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Indonésia verde e amarela (Parte II)

Seguindo as entrevistas com profissionais brasileiros na Liga de futebol da Indonésia, conversamos agora com Stéfano Cugurra (foto ao lado), Preparador Físico e Assistente Técnico do Persebaya Surabaya, um dos clubes mais expressivos do país. Neste contato, ‘Teco’, como é conhecido no meio, ilustra as dificuldades enfrentadas para se chegar a um titulo indonésio, a brutal rivalidade entre os torcedores e, claro, como são os trabalhos físicos com os futebolistas locais. Confira!

O que representou para você a conquista do título indonésio em 2004? Conte-nos um pouco sobre como foi a preparação e as dificuldades do Persebaya Surabaya durante aquela campanha. O campeonato foi conquistado no ultimo jogo. Ganhamos de 2 a 1 do Persija Jakarta que também poderia ter sido campeão, mas como perdeu, acabou a competição em 3º lugar. Ganhamos com dois gols de jogadores brasileiros (Danilo e Luciano). Depois do jogo, o Danilo foi escolhido o melhor jogador do campeonato. Foi muito importante pra mim, pois era a minha primeira temporada aqui na Indonésia e nada melhor do que já chegar sendo campeão. pré-temporada foi muito bem feita, fomos pra cidade de Batu, em Malang e ficamos num hotel com ótima estrutura, campo de futebol, sala de musculação e piscina.

Como foi trabalhar com o treinador Jacksen Tiago, que é ídolo no país?

Trabalhar com Jacksen foi muito bom. Ele é muito inteligente e por estar há muito anos na Indonésia conhece bem a cultura e os outros times…e isso é muito importante na hora de fazer a estratégia tática para os jogos. Principalmente fora de Surabaya.

Jacksen é um treinador moderno e estudioso… pra mim foi muito bom trabalhar com ele no Persebaya Surabaya, em 2004 e 2005. Atualmente estou trabalhando com treinadores locais….e o Jacksen (atual Persiter Ternate) é adversário.

São quantos coletivos durante a semana? Os treinos são em período integral?

Meu time esse ano já trocou três treinadores…com isso, em relação a coletivos variava de acordo com o treinador. O normal é ter de um a dois coletivos dependendo da proximidade dos jogos.

Os treinos aqui são pela manhã, às 7:30h, e a tarde, às 3:30h, quase todos os dias, e dependendo da proximidade dos jogos.

Como você trabalha a parte física e quais as grandes dificuldades de se trabalhar com os jogadores locais?

Aqui o biotipo dos jogadores é baixo. A temperatura da minha cidade varia de 28 a 35 graus. O treinamento que passo é o mesmo quando trabalho nos clubes do Brasil.

Os jogadores locais não gostam muito de longa distância e trabalho de musculação. Mas como eu já fui três vezes campeão aqui, tentamos implantar a nossa metodologia…sempre com um pouco de resistência por parte dos jogadores daqui.

A fragilidade física e a pouca estatura média dos jogadores da região são apontadas como uma das causas que dificultam o desenvolvimento do futebol ai. Porquê é tão difícil implantar uma dieta onde os jogadores indonésios ganhem massa muscular?

Em 2004 tentamos fazer um ‘menu’ junto com o doutor do clube…mas houve muita resistência. Aqui a alimentação é totalmente diferente dos sul-americanos e dos europeus. Essa é a cultura do país e é muito complicado tentarmos mudar isso. O que fazemos é tentar compensar dando sempre vitaminas e suplementos.

Os torcedores do Persebaya são conhecidos por serem um dos mais violentos do país, inclusive os 'Boneks', que são a principal organizada. Como você descreve os torcedores indonésios em geral?

Aqui eles são realmente fanáticos!! Eu já trabalhei nos Estados Unidos, Itália, Coréia do Sul, Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita, Cingapura e Brasil. E não tem nada parecido com os torcedores na Indonésia. Aqui os estádios estão sempre super lotados. Os ‘Bonek’ são realmente muito violentos, mas esse ano meu presidente pediu um reforço da policia militar nos nossos jogos e por enquanto ainda não tivemos nenhum problema.

Afirmar que os problemas sociais são o grande causador da violência no futebol indonésio tem suas variáveis, pois o Vietnã e a Tailândia são países com populações bem humildes e nem por isso se vê violência de torcidas com frequência. Pela sua experiência, qual a grande razão da violência dos torcedores na Indonésia?

Na minha opinião são os estádios super lotados, a falta de policiamento e a policia despreparada! Na Tailândia, os jogos quase não tem torcedores, e com isso, a Policia não tem trabalho.

Percebe-se na Liga local uma quantidade enorme de jogadores do Chile e de Camarões. Existe alguma relação estreita entre os cartolas da Indonésia e empresários desses países?

Aqui os brasileiros estão na frente, ainda somos maioria….muitos jogadores na 1ª e 2ª divisão, depois vem os da Libéria. Aqui existem empresários chilenos que trazem muitos jogadores também. São de boa qualidade técnica, mas sem disciplina, com isso, os treinadores locais preferem os brasileiros. Já estou há quatro anos no Persebaya e nesse tempo sempre trabalhamos com, pelo menos, um jogador brasileiro.

Qual o salário médio de um futebolista nos principais clubes da Indonésia? Tem atrasos?

O salário varia muito de clube pra clube, mas podemos dizer que é de dois até 5 mil dólares. Poucos clubes tem atraso nos salários. Eu nunca tive atraso, todo dia 3 do mês, está depositado na conta.

Durante seu tempo na Indonésia você viu ou ouviu algo relacionado a manipulação de resultados ou escândalos envolvendo dirigentes? Como foi?

Em 2005 meu clube estava disputando as finais em Jakarta com outros três clubes, o Persija, de Jakarta, o PSM Makassar e o PSIS- Semarang. Jogamos as duas primeiras partidas, perdemos contra o Semarang e empatamos com o PSM Makassar.

Teríamos ainda a terceira partida e tínhamos que ganhar para podermos chegar as finais. Mas meu ‘manager’ não quis jogar a última partida e voltamos para Surabaya. Perdemos de WO e o Persija Jakarta, que ganhou de WO, foi pra final com esse resultado. Houve vários rumores de corrupção, mas nada foi comprovado. Meu ‘manager’ alegou que não quis jogar, pois teriam torcedores (dos ‘Boneks’) sequestrados pela ‘Jak Mania’ (outra violenta torcida de Jakarta). Mas ninguém acreditou!

A federação deu uma punição forte por não termos jogado e fomos rebaixados para a segunda divisão. Ainda estávamos jogando a Copa da Indonésia e com grandes chances de ser campeão, mas a federação tirou agente da competição e com isso foi um final de temporada terrível, em 2005.

Como é a cobertura da imprensa local? Os jornais e a TV dão bastante ênfase ao Campeonato Indonésio? 

Aqui na minha cidade, Surabaya, são 20 jornais cobrindo o time todos os dias. A cobertura da imprensa é fantástica. A TV também passa os jogos ao vivo e tem muitos programas esportivos mostrando apenas o campeonato local. Existem muitos ex-jogadores comentando os jogos.

Surabaya abriga um dos portos mais movimentados da região e tem algumas belezas. Como vive a população nativa? É comum ver turistas por ai? 

Em Surabaya não tem turista. A população local não tem muitos problemas. O povo Indonésio geralmente é um povo muito alegre e receptivo. Infelizmente, a pobreza existe em Surabaya e está crescendo.

Você teve uma curta passagem pelo Brescia da Itália. O que você observou de interessante nos métodos deles e tirou proveito?

Foi um erro eu ter saído do Brescia. Naquela época eu ainda era muito jovem e não pensei no meu futuro. A metodologia do treinador italiano é um pouco diferente, pois lá tem uma época do ano que é muito frio. Eles gostam muito dos trabalhos de piques e velocidade, com e sem bola. Geralmente fazem um trabalho muito forte na pré-temporada, mas acho que não sabem fazer o trabalho de manutenção, pois vejo muitos jogadores machucados na Itália. As condições de trabalho no Brescia são muito boas. Tudo que você pede, eles te dão.

Além do Brescia, você esteve lidando com garotos no Mansu Inchoen, da Coréia do Sul. Quais as principais diferenças entre trabalhar com garotos coreanos e italianos?

A primeira diferença pra mim foi a comunicação. Com um mês, eu já estava falando o Italiano. O coreano é muito complicado falar, principalmente porque eles não falam outra língua, nem o inglês…com isso, a comunicação fora do campo é complicada. Os coreanos tem muita disciplina… e realmente são determinados…. muito mais que os italianos. A qualidade técnica e a postura dos italianos é melhor que a dos coreanos. A estrutura dos dois clubes que trabalhei, tanto na Coréia quanto na Itália, são iguais.

FICHA

Stéfano “Teço” Cugurra
25/07/1975, Rio de Janeiro

Clubes:
2000: NSA Florida-EUA
2000: Observador Técnico da Seleção Brasileira sub-17
2000: Brescia-ITA (juvenil)
2001/2: Barra da Tijuca
2002: Observador Técnico da Seleção Brasileira sub-17
2003: Al Najma-ARA
2004: Persebaya Surabaya-IND
2005: Pato Branco
2005: Mansu Incheon-COR (juvenil)
2006/7: Persebaya Surabaya-IND
2007/8: Persebaya Surabaya-IND

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