“Lucescu cairia se não ganhássemos”

Com apenas 19 anos, o meia-atacante Willian, deixou o Brasil, onde se destacava defendendo o Corinthians, para tentar a sorte na Ucrânia. Pelo Shakhtar Donetsk, conquistou o inédito título da Copa Uefa na última temporada. Porém, o atleta acredita que nem sempre o trabalho na Europa realiza os sonhos dos jovens jogadores que deixam o país.
Em entrevista concedida à Trivela, o brasileiro comentou sobre suas dificuldades iniciais de adaptação ao clima, língua e a relação com os ucranianos, e afirmou: falta técnica ao futebol do país, ainda com pouca visibilidade no continente. Willian também defendeu que a Ucrânia não é trampolim fácil para as grandes Ligas europeias – apesar do título europeu conquistado na última temporada – nem para quem quer espaço na Seleção Brasileira, mas que a compensação financeira é o que faz valer a pena.
Você demorou para conquistar um lugar entre os titulares do Shakhtar Donetsk. Sua adaptação foi muito complicada? O que foi mais difícil?
O frio e a língua no começo foram as coisas mais difíceis. Eu faço aula de inglês e tenho um tradutor, mas nos treinos eu pergunto as coisas pro Fernandinho e pro Jádson, que já estão aqui há mais tempo.
E para conseguir lugar entre os titulares? Foi como esperado?
Bom, foi um começo normal, de um jogador brasileiro que chega na Europa, e fica no banco. Fiquei chateado, pois esperava ficar no banco por uns dois jogos, mas fiquei quase um ano, entrando em algumas partidas. Cheguei com ritmo de jogo, querendo jogar, animado, mas não consegui espaço. Fiquei um tempo treinando, entrando pouco. Foi bem difícil pra mim.
Havia muita pressão sobre o técnico Mircea Lucescu antes do título da Copa Uefa? Afinal, os investimentos no clube são enormes.
Bom, tinha pressão em cima dele sim, perdemos jogos importantes, e a torcida queria que ele fosse embora. Mas, com o título, ele garantiu aí mais alguns anos. Eu acho que o Lucescu cairia se não ganhássemos, mas agora está tudo tranquilo.
Que análise você faz do Campeonato Ucraniano? Tem melhorado nos últimos anos?
O Campeonato Ucraniano não é muito bom tecnicamente. Os jogadores correm mais, têm garra, mas não é a mesma coisa que você vê na Espanha ou na Inglaterra. Aqui o jogador vai mais na vontade e na força. Mas, tem melhorado a cada ano, está ficando mais acirrado, mais disputado. O Dynamo deu uma boa disparada ano passado, mas os outros times correram atrás, brigaram pela segunda colocação.
Com o título da Copa Uefa, você notou mais visibilidade para o futebol ucraniano?
Com certeza. Trouxe muita moral pra gente, fez mais diferença. O time está confiante. Quando fomos pra Suíça, na pré-temporada, já nos olhavam de outros jeito, com mais respeito.
Qual a expectativa da diretoria do Shakhtar para essa temporada?
Estamos bem e confiantes. Os outros times vêm brigando, querendo tirar uma casquinha por termos sido campeões da Copa Uefa. Acho que o Dynamo vai vir igual, forte. Ano passado perdemos pontos bobos no início da competição, e acabou não dando tempo de correr atrás. Este ano, a gente vem forte e preparado pra isso, começamos logo com uma vitória por 3 a 0 (sobre o Kryvbas).
Mas você não acha que, na disputa pela Liga dos Campeões, o técnico pode prejudicar o torneio nacional?
Acho que não, ainda faltam algumas semanas para a Liga dos Campeões, e o treinador procura poupar bem os jogadores, colocar todos pra jogar, pra ganhar experiência, e acho que vamos conseguir lidar com isso.
O que você espera da sua atuação para este ano?
Ano passado já foi melhor que quando eu cheguei, eu já consegui fazer mais gols. Claro, este ano eu espero fazer muito mais. Creio que estou bem, e estou vindo de uma boa campanha.
Acha que o clube tem condições de sonhar alto na Liga dos Campeões?
Tem, tem sim. Temos um bom time, e o grupo demonstrou isso na Copa Uefa. Acredito que a gente consegue passar da fase de grupos, chegar nas oitavas-de-final… E aí, todo mundo está igual, temos condição de lutar como qualquer outro time.
Vocês, jogadores, têm contato com o presidente do clube, Rinat Akhmetov? Como ele é no dia a dia?
Normal, nada de especial. De vez em quando ele aparece no treino, cumprimenta todo mundo, assiste ao treino e vai embora. Ele vai a todos os jogos também.
Como é sua vida em Donetsk? Costuma sair muito de casa, encontrar os outros brasileiros?
É bem diferente, depois de ter vivido em São Paulo. São Paulo é uma cidade onde você tem tudo, é muito grande, a gente se acostuma a fazer várias coisas e ter várias opções. Aqui, a única coisa que tenho pra fazer é ficar em casa. Quando saio, vou ao shopping, ou a um restaurante. Tem uns dois ou três restaurantes bons. Mas eu acabo ficando mais em casa, vejo televisão, fico na internet. E entre os brasileiros é assim, cada um fica na sua casa, não saímos muito juntos.
Você comentou do frio da Ucrânia, mas poucas pessoas sabem que no verão faz calor realmente. Você se surpreendeu com isso?
Quando cheguei aqui, era verão e estava calor, e só depois veio o frio. Mas o verão aqui é mesmo bem quente, nem dá para sentir falta do Brasil nesse sentido.
Recomenda aos seus colegas brasileiros se transferirem para o futebol ucraniano?
Isso depende muito do que o jogador quer. Financeiramente, acho que sim. Se o jogador pensa em Seleção, ou em jogar algum campeonato com visibilidade no mundo, aí eu não aconselho. Meu objetivo era a Seleção, não só a questão financeira, queria chegar para conquistar títulos europeus. O primeiro veio agora, e espero continuar.
Você espera terminar seu contrato, em 2012, ou sonha com uma transferência para outro clube europeu antes disso?
Estou bem e tranquilo aqui, mas lógico que espero jogar numa grande Liga, todos os jogadores sonham com isso. Se aparecer uma proposta, aceitarei com prazer. Vou fazendo minha parte, e ficarei na espera.
Como é o povo ucraniano, comparado ao brasileiro?
Eles são bem mais frios, não tem nada a ver com o povo brasileiro. Aqui eles ficam mais na deles, se abrem muito pouco, é muito difícil fazer amizades. Me dou melhor com os brasileiros do time, como é natural. Mas, fora eles, com quem sempre rola umas brincadeiras nos treinos é com o capitão, Darijo Srna.
Qual foi a principal diferença que você sentiu entre o futebol ucraniano e o brasileiro?
É muito diferente. No Brasil, os jogadores são melhores tecnicamente, têm mais habilidade. Aqui na Ucrânia, de vez em quando aparece alguma revelação, mas é bem difícil. Como eu disse, futebol ucraniano é muito mais força, velocidade, mas pouca habilidade.
Você foi negociado pelo Corinthians com apenas 19 anos. Acha que poderia ter ficado mais tempo no Brasil?
Acho que foi um momento bom, o momento certo. Apareceu uma proposta boa, para mim e para o clube. Não tenho do que reclamar.
O Emerson Leão promoveu você definitivamente para os profissionais no Parque São Jorge. Com os jovens ele é fácil de se trabalhar, mas com estrelas ele não sabe lidar muito bem, não é? Como era sua relação com ele?
Tínhamos uma relação tranqüila. Ele apostou muito em mim e no meu futebol, sou muito grato por ele ter me dado essa oportunidade. Mas, da mesma forma que ele falava comigo, falava com os outros, não via diferenciação.
Como era, com 19 anos, ser um dos destaques do Corinthians? Sentia muito a pressão?
Desde que fui pro futebol profissional, sempre fui tranquilo, procurava manter a mente no lugar, e não abaixar a cabeça para as críticas para o meu futebol. Mas a torcida sempre me recebeu muito bem, sempre me elogiou no Parque São Jorge, fico muito feliz por isso.
Você foi revelado na escolinha do Marcelinho Carioca, em Ribeirão Pires. Você sempre foi corintiano? Ele era seu ídolo?
Sempre fui corintiano, e o Marcelinho era meu ídolo, sempre admirei seu futebol. Meu pai também é corintiano, então foi ótimo ter dado certo num clube para o qual eu torcia e gostava. Fiquei muito feliz com a chance.


