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Legado da falta de legado

O tempo vai passando e os projetos megalomaníacos da Copa do Mundo no Brasil vão ficando em evidência. Se muitas das obras ainda engatinham, as maquetes apresentadas, bem como os discursos dos envolvidos estão a todo o vapor. Entre denúncias de corrupção na Fifa e superfaturamento nas obras, um outro aspecto chama atenção: a ausência de estudos concretos sobre o impacto do evento nas cidades brasileiras. Ou se preferirem, o tal legado.

Nesta semana o Itaú – um dos patrocinadores da CBF, diga-se – divulgou um estudo que prevê crescimento de 1,5{4e6004d4b2dec836d33dc5172bfddf26d3363bd8dda1f1bebd6a41477248514f} do PIB brasileiro com a Copa. Não há dúvidas que os investimentos aumentam no Brasil, mas vale questionar até que ponto isso é mérito do Mundial. Se a pujante economia nacional cresce a cada ano, só podemos dar crédito à competição nos ganhos além do esperado. Resta aguardar como essa estatística será interpretada em 2014.

O estudo menciona a criação de empregos. Entre novas vagas diretas ou indiretas, rapidamente remetemos ao comércio e a construção civil (claro, não são apenas esses dois setores, mas atentemo-nos à eles).

Temos que considerar as dificuldades pelas quais passarão os comerciantes menores. A Fifa tem uma série de patrocinadores oficiais em diversos segmentos, que vão de rede de lanchonetes à operadora de cartão de crédito. Não bastasse esses parceiros ganharem incrível – e absurda – isenção de impostos durante o evento, têm exclusividade para operar nos estádios e em seu entorno, deixando dúvidas quanto ao ganho real dos comerciantes locais. Em Belo Horizonte esse prejuízo começou cedo. A reforma que impede a realização de jogos no estádio prejudicou consideravelmente os vendedores do “tropeirão”, prato típico dos prés, durantes e pós jogos naquele lugar. Desprovidos de um plano B por parte dos organizadores, os comerciantes realocaram-se como puderam.

Quanto à construção civil, a reforma e construção de estádios evidenciam a geração de empregos, mas fica aqui uma reflexão: se 20{4e6004d4b2dec836d33dc5172bfddf26d3363bd8dda1f1bebd6a41477248514f} do dinheiro público utilizado em estádios fosse aplicado na construção de escolas, casas e hospitais (tão necessárias em nosso país), não teríamos também novos empregos no setor?

Aliás, os estádios são outros bons exemplos da falta de planejamento. Investimentos altíssimos estão sendo feitos na construção de moderníssimos palcos em lugares onde sequer há razoável média de público nos jogos de futebol. Em tese serviriam para shows (alguns estádios já fazem isso, não?), convenções e eventos de diversas espécies. Mas fica difícil acreditar que tudo isso é tão simples e plausível quando propostas concretas são escassas. Na revista ESPN publicada em Junho deste ano, quando contatadas pela reportagem, comitês organizadores de algumas cidades deixaram explícitos a ausência de planejamento. Com o famigerado discurso de “captaremos investimentos”, a impressão é que o modelo adotado foi “primeiro construímos, depois resolvemos”, algo inaceitável em um evento de tal porte.

Por fim, justificar obras de infraestrutura necessárias para o desenvolvimento do país com o advento da Copa do Mundo é outro absurdo. Quer dizer que, caso não sedíassemos o torneio, daqui três anos nossos aeroportos, rodovias e transporte público não demandariam melhorias?

Estudos dos escritores Simon Kuper e Stefen Szymanski no livro Soccernomics, esclarecem que mesmo sem problemas com corrupção, o saldo dos organizadores é devedor, pois o dinheiro aplicado não volta. O único ganho real, segundo o livro, é o de “felicidade” da população local, o que poderíamos traduzir para autoestima. Deve esr complicado para os organizadores informar à uma população local com tantos problemas que bilhões serão gastos em felicidade e alegria.

Faltam planos e estratégias, sobram discursos furados. Em 2006, o objetivo da Alemanha com o Mundial não era melhorar a condição de suas rodovias ou aeroportos, mas sim mostrar ao mundo um país verdadeiramente unificado, dezessete anos depois da queda do Muro de Berlin. Na África do Sul, entre os objetivos estavam a confirmação de uma nação unida, sem segregação racial e com potencial para crescimento. O que vimos foi um comitê local que escondeu suas mazelas e favelas do mundo, optando por construir elefantes brancos que não se justificaram após a Copa, ao invés de trabalhar em cima dos problemas reais de sua população.

Qualquer semelhança conosco não é mera coincidência.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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