Mandinho: “Na Estônia cheguei a ter o pé congelado durante o jogo”

Armando Tarlazis Vieira do Santos, ou simplesmente Mandinho, é desconhecido no Brasil. O jogador pode até ser lembrado por alguém nas passagens pelo Palmeiras B, XV de Piracicaba, Juventus, Taboão da Serra e Paraguaçuense. Mas foi na Europa que o paulistano de 27 anos desenhou sua carreira. A primeira parada no Velho Continente foi na Dinamarca, onde jogou por Brondby, Hvidovre e Greve Fodbold.
Depois do futebol dinamarquês, Mandinho fincou os pés na região báltica, mais especificamente na Lituânia. Começou no Siauliai, passou rapidamente pelo LKKA e se transferiu para o futebol estoniano, para defender o Narva Trans. Por dois anos permaneceu na Estônia, mas agora está de volta a um clube lituano, para vestir a camisa do jovem Klaipeda.
Como foi sua primeira experiência na Europa?
Desde bem jovem eu tinha a possibilidade de ir para a Dinamarca. Meu tio, que é dinamarquês, apresentou meu material para pessoas de lá e eles se interessaram muito, mas acho que por insegurança e até falta de conhecimento da minha parte, acabei adiando essa ida por alguns anos. Quando me dei conta que era uma grande oportunidade, meu tio entrou em contato com eles e fui para lá fazer um teste. Deu tudo certo e acabei ficando na Dinamarca por dois anos.
É muito recorrente a difícil adaptação a costumes e ao futebol europeu. Como foi isso no seu caso?
Eu não tive nenhum momento de grande dificuldade em nenhum dos países que eu morei. Eu tive muitas pessoas de bom caráter perto de mim que sempre me ajudaram e apaziguaram as saudades que eu sentia do Brasil. Nunca vai ser igual a morar no seu próprio país, mas quando a gente sai em busca de um objetivo acaba não se abalando com nada. Na Dinamarca eu senti muita diferença na alimentação, porque lá não se almoça, apenas come-se um lanche e à noite há a refeição de verdade. Tive dificuldades também no inverno porque a maior parte do tempo ficava escuro e era bem depressivo, e no verão por ficar sempre claro era muito difícil de dormir à noite. Mas é um país que eu tenho muito carinho e um dia espero poder morar de novo e criar meus filhos lá.
Como é a vida na Dinamarca? E o futebol dinamarquês?
É um país onde tudo funciona e a qualidade de vida é muito alta, além das pessoas serem surpreendentemente muito simpáticas e carinhosas. No futebol dinamarquês eu acabei tendo que mudar de posição. Comecei a jogar mais avançado ou pelas pontas. No Brasil eu jogava mais na armação das jogadas, ou mesmo de volante. Mas na Dinamarca, como o jogo era de muitos passes longos e diretos da defesa ao ataque, eu jogava pelas pontas ou mesmo como centroavante. Apesar de eu não ser alto, sou um jogador forte e consigo brigar pelas bolas.
E a mudança para os países bálticos, como foi?
Os meus dois anos na Dinamarca foram muito importantes para a minha adaptação também na Lituânia e na Estônia. O inverno nos países bálticos é infinitamente mais frio do que na Dinamarca ou Suécia. Na Estônia cheguei a ter o pé congelado durante o jogo, as unhas ficaram azuis e depois acabaram caindo. Mas com o tempo fui aprendendo a lidar com o frio e hoje consigo sofrer menos nos invernos aqui. O futebol nesses dois países é muito parecido. Muita disputa, muita força. Por eu ser um jogador mais forte fisicamente não tenho tanta dificuldade com isso. Apenas às vezes acabo apanhando por tentar dar um drible, ou carregar mais a bola, mas é parte do jogo.
O que fez você voltar à Lituânia, dessa vez defendendo o Klaipeda?
Decidi vir para cá por causa do projeto, da proximidade com a minha família e principalmente pela oportunidade de trabalhar de novo com o Luiz Antonio [técnico do time]. Eu acredito que ao final desse ano serei um jogador muito melhor do que sou hoje, graças ao trabalho dele.
O reencontro com o treinador ajuda, já que vocês trabalharam juntos na Dinamarca?
Sim, facilita muito meu trabalho a progredir. Mas ele é um treinador muito exigente. Ele não facilita no sentido de deixar o trabalho mais fácil, pelo contrário. Quando já estamos no automático, ele muda tudo e nos faz sair de novo da zona de conforto. É um treinador que sabe tirar o melhor de cada atleta o tempo todo. Ele fez um grande trabalho no Olaria esse ano, no Campeonato Carioca, trabalhou no Vasco, na Coreia, Dinamarca, então é muito credenciado. Isso realmente é uma grande oportunidade para a minha carreira e também para o projeto do clube.
Além do Luiz Antonio, há outro brasileiro, o Taciano, jogando no Klaipeda. Como é essa relação?
Fazemos tudo juntos, um ajudando o outro, vemos filmes brasileiros, conversamos, ouvimos música brasileira. Ajuda a sentir menos falta. Além do mais, são dois grandes seres humanos que eu vejo como parte da minha família e grandes profissionais também.
Como é o Klaipeda em termos políticos e de estrutura? Há um projeto de tornar o clube grande na Lituânia?
O clube tem uma boa estrutura tanto para o verão, quanto para o inverno. No inverno treinamos mais em campos fechados ou ginásios, além de academia e pista de atletismo. No verão temos os campos de treino com grama sintética e natural e temos um bom estádio, mas estão construindo outro, maior, que deve ficar pronto em alguns anos. O Klaipeda tem um grande projeto a médio e longo prazos. Eu fico feliz que, apesar da ambição, os diretores, o presidente e todos envolvidos têm os pés no chão e sabem que nada acontece da noite para o dia. Eles têm trabalhado muito para colocar tudo nos trilhos e todos estamos engajados em fazer o clube atingir um patamar de protagonismo no futebol lituano, primeiramente, e depois poder almejar objetivos maiores.
E a torcida do Klaipeda?
É uma torcida muito agradável. Toda hora temos palavras de incentivo e não vi até agora nenhuma atitude hostil por parte deles. Ano passado, para os parâmetros da Lituânia, o clube teve boas médias de público. Mas o Klaipeda era o único time da cidade na primeira divisão. Esse ano tem mais um time [Atlantas], então não sei se a média de público vai ser a mesma. Espero que até aumente, porque este ano temos tudo para fazer uma temporada muito melhor que a do ano passado.
Como é jogar no frio lituano e em grama sintética?
Jogar no frio é um grande desafio. Temos uns cremes aqui que esquentam o corpo, e também tomamos muito chá. Mesmo assim o rosto congela às vezes e fica difícil até de falar. A grama sintética aqui dos campos é de boa qualidade, não compromete tanto o andamento do jogo. Mas lógico que é bem diferente de uma grama natural. Principalmente quando está nevando, a bola fica muito mais rápida e muito difícil de controlar. Mas tudo é questão de costume e de humildade de prestar atenção de como as pessoas daqui lidam com o frio e tentar aprender ao máximo.
Como você avalia o futebol na Lituânia? Qual o nível de profissionalismo do futebol no país?
A mentalidade de futebol aqui é bem diferente da que encontramos no Brasil ou mesmo nos países europeus com maior tradição de futebol. Falar de profissionalismo e amadorismo é muito complicado porque o conceito pode mudar de acordo com a mentalidade de cada lugar. O Luiz Antonio está implantando uma mentalidade diferente da que é comum aqui. E penso que esse intercâmbio só tem a melhorar o nível do futebol aqui. Os jogadores lituanos são muito dotados fisicamente e quando alguém consegue implantar um trabalho que vise mais a coordenação, a técnica, a criatividade, o nível deles aumenta muito. Além também da parte disciplinar extra-campo, que o professor exige uma conduta rígida também nas horas vagas. A verdade é que o trabalho que ele está fazendo aqui seria inovador até para muitos clubes no Brasil.
Como é a sua família por aí, com filha e esposa lituanas? Uma família meio brasileira, meio lituana.
Somos uma família comum, eu espero. Estou curioso para saber qual língua a minha filha vai aprender primeiro. Apesar de a minha esposa ter aprendido português, no ano em que moramos no Brasil, a família dela não fala nem português, nem inglês. Então a minha comunicação com elas é no lituano que eu aprendi aqui e no pouco de russo que aprendi na Estônia. Mas tenho muito carinho não só pela família da minha esposa, mas pelo povo lituano em geral. É um povo sofrido, trabalhador, que passou por muitas situações difíceis ao longo da história. Logicamente eu tenho muito orgulho de ser brasileiro, mas também sinto muito orgulho da minha filha ser nascida na Lituânia. Ela é moreninha como eu e acabou de completar um ano, mas já fica chutando bola, então acho que herdou a nossa paixão pelo futebol. Burocraticamente, casar com uma estrangeira e ter uma filha fora do Brasil não me trouxe nenhuma vantagem, pelo contrário. É complicado demais ter que registrar tudo, duas vezes em dois países tão distantes. Mas pelo fato da família da minha esposa ser de muitos valores éticos e a minha também, penso que é uma mistura que fará muito bem à minha filha.
Já teve oportunidades ou pensou em voltar ao Brasil?
Sempre tem alguém me oferecendo algo para voltar. Às vezes não é nem coisa certa, apenas sondagem. Dois anos atrás eu voltei ao Brasil, mas não acho que tenha sido uma decisão acertada para minha carreira. Esse ano houve a conversa para eu jogar a série A do Paulistão, mas acabou não dando certo. Eu gostaria um dia de jogar no Brasil. Lógico que futebol é o meu trabalho e eu tenho que estar onde me ofereçam as melhores condições. Este ano devo ter meu passaporte grego, então abrirá ainda mais meu mercado aqui na Europa, mas um dia, se tudo se encaixar, ficarei muito feliz de voltar ao Brasil.


