Itália: Santiago, 02/06/1962

“Boa Noite. O jogo que você está para assistir é a exibição mais estúpida, chocante, nojenta e desgraçada da história do futebol”. Esta foi a maneira com que o jornalista Dave Coleman, da BBC inglesa em 1962 apresentou o jogo que seria exibido pela emissora entre Itália e Chile. Sim, nunca se esperou um jogo de damas de honra no futebol, mas o episódio que ficou conhecido como “Batalha de Santiago” estabeleceu novos parâmetros para a violência possível no esporte.
A Itália já era bicampeã do mundo, mas seu futebol não era mais o mesmo. Treze anos antes, a “Azzurra” tinha perdido metade de sua seleção na tragédia aérea de Superga, onde morreu todo o time do Torino. O futebol internacional da seleção fazia força para se reerguer e só viria a voltar a vencer um torneio de importância seis anos mais tarde, na Eurocopa jogada em casa.
O Chile era ainda mais simplório. Além de não ter uma tradição esportiva, o país ainda contava com uma economia menor e, na Europa, era só mais um país sul-americano. A escolha da sede, feita em 1956, era vista pelos europeus com reservas e até objeções diretas, como as dos italianos. A situação ficou ainda mais radical quando em 1960, o Chile foi sacudido por um violento terremoto que matou mais de 3 mil pessoas. A Fifa manteve o torneio na América do Sul até por solidariedade ao Chile, mas certamente com uma organização mais modesta.
Na Itália, o Chile era mais ou menos descrito como um antro de famintos. Uma matéria do jornal “Il Resto Del Carlino” em especial deixou os chilenos irados. “Santiago é o símbolo de um país subdesenvolvido e aflito por todos os males possíveis: desnutrição, prostituição, analfabetismo, alcoolismo, miséria. O Chile é terrível. Inteiros quarteirões da cidade praticam a prostituição a olhos vistos”. Outra matéria, do “La Nazione”, comparava o Chile a países da África, mas com uma ressalva. “Os habitantes da África são os que não progrediram; os do Chile são os que regrediram”. Neste ambiente de amizade, mídia e público chilenos adotaram a Itália como inimigos públicos número um, pregando até a expulsão de jornalistas italianos. Um jornalista argentino chegou até a ser espancado num bar em Santiago, tomado por italiano.
Campo de guerra
Itália e Chile caíram no mesmo grupo na primeira fase. Com a Itália tndo batido a Suíça e a Itália empatado, os italianos tinham de vencer. O estádio Nacional (que depois se tornaria tristemente famoso por ser um palco de detenção de prisioneiros políticos no golpe do General Pinochet) que aguardava os italianos era um campo de batalha. As 66 mil pessoas vaiavam a Itália desde antes do jogo começar, mesmo com os italianos jogando flores para a torcida.
Iniciado o jogo, o pau comeu. Com 12 segundos, a primeira falta. Com 7min, Ferrini deu uma entrada em Landa tão acintosa que foi expulso imediatamente. O meio-campista não queria sair, mas a polícia o tirou a força. Segundos depois de retomado o jogo, Landa devolveu e fez uma falta igualmente grave, mas pressionado, o juiz Aston não advertiu o chileno.
Com interrupções infinitas, não se jogava bola, só se dava pancada. Aos 38min, o lateral David acertou Sànchez que caiu. Mesmo com o chileno caído, David novamente o acertou, no chão. Sánchez levantou e revidou com um gancho de esquerda que não gerou nem uma marcação de falta. Segue o jogo e David devolve o golpe com uma voadora. E mais adiante, Sànchez revida – mais uma vez – com uma pancada que quebrou o nariz de Maschio. Na confusão, David acaba expulso.
Ao todo, a polícia interveio três vezes no jogo. Com dois a menos, os italianos não resistiram à pancadaria e perderam por 2 a 0. O árbitro inglês foi acusado de ter se amedrontado e permitido a violência chilena – o que só aumentou a reação dos italianos. “Não era um jogo de futebol. Eu estava arbitrando um conflito militar”, disse posteriormente Ken Aston. O juiz disse que pensou em suspender a partida, mas o clima insanamente hostil do estádio o fez pensar que poderia provocar uma reação violenta da torcida. O Chile seguiu adiante, mas não dá para se falar em vitória. Não neste caso.


