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“Maior desafio é formar mentalidade profissional”

Ele jogou com Pelé no Santos e sua carreira de treinador está prestes a completar 30 anos com andanças pelo Brasil e Mundo Árabe. Estamos falando de José Roberto Fernandes, 59 anos, um dos técnicos brasileiros mais cultos da atualidade. O ex-goleiro de Ponte Preta, Santos e Capivariano, fala e escreve em três idiomas e ‘se defende’ em outros três. Neste bate-papo com ele, a Trivela aproveita para discorrer sobre diversos assuntos tendo como gancho suas passagens por Oriente Médio e norte da África.

As diferenças metodológicas e estruturais entre as duas regiões, a crise do futebol no Kuwait, passando por Arábia Saudita, Iêmen, Líbia, e indo até Romário. José Roberto (foto ao lado) ajudou a lapidar o ‘baixinho’ nos juniores do Vasco da Gama e revela o real comportamento – surpreendente – do astro do tetra naquela época.

Confira a entrevista no texto abaixo e aproveite o alto nível de conhecimento e vivência de quem já treinou mais de 30 clubes e seleções em 9 países!

Desde os anos 70 o futebol árabe teve forte influência estilística brasileira com a entrada dos nossos treinadores na região. Pela sua experiência no Golfo, em qual aspecto o futebol árabe atual se assemelha ao futebol brasileiro? O que eles herdaram da nossa escola depois de tantos anos contando com nossos profissionais?
O investimento dos árabes em treinadores brasileiros se deu justamente para que o futebol árabe tivesse em seus jogadores a técnica brasileira, trazendo a eles o estilo de nossa escola, com habilidade. Além da tática mais alegre do que a empregada na época por treinadores estrangeiros. Principalmente os ingleses, que aderiam ao jogo aéreo, sem troca de passes e com ligação direta da defesa ao ataque, fazendo com que o jogador talentoso fosse tolhido em sua habilidade.
O trabalho da escola brasileira foi implantado desde as categorias de base, e o resultado foi surpreendentemente positivo.
A criança árabe se espelha nos craques brasileiros, imitando os malabarismos de nossos jogadores assim como a maneira como se movimentam dentro do campo.
Deve-se salientar que o jogador árabe tem um tipo de brasileiro não só no aspecto físico, como na maneira de jogar futebol.

Conceitue para nós, de forma abrangente, o futebol africano na atualidade com suas virtudes e defeitos?
O problema do futebol africano é somente o financeiro.
A África praticamente se divide em duas: os chamados paises da África negra e os árabes tais como Egito, Tunísia, Marrocos, Argélia, Libia…
Os jogadores árabes (na África) são de boa habilidade técnica e tem uma boa estrutura clubística, exceção da Líbia, que é um caso a parte.
Normalmente tem bons salários e alguns deles vão jogar na Europa. Diria eu uma minoria..
Já os considerados africanos, tem uma menor condição financeira e os clubes deixam a desejar. Em compensação os atletas possuem, além de qualidade técnica, um vigor físico muito grande, e com muita velocidade.
Estes vão em grande número jogar na Europa, esvaziando os campeonatos nacionais. Entretanto, podemos observar a qualidade do futebol africano
quando as seleções disputam as competições internacionais.

Existem muitas diferenças entre o futebol árabe no Oriente Médio e no norte da África? Quais?
A maior diferença esta no poder aquisitivo dos clubes. No Oriente Médio investem mais nos clubes e tem uma melhor organização. No norte da África, os países árabes acompanham de perto os clubes do Oriente Médio, e no aspecto técnico o futebol norte-africano é muito superior ao do Oriente Médio.

Recentemente entrevistamos o técnico da seleção de Cingapura, Radojko Avramovic, que já treinou o Kuwait. Segundo ele, o grande problema da decadência do futebol kuwaitiano, que vem perdendo espaço na região para os emergentes Bahrein e Omã, são os dirigentes. Eles ficam disputando quem tem mais influência no poder. Você teve oportunidade de trabalhar lá, no auge da seleção do Kuwait, quando eles disputaram a Copa de 82. Na sua visão, qual o motivo da decadência?
Vivi quatro anos no Kuwait (1981-1985), foi a época do apogeu do futebol kuwaitiano.
Muitos treinadores, preparadores físicos, treinadores de goleiros e até médicos e massagistas brasileiros trabalharam lá. Deram uma infra-estrutura muito grande aos clubes. Além de padrão técnico, disposição tática e determinação.
Nomes como Didi, Zagallo, Parreira, Américo Faria, Antonio Lopes e outros treinadores contribuíram muito com o futebol de lá, que ainda contava com uma geração de jogadores muito bons como Faisal Dakhi, Jassem Yacoub e outros.
O futebol sempre foi comandado pela família Al Sabah e por isso acredito que a decadência apenas aconteceu por problemas de guerra, e tudo piorou em 1985, quando a guerra entre Iraque e Irã estava prejudicando o Kuwait, que apoiava o Iraque, e teve uma série de atentados a bomba. Inclusive um contra o ‘Sheikh’ Jaber Al Sabah Emir.
Mais tarde o Kuwait sofreu a invasão do Iraque, e muitas vidas de jovens foram ceifadas, inclusive atletas. Além do presidente da Federação de futebol, o ‘Sheikh’ Fahed Al Sabah (famoso pela invasão de campo na Copa de 1982).
Outro fator é que poucos profissionais brasileiros foram trabalhar lá depois desse período. Não se fez mais a estrutura que havia sido feita nas décadas de 70 e 80, e o futebol do Kuwait voltou ao estilo de bolas longas e pouca habilidade.
O trabalho de base precisa ser retomado no estilo brasileiro, pois só assim o crescimento será rápido.

Como eram os clássicos dos Emirados Árabes entre Al Ain e Al Wahda nos anos 80?
Na década de 80 os clássicos nos Emirados não eram tão fortes como agora. Al Ain e Al Wahda não tinham a rivalidade de hoje, e o Al Wahda não atravessava grande momento.

Existia suspeita de propina ou manipulação de resultados por parte dos ‘Sheikhs’?
Jogos manipulados ou com resultados pré-fixados não, mas influência em arbitragens, isso sempre aconteceu. Em proporção ao poder dos dirigentes.

Falamos com Zé Mário, que foi campeão nacional nos Emirados Árabes, há alguns meses, e ele afirmou que ainda vai demorar muito para um jogador do Golfo estourar na Europa. Segundo ele, os jovens árabes só começam a treinar sério quando chegam aos profissionais. Pela sua experiência com os jovens na região, quais são os maiores desafios?
A formação de uma mentalidade profissional é o maior desafio que o mundo árabe enfrenta. Não só para atletas, mas também para dirigentes, que na sua maioria dirigem seus clubes de forma semi-profissional.
Outro fator é o status de vida, principalmente no Golfo, onde os jogadores tem uma vida muito confortável e não se arriscam em outros mundos. Vivem bem e tem em sua religião a certeza que podem vivê-la sem obstáculos.

Experiência internacional não existe nos jogadores do Golfo, e isso é prejudicial, pois eles se fecham num mundo só deles, não vivenciam competições européias de alto nível, e com isso prejudicam o progresso das suas seleções. Qual sua visão sobre este problema?
Não se despertou na mentalidade do jogador árabe a ambição de se projetar em outros paises e de procurarem melhor condição de aprimoramento de suas técnicas e modo de jogar.
Quanto as seleções, pelo fato de não haver uma sequência de trabalho do ponto de vista técnico, pois há uma constante mudança na comissão técnica, não vejo no jogador árabe aquela vontade de fazer a seleção se sobressair como vemos nos paises europeus, por exemplo.

O Al Nasr vive um incômodo jejum de quase uma década sem títulos. Quais são as maiores dificuldades, em território saudita, para bater de frente com Al Ittihad, Al Hilal, e Al Shabab? Só é o dinheiro?
O grande problema do Al Nasr da Arábia Saudita é o lado financeiro.
O falecido Príncipe Abdul Ahman Bin Seud fez do clube um feudo, arranjou muita briga política, o que influenciou na vida do clube. Na minha época (98/9), o seu filho, príncipe Faisal, assumiu o clube e teve contra si o seu pai, por divergências políticas. Uma pena, pois o Al Nasr é um dos clubes de maior torcida na Arábia Saudita.

O Iêmen é a seleção mais frágil do Golfo, mas deu leves sinais de melhora na última Copa do Golfo, em janeiro. Pelo pouco tempo que o Senhor passou no comando técnico da seleção, quais são as maiores dificuldades para se trabalhar lá?
No Iêmen, o profissional de futebol encontrava na minha época (99) todas as dificuldades imagináveis para se trabalhar, inclusive na seleção. Clubes sem estrutura, campos de jogo ruins. Só o estádio era razoável, faltava apoio financeiro e a mentalidade era anti-esportiva, que prefiro não especificar. Com certeza, nos tempos atuais, alguma coisa melhorou no aspecto de organização e mentalidade.

A Arábia Saudita é o país com o maior número de futebolistas federados no Oriente Médio. O Senhor já venceu a liga saudita sub-20 com o Al Ettifaq. Conte-nos como são os torneios de jovens no país em termos de organização e estrutura?
Os torneios de jovens na Arábia Saudita são bem organizados, os clubes tem uma infra-estrutura física muito boa para se desenvolver um trabalho, e o governo incentiva o esporte procurando encaminhar o jovem para esse setor de lazer, a fim de vê-lo fugir das drogas ou outras atividades anti-sociais.

O Senhor passou pelo Al Masry, que é localizado em Port Said, uma região pesqueira e economicamente atrasada em relação a capital Cairo. O único título da equipe foi uma Copa do Egito, em 1998. A saúde financeira é o principal problema da equipe para se aproximar das posições mais altas na tabela da Liga Egípcia?
O grande problema do Al Masry é o fato de ser dirigido de forma centralizada e ditatorial por Said Mitualli, que é um presidente que põe dinheiro no clube, mas como fica mais tempo com seus negócios na Albânia, deixa o clube apenas para seus olheiros verificarem o que ocorre. Mas não dá poder de decisão para seus diretores. Dirige o clube a moda Eurico Miranda, batendo de frente com todo mundo na imprensa escrita e televisiva.

O 4º lugar do Al-Akhdar, dirigido por você na última temporada na Líbia pode ser considerado um ótimo resultado levando em conta o fato do clube nunca ter vencido nada e ter chegado atrás do Al Madina e principalmente das potencias de Trípoli (Al Ittihad e Al Ahli)?
Na temporada 2005/6 levei o Al Akhdar ao terceiro lugar na classificação final, atrás do Al Ittihad, que foi campeão, e do Al Ahly, que foi vice.
Isso corresponde a um título, visto que na Líbia, via de regra, o campeão é o Al Ittihad ou o Al Ahly, com vantagem para o Al Ittihad, que tem a melhor estrutura do país. Esse clube pertence a família Ghedaffi, com os irmãos Mohamed e Saad, este último foi jogador do clube também.

Descreva para nós como é o futebol líbio dentro e fora de campo?
O futebol líbio carece de organização tanto dentro como fora de campo. Campeonatos mal organizados, sem uma tabela de jogos fixa a ser obedecida, com constantes mudanças de acordo com as necessidades da seleção e do Al Ittihad, que disputa diversas Copas.
A mentalidade dos dirigentes é totalmente amadora nos clubes, e normalmente não cumprem seus compromissos com os profissionais, que mesmo com contrato, sempre precisam recorrer a justiça para recebimento.
A Federação do país também carece de organização em termos de justiça desportiva. Não dá nem para comentar.

A família Gheddafi atrapalha muito o futebol líbio?
Bem, a Líbia é um país de regime totalitário, bem como seu futebol, então toda decisão vem do governo, e tudo depende do governo. Portanto…

O senhor teve a oportunidade de analisar de perto as Copas de 1982, 90, 94 e 98 como convidado de uma Rádio. Quais foram as seleções, os treinadores e os futebolistas que mais te impressionaram nesses Mundiais?
Indiscutivelmente, a grande seleção da Copa de 1982, na Espanha, era a brasileira, que até hoje é reconhecida em todo o mundo como a melhor dos últimos tempos. A grande final deveria ser entre França e Brasil. Sem dúvida, foram as seleções que mais impressionaram. Telê foi um dos treinadores que se destacaram, ao lado de Enzo Bearzot (da Itália). A Copa de 1990, na Itália, foi um desastre no ponto de vista técnico, e a grande surpresa foi a seleção de Camarões, com o grande destaque Roger Milla. Em 1994 Parreira, apesar de taticamente contestado, levou o Brasil ao tetracampeonato, contando com Romário e Bebeto em grande forma. Bulgaria e Nigéria surpreenderam os críticos e conseguiram expressivos resultados. Na França em 98 destaco o trabalho do Zagallo como treinador, pois apesar dos problemas na final, montou uma seleção forte tecnicamente, e até que os fatos sejam comprovadamente esclarecidos ele merece todo nosso respeito.

Você jogou como goleiro e esteve no Santos, em 1967.
Seja franco: Pelé no contexto atual, faria o que fez, ou seria só mais uma estrela do futebol espanhol ou inglês?

Pelé foi um gênio do futebol, jogaria em qualquer época, pois além de uma técnica apurada tinha uma condição física invejável, e se cuidava muito dentro e fora do campo. Suas jogadas tinham muito da técnica cuja execução era feita com muito vigor físico e velocidade além do normal para a época. Temos que lembrar que a preparação física teve seu “boom” na década de 70, com a introdução do método de Cooper, e com os estudos que a Escola de Educação Física do Exército do Rio de Janeiro (Urca) fez sob o comando de Major Camerino, Major Bielinsky, Capitão Cláudio Coutinho e outros.
Nessa época, convivi com esse pessoal lá na Escola, e me serviu de muita experiência na minha carreira.

Como era lidar com o gênio indomável de Romário no inicio da carreira dele. Como era sua relação com ele nos juniores do Vasco? Tem alguma lembrança especial?
Romário foi o gênio da grande área. Jogador de muita velocidade na época em que trabalhamos juntos no Vasco da Gama. Além do dom natural de finalizar com perfeição. Ficava após os treinamentos comigo fazendo trabalho de finalização dentro da área por mais de 40 minutos. Com isso conseguiu a grande marca dos mil gols, o que vem comprovar que através do trabalho de repetição, se atinge a perfeição.
Romário, ao contrário do que divulgam, era sim um jogador dedicado nos treinamentos.

E a mulher árabe?
A mulher árabe apesar de submissa, tem o poder do matriarcado, é elegante e muito vaidosa.
Seus olhos são muito bem delineados por uma pintura carregada que faz sobressair seu olhar.
A libanesa é uma das mais bonitas do mundo árabe, e as do Golfo, apesar das restrições pela religião, são amáveis e sensíveis. As do Golfo também fazem o estilo ‘mais cheinhas de corpo’ e são mães exemplares.

FICHA
Nome: José Roberto Fernandes
Data de Nascimento: 08/04/1948
Local de Nascimento: Campinas/SP

Clubes:
1978: São Cristóvão e Barretos
1979: Pinhalense e Catanduvense
1980: Palmeiras e Radium
1981: Seleção do Qatar e Mambroa-ANG
1981: Al Samiya-KUW
1982: Al Samiya-KUW
1983: Al Samiya-KUW
1984: Al Samiya-KUW
1985: Al Samiya-KUW
1985: Vasco (juniores)
1986: Vasco (juniores)
1987: Mogi-Mirim
1988: Al Wahda-EAU
1988: Taquaritinga
1989: Taquaritinga e Operário
1990: Jaboticabal e Uberlândia
1991: Sampaio Corrêa
1992: Jales
1993: Capivariano, Lemense e Jequié
1994: XV de Jaú
1995: Taquaritinga
1996: Mogi-Mirim
1997: Al Wasl-EAU (juniores)
1998: Al Wasl-EAU (juniores)
1999: Seleção do Iêmen
2000: Al Ahli-EAU
2001: Al Ettifaq-ARA (juniores)
2002: Al Hazam-ARA e Tiradentes
2003: Al Masry-EGI
2004: Al Hamadah-ARA
2005: Al Zawia-LIB
2006: Al Akhdar-LIB
2007: Al Akhdar-LIB

Títulos: Campeão da Copa do Interior de São Paulo (78), da 2ª Divisão Paulista (90), Sul-matogrossense (89), Maranhense (91), e do Campeonato Saudita de juniores (2001).

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