“Juntam os capitães e fazem as combinações”

A Itália tem um triste histórico de manipulações de resultados no futebol. Iniciando com o Totonero, em 1980, passando pelo Calciopoli, de 2006, a Itália costumeiramente precisa enfrentar esses problemas. Ainda sem nome, o mais recente escândalo surgiu nas últimas semanas e envolve equipes das divisões menores do país.
Em entrevista exclusiva à Trivela, o goleiro brasileiro Rubinho, que defendeu o Torino na Serie B desta temporada, falou sobre a questão das apostas no calcio. “É complicado porque não aconteceu uma vez ou outra, mas sim em toda rodada”.
Rubinho, de 27 anos e desde 2006 no país, explicou também como muitos jogadores agem. Ainda com contrato com o Palermo (até junho de 2013), o jogador não permanecerá em Turim e já tem a liberação do clube da Sicília para procurar outra equipe. Confira a entrevista.
Nos últimos dias mais escândalos de manipulação de resultados vieram à tona na Itália. Como você se sente sabendo que isso pode acontecer no seu campeonato?
É complicado porque não aconteceu uma vez ou outra, mas sim em toda rodada. Na Série C, por exemplo, onde o maior salário dos jogadores é de uns 100 mil euros por ano, juntam dois, três capitães e fazem as combinações. “Ah, esse jogo você pode perder, esse não…” E tem gente que vai lá e aposta nas partidas. Eu estava me sentindo muito mal, ficava pensando “será que me colocaram nisso em um jogo?”. Tinha jogo que levava três gols e perguntava “será que minha defesa facilitou?” Você fica sem saber o que é real. O problema é que na Itália as pessoas gostam muito de apostar, como na Inglaterra. O Beppe Signori [ex-jogador da seleção italiana], por exemplo, você deve ter visto aí. Ele perdeu 150 mil euros com uma tacada só. Tem que ser viciado para apostar tudo isso.
E você sentiu que algum jogo seu nessa temporada pelo Torino poderia estar manipulado?
Direto! Tem jogos que você fala “ah, foi muito fácil ganhar”. Em outros jogos você sofre até o final, e depois tem outros que a bola nem chega no seu gol. Não vou saber te dizer em quais jogos isso aconteceu, mas teve sim.
Chegaram a fazer alguma proposta para você entregar um jogo? Ou mesmo algum companheiro falou com você se a partida estava “vendida”?
Não, por isso que te falei que não posso dizer em quais jogos teve isso. Eu tinha desconfiança de algumas partidas… Tinha jogo em que eu ficava igual bobo, sozinho na defesa, correndo de um lado para o outro. Mas nunca chegaram pra mim e disseram “você tem que tomar três gols hoje”.
Ia te perguntar como foi jogar a segunda divisão italiana, mas acho que depois de tudo isso já deu para sentir o clima macabro.
Na Série B é complicado mesmo. Na Série A os interesses são maiores, os jogadores pensam em transferências, jogar em competições europeias… Na B tem clubes que sabem que não vão subir, vão ficar lá seis, sete anos, e aí os jogadores veem essa forma de ganhar seu dinheirinho, pelas apostas, uma aqui, outra ali. Tem muitos jogadores italianos que apostam. Aí também o cara vai e conhece o dono de uma loja de relógios, aparece no vestiário vendendo relógio. As Séries B e C na Itália não têm nada de profissional.
Nos últimos três anos você defendeu três clubes diferentes e não permanecerá no Torino na próxima temporada. Não sente falta de um maior período em alguma equipe?
Sinto. Preciso ter uma identidade maior com um clube. Fiquei três anos no Genoa e lá tive uma identidade grande, uma boa sequência e isso é importante.
Teoricamente você tem que se reapresentar ao Palermo. O que pode falar sobre o futuro?
O Palermo me deu carta branca para procurar outro clube, estou no mercado. Até falei para o meu procurador que se ele achar um clube para o Rubinho jogar até 30 de junho ganha um prêmio.
Você é muito jovem ainda, tem apenas 28 anos. Pensa em retornar ao futebol brasileiro já ou pretende atuar por mais tempo na Europa?
Eu quero ficar na Europa, até falei em outra entrevista que só voltaria ao Brasil se fosse para o Corinthians, pela identidade que tenho com o clube.
Agora, olhando para trás, você se arrepende de ter deixado o Genoa, onde era ídolo e titular incontestável?
Por um lado sim e por outro não. Foi bom para mim financeiramente, foi uma ótima coisa que apareceu e eu não esperava. Me arrependo, no entanto, por aquilo que já conversamos. Fui para o Palermo e não tive uma sequência. Tanto que agora, quando voltamos para o Brasil, já ficamos pensando na mudança, para onde vamos…
E como foi sua chegada ao futebol europeu pelo Verona?
No Verona foi complicado, é uma história longa. Peguei o passe no Corinthians e fui para a Itália, porque tinha um amigo que atuava como procurador e ele disse que conhecia o pessoal de lá, que o treinador já tinha me visto jogar… Só que há aquela lei no Brasil de que jogadores de até 23 anos precisam pagar uma indenização ao clube revelador, fizemos a conta e eu teria que pagar 500 mil euros ao Corinthians. Eu estava com 22 para 23 anos, e o clube disse para esperarmos completar 23 para assinar. Fiquei, então só treinando, fiz toda pré-temporada com o Verona. Quando fiz aniversário (4 de agosto), o treinador ficava me dizendo que ia assinar o contrato no dia seguinte, amanhã, amanhã… Nisso chegou 31 de agosto, fechamento do mercado, e eu não tinha assinado. Fiquei de fora. Aí descobri que o filho do presidente, Frederico Pastorello, era o procurador do goleiro titular. Por isso eles fizeram de tudo para eu não assinar, porque sabiam que se isso acontecesse o técnico ia me colocar para jogar. Ou seja, nunca joguei oficialmente pelo Verona.
Ficou sem jogar na sequência?
Voltei ao Brasil na metade de setembro, e até dezembro fiquei treinando em casa. Praticamente não atuei oficialmente em 2005. Aí um procurador português me ligou e disse que o Vitória de Setúbal estava negociando seu goleiro, o Marcelo Moretto, com o Benfica. Perguntou se eu tinha interesse e disse “lógico”! Em 2 de janeiro ele me ligou de novo e fui para o Setúbal. Quando cheguei fiz uma semana de testes, algo justo, porque tinha ficado um ano parado. Assinei por seis meses só, porque não quiseram arriscar. Fiz um contrato “elas por elas”, ganhava menos do que eu ganhava no Corinthians. Joguei de fevereiro a maio, acho que 19 partidas, e fui muito bem. Fomos para a final da Taça de Portugal, equivalente à Copa do Brasil, e na decisão tinha um olheiro do Genoa, que me contratou.
Nos últimos anos você defendeu clubes de médio porte da Itália. A diferença salarial é muito grande em comparação ao futebol brasileiro?
Lá se paga um pouco mais, mas o jogador não vai ficar milionário indo para um clube de médio porte. Hoje esses clubes na Itália pagam em média 300 a 400 mil euros por ano. Tem time time médio no Brasil, nem muito grande, que paga isso. O Paulo Baier, no Atlético Paranaense, por exemplo, eu sei que ganha um ótimo salário. Na Itália o clube sofre para pagar 200 mil euros por ano. No Catania, por exemplo, um time de porte médio para pequeno o maior salário é do Maxi López, que fizeram uma loucura para contratá-lo. Ele ganha 800 mil euros por ano, mas a média fica em 350 mil. Na Udinese o Di Natale, que está lá há muito tempo, ganha bem, 1 milhão e pouco, mas a média é de 400 mil.
O que atrai mais, então, é a visibilidade que o jogador ganha na Europa?
Na Europa todo mundo te vê. Joguei nessa temporada na Série B e em alguns jogos clubes ingleses foram ver um zagueiro nosso. Vou dar um exemplo bobo: jogando em Portugal, você tem mercado na Espanha. Os olheiros sempre vão ver os jogos, rodam pelo continente, conheço diversos olheiros que fazem isso, ficam viajando. O importante é o jogador ter cabeça, fazer o planejamento com seu procurador. A cada ano projeto com meu procurador o que vai acontecer nos dois anos seguintes.
E em termos de estrutura? Palermo, Livorno e Torino, por exemplo, têm boas estruturas?
Diferente… O Livorno treina no Centro de Treinamentos do Comitê Olímpico Italiano. Tínhamos um campo para treinar, vestiários como os do Corinthians na Ayrton Senna chamados de contêineres, mas lá pelo menos eram de tijolinhos. A musculação praticamente não existia, materiais todos velhos. No Palermo a estrutura era melhor, tudo ficava no vestiário, que era normal, mas a musculação era nova. O Torino é na mesma linha do Livorno, mas um pouco melhor. Já no Genoa era melhor também, com tudo mais novo. Uma rara exceção nos clubes desse nível é o Catania, que inaugurou uma estrutura como a do São Paulo.
Você teve uma carreira sólida nas divisões de base da Seleção Brasileira. Foi campeão mundial sub-17, por exemplo. Qual é a maior dificuldade para um goleiro na transição para o profissional?
Quando subi, treinava há cinco anos com o Solitinho, então cheguei com um nível de técnica muito madura. No profissional fui treinar com o Veludo, um senhor de cor, que trabalhava de maneira totalmente diferente e tive que me adaptar em um dia. Além dessa dificuldade, você tem o treino específico para goleiro, encara jogadores mais velhos, malandros. A comissão técnica é diferente, tudo muda muito rápido. Lembro que no primeiro treino conversei com o Maurício e ele me disse que se você errasse a primeira pegada ia para o fim da fila. Achei que era brincadeira, não era possível errar uma bola e o Veludo te colocar no final. Foi o Maurício, errou e o Veludo disse “próximo”. O Renato foi lá, errou e entrou o Yamada. Ele errou, eu fui, fiz uma defesas, errei e trocou de novo. Falei “pô, não é possível!” Chegávamos uma hora antes dos outros jogadores para treinar.
Acha que poderia ter tido mais tempo no Corinthians? A torcida corintiana é um pouco impaciente com os jogadores formados em casa?
Acho que não. A diretoria é exigente. O torcedor sabe que o jogador que vem da base sofreu, correu, o torcedor dá uma mão. Geralmente são os diretores que cobram mais, e se o cara jogar mal já sacam. Comigo não digo que foram impacientes. Éramos todos muito novos na época, eu tinha 19 anos e o Doni, que havia sido contratado, 23. E um goleiro jovem sempre vai errar. Isso fez com que a diretoria trouxesse o Dida, que veio do Milan para jogar. Com o Luxemburgo como técnico. Aceitamos na boa, porque tínhamos um rodízio no banco de reservas, um jogo eu ia o outro ia o Doni. Depois o Doni começou a jogar, o Parreira me via como um bom goleiro, mas muito novo ainda. E eu era muito novo mesmo. Em 2003 joguei 20 e poucos jogos seguidos. Eu comecei no Corinthians com oito anos, é natural um pé atrás com goleiros novos, porque se um volante de 19 anos erra um passe ele corre atrás o tempo todo. Um goleiro se erra toma gol.
E no Corinthians, tem acompanhado a situação dos seus companheiros de posição? Conhece o Renan, que foi contratado para brigar por posição com o Júlio César?
Eu e o Júlio praticamente crescemos juntos no amador. Éramos eu, o Tiago, que é 83, e o Júlio, 84, ficamos uns três, quatro anos juntos. Gosto dele como pessoa, e como goleiro também. Agora, não consigo entender porque com alguém na situação do Júlio, que vem jogando há muito tempo, foram pegar um goleiro de 20 anos. Não tiveram tanta paciência com ele. O Renan, sinceramente, não conheço. Vi poucos minutos dele em um jogo contra o Flamengo. Não posso falar muito, mas é uma responsabilidade muito grande. Uma coisa é um goleiro de 20 anos que já defendeu o Corinthians, sabe o peso que essa camisa tem. Outra é um goleiro que vem do Avaí e não fez grandes jogos. Mas torço para que tudo dê certo, porque minha mãe é fanática pelo Corinthians e não quero vê-la sofrendo por um erro do Renan.


