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Kaká: “Se eu vencer tudo, quero tudo mais uma vez”

O Brasil vencia o Equador por 5 a 0 na segunda rodada das eliminatórias sul-americanas para a Copa 2010. Aos 42 minutos do segundo tempo, Dunga substituiu Kaká, autor de dois gols na partida, por Diego. As mais de 80 mil pessoas que lotaram o Maracanã aplaudiram o milanista, a quem chamaram de “melhor do mundo”.

Após a partida, quando perguntado sobre o fato de o técnico da Seleção ter confirmado que o tirou de campo para permitir a ovação, Kaká se entregou discretamente. Sorriu em uma mistura de inibição com satisfação e disse: “se foi mesmo esse o motivo, tenho muito a agradecer, porque foi emocionante ouvir o Maracanã lotado gritar o meu nome e dizer que sou o melhor do mundo. Foi bem bacana”.

A medida que o fim do ano se aproxima, o jogador do Milan é soterrado por elogios ou perguntas a respeito de ser o melhor jogador do mundo em 2007. Alguns prêmios secundários, como o da FIFPro (Federação Internacional de Jogadores de Futebol), confirmaram essa tendência. Diante de tamanho bombardeio, fica difícil para Kaká fingir que ignora esse fato. E já nem se esforça tanto, admitindo que vive uma grande fase e que o prêmio de melhor do mundo tem de ir para alguém que foi importante em uma grande conquista. O milanista cita Cristiano Ronaldo por causa do Campeonato Inglês, como se sua participação no título rossonero da Liga dos Campeões não o colocasse em situação vantajosa em relação ao português.

Ainda que o tema seja predominante em suas entrevistas recentes, Kaká não fala apenas sobre ser ou não melhor do mundo. O jogador reconhece que tem mudou seu modo de jogar por necessidades táticas do Milan. “O excesso de contusões do elenco na temporada passada fez que o time se encaixasse de outra forma, em que eu ficava muito mais no ataque do que antes”, explica. Essa nova característica do ex-são-paulino pode ser vista na Seleção, a ponto de Dunga testá-lo como homem de referência no ataque no amistoso contra o México em setembro.

O milanista ainda fala sobre seu relacionamento com Ancelotti, as diferenças do futebol praticado na Itália e no Brasil, cutuca a imprensa espanhola devido às especulações a respeito de sua suposta ida ao Real Madrid e explica o motivo de seu pedido de dispensa da Copa América: “Fiz testes físicos e fisiológicos no Milan e comprovaram que eu estava esgotado. Peguei toda essa documentação e mandei para a CBF”. Veja nas próximas páginas os principais momentos da entrevista concedida com exclusividade para a revista Trivela.

A FIFPro o escolheu como o melhor jogador do mundo em 2007. A maioria dos especialistas acredita que você será escolhido como melhor jogador do mundo. Você já conquistou uma Copa do Mundo e uma Liga dos Campeões. Para um jogador tão jovem, que estímulo ainda resta?
É a conquista, minha motivação é sempre conquistar algo a mais. Hoje, tenho 25 anos, conquistei quase todos os títulos que tem para conquistar. Falta o Mundial de Clubes, no fim do ano no Japão, que agora é o meu grande objetivo. Depois que eu ganhar tudo, eu quero ganhar tudo duas vezes. Eu quero ser campeão do mundo duas vezes, quero ganhar com a Seleção o Mundial duas vezes, ser campeão da Liga dos Campeões como o Paolo Maldini foi. O grande exemplo que eu tenho é de jogadores como Costacurta e Maldini. A motivação deles é a conquista de algo mais sempre.

Você é um protagonista no futebol mundial. Na Seleção, a nova filosofia é de que não há protagonistas. Como você vê essa sua importância dentro da Seleção, com um modelo no qual não há protagonistas?
Eu respeito, essa é a linha que o Dunga adotou até agora. Não importa se eu estou bem no Milan ou não, preciso se rum jogador útil à Seleção. Se esse critério for igual para todo mundo, é válido e justo. Só não vale ter um critério para um jogador e outro critério para outro jogador. Até agora, o critério tem sido o mesmo para todo mundo.

A mídia brasileira tentou criar um clima ruim entre você e o Ronaldinho com a torcida por causa dos pedidos de dispensa da Copa América. Esse comportamento da imprensa o chateou?
De forma alguma, até porque eu sabia que haveria críticas. Eu assumi essa responsabilidade porque achava que naquele momento eu precisava me tratar. Realmente descansei e acho que, neste momento, meu rendimento mostra que valeu a pena. Voltei à Seleção e reconquistei meu espaço. Naquele momento eu precisava de um descanso.

Pouco antes de se reapresentar ao Milan após as últimas férias, você ficou uma semana no São Paulo fazendo avaliações físicas. Segundo pessoas do São Paulo, você teria reclamado que, no final da temporada passada, terminava todo jogo sentindo muitas dores e que seu cansaço era acima do normal. Isso realmente aconteceu?
Eu estava esgotado. Até por isso que medi dispensa da Copa América, já que eu vinha de três anos seguidos de uma temporada entrando em cima da outra. Eu estava sentindo isso no meu corpo, mas queria uma prova com dados de que era isso o que estava acontecendo. Fiz testes físicos e fisiológicos no Milan e comprovaram que eu estava esgotado. Me deram os dados e falaram: “olha, realmente é isso que está acontecendo com você”. Eu peguei toda essa documentação e mandei para a CBF como explicação para o pedido de dispensa da Copa América.

O jogador de ponta está jogando demais?
Demais. Estava até conversando com o fisioterapeuta da Seleção outro dia. Ele disse que o Rogério Ceni fez mais de 70 jogos neste ano. É muita coisa. Mesmo ele sendo um goleiro, 70 jogos é muito para um jogador e é daí que começam as lesões. Para um goleiro pode até ser suportável, mas um jogador de linha sente muito mais.

Uma coisa que mudou no seu futebol de hoje em relação ao de temporadas anteriores é o posicionamento tático. Nos últimos tempos, você tem sido um meia que chega ao ataque constantemente e algumas vezes conclui as jogadas mais do que prepara. Curiosamente, você costumava se sentir desconfortável quando jogava no ataque na época de São Paulo. O que mudou?
O Milan teve vários problemas de contusões na temporada passada. O campeonato ia passando e havia poucos atacantes. O time foi se modificando e acabou se encaixando de uma forma diferente, em que eu fui empurrado mais para frente. E acabei me adaptando aos poucos. Antes, eu me sentia desconfortável porque estava acostumado a tocar na bola toda hora, pois o meia está sempre correndo atrás da bola para armar o jogo. O atacante, não, já que depende de os outros companheiros conseguiram fazer um lançamento ou enfiar uma bola para ela chegar. Mas já me acostumei, isso não é mais um problema.

Essa mudança tem algo a ver com a saída do Shevchenko?
O Milan perdeu muito com a saída do Shevchenko porque ele é um grande jogador. Mas não sentimos tanto em presença no ataque, até porque ganhamos a Liga dos Campeões. O que pesou mais para eu me deslocar para o ataque foram mesmo as contusões.

Como é sua relação com o Ancelotti? Às vezes, há discussões e as pessoas no Brasil tendem a achar que vocês não se entendem.
Meu relacionamento com ele é 100%. É muito bom mesmo. Ele é um tipo de treinador que consegue agradar o grupo de forma geral, mesmo aqueles que não estão jogando. Claro, esses ficam chateados por não estarem na reserva, mas gostam do Ancelotti assim mesmo.

Ele tem, realmente, o controle do time e eu gosto disso em um técnico. Agora, é claro que temos divergências. Tem hora que eu tenho minha opinião e ele tem a dele. Só que, atualmente, aonde um jogador vai tem uma câmera atrás. Tudo aparece na TV. Nesse caso que vocês mencionaram, estávamos a caminho do vestiário, havia uma câmera ali e acabou pegando uma discussão entre nós.

Foi uma troca de opiniões: eu tinha uma, ele tinha a dele e a gente acabou discutindo ali porque tínhamos perdido uma partida. Mas não foi nada demais. Já houve várias dessas discussões em outras ocasiões, mas não apareceram e nosso relacionamento continuou bom depois disso.

No que o Ancelotti o ajudou no desenvolvimento como jogador?
O mais importante foi ele ter confiado em mim. Tenho uma experiência no Milan que é muito difícil um jogador novo ter. É raro alguém chegar e ter a oportunidade de jogar da forma que eu cheguei e joguei. E isso é fundamental, porque a maior experiência que se pode ter é adquirida em campo, jogando.

Claro que ele também fez outras coisas. Por exemplo, me deu muitas dicas de marcação, de como me movimentar e de como fazer várias coisas técnicas e táticas. Mas o grande empurrão foi ver eu chegar na Itália e me colocar logo para jogar, ignorando eventuais problemas de pressão, de achar que eu era novo demais e devia esperar mais um pouco.

Do ponto de vista tático, quais as principais diferenças de jogar no Brasil e na Itália?
A principal diferença é o tamanho do campo em que se joga na Europa e no Brasil. No Brasil, as defesas ficam muito longe uma da outra. Então, o jogador tem um campo muito maior de jogo. Na Europa, isso é muito reduzido. Com um campo muito menor, o jogador tem de jogar a bola mais rapidamente. Há jogo que eu domino a bola e já vêm três ou quatro jogadores em cima para o desarme. Aos poucos, com o desenrolar da partida, o espaço vai aparecendo.

Nesse sentido, você acha que se daria melhor na Espanha, onde a marcação é menos rígida que na Itália?
Muita gente fala isso, mas eu estou superadaptado à Itália. Só poderia dizer que me daria bem na Espanha se jogasse lá. Hoje, na Itália, eu estou adaptado a jogar da maneira italiana, com um futebol mais duro e aguerrido.

Em 2006, o Ramon Calderón era candidato à presidência do Real Madrid e uma das promessas de campanha era sua contratação. Ele foi eleito e você não saiu do Milan. Depois, a imprensa espanhola insistiu no tema, chegando a mencionar valores para sua eventual ida ao Real. Houve mesmo alguma sondagem dos espanhóis, algo de concreto para levá-lo?
Houve. O Real Madrid fez uma proposta, levamos até o Milan e falamos: “olha, tem essa proposta do Real Madrid”. O Milan disse que não me vendia, que naquele momento eu não estava à venda. E desse modo a diretoria conversou com Real Madrid, acabando ali todas as negociações. Por enquanto.

O jornal espanhol As publicou várias declarações suas supostamente dizendo que queria ir para o Real. O Milan rebateu, colocando no site oficial que o jornal mentia. Houve exagero da imprensa espanhola?
Houve. Durante minhas férias, não falei nada com ninguém. Me desliguei de tudo, porque nas minhas férias eu acho que tenho esse direito de descansar. O que escreviam, escreviam deles e entre eles. Não sei se houve contato do Real Madrid com o Milan nesse período.

Eu sei que eu não falei com ninguém, não dei declarações para o As nem para nenhum jornal italiano para desmentir ou falar sobre o que estava acontecendo. Até pensei: “não, quando eu voltar, eu falo, eu quero que todo mundo veja as minhas declarações, aquilo que eu estou falando. Agora é meu direito de férias e eu quero que respeitem”.

Você acabou de citar Maldini e Costacurta como dois exemplos para sua carreira. Você tem proximidade pessoal com esses jogadores?
No Milan, todo mundo tem um relacionamento muito bom no elenco. No entanto, a proximidade maior é com os brasileiros, o Serginho, o Ronaldo, o Dida, o Emerson, que chegou agora, e o Cafu. Esse pessoal tem uma proximidade muito maior, porque fala a mesma língua, conversa sobre coisas do Brasil.

O fato de haver muitos brasileiros também o ajudou a chegar muito jovem no Milan e não sentir o fato de estar morando fora?
Ajudou muito. Se eu precisava de alguma coisa, ligava para eles e perguntava: “preciso de um restaurante, preciso de um supermercado”. Acho que por isso o Pato vai ter uma adaptação muito mais fácil do que uma pessoa que chega no clube e não tem ninguém do país.

Aliás, qual é a expectativa da torcida, e do próprio grupo, em relação a ele?
Todo mundo sabe que ainda é um garoto de 18 anos e que é preciso ter. Só que todo mundo sabe que ele já foi contratado como um nome de peso, com uma responsabilidade. Mas ele tem um talento incrível, tem tudo para dar certo na Europa.

Pessoalmente, você acha que ele está sentindo a chegada?
Acho que não. Até porque o jogador brasileiro é diferente, até na formação. Um jogador de personalidade chega lá e quer saber quem é quem. Vai para cima, sem medo. Essa característica do jogador brasileiro é importante.

Quando se fala em sua trajetória no Milan, muita gente se lembra daquela discussão com o Kily González no seu primeiro clássico contra a Internazionale [Kaká e o argentino discutiram e o brasileiro chegou a colocar a mão no rosto do adversário para afastá-lo]. Você sente que aquele foi um ponto de virada na sua carreira, de um menino para um craque?
Acho que sim. Foi o momento que eu comecei a demonstrar que não era mais um garoto. Ainda era jovem, mas estava demonstrando que defendia um clube grande da Europa e queria conquistar o meu espaço lá. Aquela discussão foi só uma questão de eu me impor, de exigir respeito. Normalmente, não sou de brigar em campo.

Você acabou de citar o Ronaldo como um de seus amigos. Recentemente, defendeu que ele ainda tinha espaço na Seleção. Mas, depois do jogo contra a Croácia, na estréia pela Copa do Mundo, você deu uma declaração reclamando um pouco da falta de movimentação do ataque, do Ronaldo, principalmente. Não ficou algum resquício disso depois?
Eu acredito que o Ronaldo é um grandíssimo jogador, e o talento que ele tem poucos jogadores tiveram em toda a história. Naquela ocasião, acho que fui mal interpretado, porque em momento algum eu falei do Ronaldo ou do Adriano. Eu falei da movimentação do time em geral. Eu acho que todo mundo tinha que se movimentar, porque isso cria espaço para todo mundo. Em nenhum momento eu citei o nome do Ronaldo ou do Adriano. Colocaram que eu estava pedindo para o ataque se movimentar, mas, na verdade, não foi essa a minha colocação. Por isso, não tive nenhum tipo de problema com o Ronaldo.

Para terminar, se você tivesse de indicar o melhor jogador do mundo em 2007 e não pudesse votar em si mesmo, quem você escolheria?
Eu acho que o melhor jogador do mundo tem que passar por uma grande conquista, e o Cristiano Ronaldo foi o grande nome da conquista do Campeonato Inglês pelo Manchester United. Se eu não concorresse e tivesse de escolher alguém, seria ele.

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Equipe Trivela

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