Sem categoria

Invadindo o Paquistão

Potência nuclear e um dos países mais populosos do mundo, o Paquistão tem um dos cenários futebolísticos mais inóspitos da Ásia. A liga ainda é semi-profissional e alguns dirigentes lutam por dias melhores. Para conhecer um pouco sobre a realidade paquistanesa, entrevistamos Ali Ahsan, diretor do Athletico Faisalabad, da região do Punjab, ao leste do país. “Suprah”, como é conhecido, foi bastante solícito e se mostrou um crítico ferrenho da Federação de sua nação – onde metade da população é analfabeta. Essa é a primeira entrevista de um dirigente do futebol paquistanês para a imprensa escrita sul-americana. 

 

Gostaríamos que fizesse uma síntese sobre a realidade do futebol no Paquistão.
Ainda é semi-profissional porque a maioria dos jogadores são funcionários dos departamentos governamentais. O governo tem um orçamento anual para gastar em esportes como futebol, vôlei, críquete etc..e eles ajudam os funcionários-esportistas. No entanto, não existem competições suficientes e o nível do nosso futebol não tem melhorado como esperávamos. Por pertencerem ao governo paquistanês, os atletas não tem liberdade de jogar fora do país e melhorarem seus níveis. Os clubes tem uma enorme desvantagem, pois eles não conseguem se manter sem ajuda governamental, apesar de os torcedores preferirem os times de sua região ao invés das equipes dos departamentos do governo. A forte influência do governo, a dependência estatal dos clubes, estragam o profissionalismo.

E quanto a seleção.
Nós não disputamos amistosos e torneios suficientes para pensarmos em evolução. É uma pena, pois temos bons jogadores de origem paquistanesa no exterior como Adnan Ahmed (Ferencvaros, Hungria), Zesh Rehman (Bradford City, Inglaterra), Atif Bashir (Bridgend Town, País de Gales) e Amjab Iqbal (Bradford Park Avenue, Inglaterra). Temos grandes promessas, mas precisamos mudar a mentalidade administrativa para explorarmos ao máximo nosso potencial.

“O futebol sempre foi um esporte dos pobres no Paquistão”

A relação do povo com o futebol.
O futebol no Paquistão sempre foi um esporte dos pobres. A popularidade tem crescido devido as transmissões das ligas européias. O que falta é uma maior cobertura da liga paquistanesa, e como a Federação não tem conseguido profissionalizar o futebol, fica difícil o progresso. Existem poucos patrocinadores porque são poucas competições e essas poucas não são transmitidas pela TV. Se a Federação conseguir fazer com que os jogos da liga nacional e da seleção sejam transmitidos a cada ano, os patrocinadores virão. É uma longa batalha. 

Qual sua impressão dos bastidores da Federação Paquistanesa de Futebol?
A nossa Federação não é controlada por ex-jogadores, mas por políticos e ex-soldados do exército sem conhecimento e apreço por futebol. Eles não tem nenhum propósito para o desenvolvimento do futebol paquistanês, buscam apenas auto-promoção.

“Os times dos dois maiores departamentos governamentais dominam o cenário. Os jogadores do Pakistan Army FC são essencialmente soldados”

Como você analisa o trabalho feito pela FIFA e pela Confederação Asiática de Futebol (AFC) através dos projetos Goal e Vision Asia, respectivamente?
O projeto Goal tem construído muitas coisas em termos de infra-estrutura. A cidade de Lahore foi a primeira beneficiada com a construção da nova casa da Federação Paquistanesa de Futebol (PFF). Agora os esforços estão concentrados em Karachi, que é a principal base do futebol paquistanês. Mas está demorando muito devido a desavenças políticas e rivalidades internas no governo e na Federação. A falta de genuíno interesse dos governantes tem afetado negativamente o desenvolvimento dos projetos da FIFA e da AFC. Os projetos são implantados tardiamente e perde-se muito tempo por incompetência da Federação, mas antes tarde do que nunca.

Quais as razões do domínio avassalador do WAPDA FC e do Pakistan Army FC no cenário nacional?
São os dois maiores setores governamentais do país. Eles sempre tiveram um orçamento muito maior para investir não só no futebol, mas também no vôlei, basquete, hóckei na grama etc..Estão sempre na vanguarda por utilizarem os melhores atletas do país, que trabalham em seus departamentos. A WAPDA (Autoridade em Desenvolvimento das Minas e Energias, em inglês), por exemplo, tem cerca de 200 funcionários-esportistas. O Pakistan Army FC, time do exército, também tem recursos similares e seus jogadores são essencialmente soldados. Recentemente o WAPDA FC tem superado o Pakistan Army como o melhor time do país. Eles têm uma excelente estrutura para os nossos padrões e uma boa carga de trabalho, além de pagarem bem. Mas o time do exército não fica atrás. Na atual liga eles estão mostrando empenho e trabalho de equipe, mas falta a qualidade técnica que o WAPDA FC tem. O KRL (Kahuta Exames Laboratoriais, em inglês), que sempre vinha atrás dos dois, tem tudo pra ganhar a competição.

“Tadjiquistão e Quirguistão estão a nossa frente porque são ex-repúblicas da União Soviética e herdaram a estrutura dos soviéticos após a independência”

Discrimine para nós as diferenças estruturais nas cidades mais ‘futeboleiras’ do Paquistão como Lahore, Karachi e Islamabad.
Lahore tem bons clubes como Wohaib, Model Town e PEL FC (Equipe de uma indústria de eletrodomésticos conceituada no país). Karachi tem o Shehzad Muhammadan FC e o próprio Karachi United. Em Islamabad tem o Ravy FC, uma boa equipe. A verdade é que a maioria não pode competir com WAPDA FC e Pakistan Army por falta de dinheiro. O PEL FC ainda se mantém, mas o Wohaib acabou após cair para a segunda divisão há dois anos. Os clubes de Karachi competem em ligas regionais e geralmente atraem a atenção de muita gente. A liga regional de Karachi é talvez a mais famosa competição de futebol do Paquistão. É uma pena que os vencedores normalmente não podem se promover no cenário nacional. Faltam recursos.

Em nível internacional os clubes paquistaneses disputam a AFC President´s Cup, um torneio que reúne times de países que a Confederação Asiática classifica como “emergentes”. Há um claro domínio dos clubes do Tadjiquistão e do Quirguistão. Como tem visto a participação paquistanesa?
Tadjiquistão e Quirguistão são ex-repúblicas da União Soviética e herdaram a estrutura dos soviéticos após a independência. A liga deles tem um nível melhor, eles têm mais competições e mais conhecimento sobre futebol em relação a nós. Na edição deste ano o WAPDA FC por pouco não surpreendeu e se não fosse por vacilos da defesa em momentos cruciais, teria chegado a final. Espero que possamos passar das semifinais na próxima edição em 2010.

“A região que faz fronteira com o Afeganistão é cheia de malucos por futebol e eles são bastante hostis com os times visitantes”

O atacante Mohammed Essa, o melhor da história do país, foi revelado no Chaman FC, na fronteira com o Afeganistão. A região do Baluchistão, ao lado do território afegão, parece ser uma zona importante do futebol paquistanês.
Sim, Chaman é uma província do Baluchistão e cheia de malucos por futebol. Infelizmente é uma das partes mais pobres do Paquistão e isso afeta o desenvolvimento do futebol. Os pachtuns estão em grande número por lá. Eles se consideram afegãos e amam o futebol, assim como os balúchis. Naquela província há cidades como Quetta, Nushki e Chaman que possuem clubes que competem em torneios regionais como convidados. Geralmente as equipes tem nomes que lembram a origem étnica como Afghan FC ou Baloch FC. A cidade de Chaman também tem um clube chamado Muslim FC, que esteve na temporada 2008/09 da Liga Paquistanesa. Eles foram rebaixados.
 

Mas o Afghan FC ainda está na divisão principal.
Sim, a torcida deles é a mais fanática do Paquistão. Apesar do estádio precário, eles atraem milhares de pessoas. Entre cinco e dez mil pessoas por jogo. Um detalhe é que os torcedores do Afghan FC sempre são bastante hostis aos visitantes. O clube sobrevive através da venda de ingressos e do apoio de poucos comerciantes de Chaman. O amor pelo futebol existe no Baluchistão, o problema é a pobre infra-estrutura e os problemas políticos dentro da própria Federação de Futebol da província, ou seja, o mesmo problema da Federação Paquistanesa de Futebol.

“Há muitos refugiados e filhos de refugiados afegãos jogando na região do Baluchistão”

Todos sabem que existem milhares de refugiados afegãos no Paquistão, inclusive filhos e netos de refugiados. Gostaríamos de saber se existem muitos atuando no futebol paquistanês?
Na primeira divisão eu não tenho certeza, mas têm muitos em equipes do Baluchistão como nas cidades de Quetta e Chaman.
 

Conte-nos sobre o projeto que você e Malik Riaz estão realizando no Athletico Faisalabad.
Isso começou quando eu e Malik Riaz (que é árbitro na quinta divisão alemã) decidimos que era preciso fazer algo pelo futebol paquistanês e não ser apenas voluntários da Federação. O objetivo é trazer profissionalismo. Inicialmente formamos uma empresa chamada Zenith Sports. Depois entramos em contato com um time de Faisalabad, o Punjab Medical College (PMC FC). Nas negociações compramos a metade do clube e antes mesmo do arranque da Liga Nacional em 2008 o renomeamos para Athletico Faisalabad, para atrair mais torcedores. É um trabalho duro, mas nós estamos confiantes em conquistar títulos e introduzir uma mentalidade mais profissional no país.
 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo