou a fazer um gol, mas o juiz deu impedimento. A decisão foi para os pênaltis e acabamos derrotados. Portugal tinha uma boa equipe com Figo, João Pinto, Rui Costa. Mas a nossa equipe era superior a deles. Eles tiveram sorte também por jogarem em casa. A gente jogou em um estádio com 128 mil pessoas. Então foi uma coisa muito emocionante.

Qual a importância de um jogador atuar na seleção de base antes de chegar à principal?
É bom para conhcer o andamento de uma seleção. E, quando você chega na seleção principal, você já tem um histórico dentro da CBF e da Seleção. Então as coisas ficam mais fáceis.

Quem foi o melhor jogador que você já enfrentou?
Paolo Maldini. Quando eu tinha que jogar contra o Milan, era difícil passar por ele. Teve um jogo que eu quase nem relei na bola. Quase sempre ele conseguia antecipar a jogada. É um jogador muito inteligente.

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?
Foi ganhar a Liga dos Campeões no estádio do Milan. Milão foi a minha porta de entrada na Europa. Pena que eu não pude jogar no Milan pela regra de limite de estrangeiros. Dez anos depois volto no estádio do time que me contratou e ganho a Liga dos Campeões. Isso para mim foi marcante.

Atualmente, você acompanha os jogos da Bundesliga e da seleção alemã?
Assisto. Vejo quase todos. Acompanho o Bayern Munique e Stuttgart, que foram os clubes onde eu joguei. Mas, é claro, que os dois olhos ficam no Bayern. Um olho e meio fica no Stuttgart.

Na última Copa da África do Sul, a Alemanha foi elogiada pelo estilo de jogo. Como os jogadores que atuaram no último Mundial são jovens, eles têm chance de estar na Copa de 2014. Você considera a seleção alemã uma das favoritas para o próximo Mundial?
Hoje é a grande favorita para o Mundial que vai ser realizada no Brasil. Os alemães foram para a Copa da África sem muito peso, com pensamentos de “vamos dar chance aos jovens talentos” e acabou dando certo. Muitos deles estavam disputando a sua primeira Copa. Jogaram uma barbaridade e foram muito bem. Então é uma seleção que em 2014 vai vir com tudo e os jogadores estarão no auge da carreira. Talvez o Klose não esteja mais presente. Nós brasileiros até esperamos, pois assim ele não pode ultrapassar o Ronaldo em gols em Copas do Mundo. Essa seleção da Alemanha vai dar muito trabalho.

Em entrevista à Trivela em 2006, você disse que era prematuro o Brasil organizar uma Copa do Mundo por causa do gramado, da infraestrutura e da violência nos estádios. Você acha que mesmo com as reformas que serão feitas, as arenas brasileiras continuarão inferiores ao padrão europeu?
Em 2006, era uma situação. Hoje, quatro anos depois, já mudou bastante. Você vê até que alguns clubes do Campeonato Brasileiro se reestruturaram profissionalmente. Tanto que alguns jogadores vêm da Europa jogar no Brasil, pensam em ficar aqui e em não voltar mais para lá. É tudo uma questão de organização. Fazer uma grande festa que é a Copa do Mundo os brasileiros têm condições. Mas, infelizmente, muito dinheiro vai para pessoas que não têm nada a ver com o futebol.

Você tem algum projeto para o futuro?
Meu projeto para o futuro é continuar fazendo aquilo que eu faço, estar ajudando o Bayern Munique. Tem o clube da minha cidade, o Londrina, estamos procurando reestruturar ele para ver se ele volta a ser o Tubarão da Alegria também.

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