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Indonésia verde e amarela – I

Iniciando mais um série de entrevistas com profissionais que atuam na Ásia, agora penetramos na Indonésia, o maior arquipélago do mundo com mais de 18 mil ilhas. A Trivela começa a viagem pelo quarto país mais populoso do globo conversando com o brasileiro Jacksen Tiago (foto ao lado), treinador do Persiter Ternate.

Como você foi parar na Indonésia? Na ocasião, tinha alguma idéia sobre o país?

Foi na verdade um acidente, eu estava no Rubro e ao sairmos do Brasil nosso empresário tinha nos falado que iríamos jogar na Malásia.

O empresário montou a equipe do Rubro e nos convidou para atuar lá, caso fossemos bem ele nos levaria para o exterior. Quando vim para a Indonésia éramos sete jogadores e três pertenciam ao Rubro. Viajamos sozinhos, mas com a promessa de encontrar um empresário suiço nos aguardando em Zurich. Ao chegarmos na Suíça, para nossa surpresa, o empresário nos falou que iríamos para o futebol Indonésio e não para Malásia.

Logo quando chegou como foram seus primeiros dias no Petrokimia Putra, em 94? Quais foram as principais dificuldades que você encarou?

Foram dias tristes, pois deixamos o Brasil no dia 23 de dezembro, bem próximo do Natal, e como você sabe, a Indonésia é um país muçulmano. Em nossa cabeça só vinha a imagem do Natal com nossa família no Brasil e chegamos a um país totalmente estranho e diferente culturalmente.

Mas para nossa felicidade encontramos diretores, jogadores e uma população bastante carinhosa. A Maior dificuldade que encontramos foi em relação a alimentação, pois a culinária Indonésia é muito apimentada e doce, mas felizmente estávamos em um clube-empresa que tinha uma boa infra-estrutura que nos permitiu ter nossas refeições no Restaurante Internacional do hotel da empresa. Em relação a língua, nos foi providenciado um curso intensivo durante quatro meses, para que pudéssemos ter uma boa comunicação com os jogadores.

Como você avalia sua passagem pelo PSM Makassar, que é um clube bastante antigo, com mais de 90 anos, e tem mais de 20 grupos de torcedores?

Minha passagem pelo PSM me traz muitas boas lembranças no lado emocional, pois foi o local onde vivi com minha família pela primeira vez no exterior, e minha esposa (Fátima) estava com sete meses de gravidez quando veio para cá. Meu segundo filho (Ayub) acabou nascendo aqui na Indonésia, isso me ajudou muito a me identificar com o povo local, pois eles se sentiram orgulhosos de terem um filho de brasileiro nascendo na Indonésia. Com isso, o respeito dos diretores, torcedores, povo e dos jogadores locais em campo, ajudou bastante para que levássemos a equipe juntas até o vice-campeonato. Pelo lado profissional também foi muito bom, pois tive oportunidade de disputar uma Copa Asiática (atual Liga dos Campeões da Ásia) aonde fui muito bem e tive algumas propostas da Coréia, mas nada se concretizou.

Por qual razão o PSM Makassar atualmente atravessa crise financeira depois de tantas conquistas?

O maior problema da Indonésia é que o futebol é patrocinado pelos políticos e isso influencia muito no interesse dos diretores em relação a campanha da equipe. Muitas vezes, pelo fato da direção ser oposta aos líderes políticos, a verba e apoio para o clube ficam limitados. Sem falar no ambiente interno que muitas vezes é composto por dirigentes de ambos os lados, o que prejudica bastante no desempenho de suas funções no dia-a-dia da equipe. Mesmo com todo esse impasse, o PSM ainda é o time com maior índice de estabilidade na Liga, pois sempre tem chegado as decisões e disputado as Copas Asiáticas.

Você teve uma temporada extraordinária no Persebaya Surabaya em 96/7 quando foram campeões. Quais as principais lembranças que você guarda daquela conquista?

Foi a única competição que eu tive oportunidade de participar da preparação até o término do campeonato, pois devido a problemas administrativos com meus empresários, sempre tive dificuldades de renovação de contrato.

O Persbaya tinha uma equipe fantástica, com vários jogadores de seleção e bons estrangeiros. Tínhamos boa instalação para treinos, moradia, alimentação e principalmente era ano de eleição e o Prefeito da cidade não media esforços para manter os jogadores motivados. Os prêmios de jogo eram bons e tudo funcionava perfeitamente para que alcançássemos o sucesso. Posso dizer que foi o Campeonato mais tranquilo que já conquistei, pois a equipe liderou do começo ao fim com uma margem de vantagem enorme sobre os outros concorrentes. Esta conquista foi fundamental para que eu pudesse chegar até onde estou, pois ali (no Persebaya Surabaya) também comecei minha carreira como treinador, tudo em função desta conquista. Acabei também ganhando a Cidadania de Surabaya, algo muito importante, pois fui o primeiro brasileiro a conquistar tal titulo.

Os torcedores do Persebaya são apontados como os mais violentos do país. O mais interessante é que ai por perto na Tailândia, Vietnã, Cingapura e Malásia não se tem noticia de violência entre torcidas. Porquê na Indonésia há torcidas tão violentas em alguns clubes? Você acha mesmo que é fruto dos problemas sociais que o país vive?

Concordo plenamente, pois nos países que você citou ainda se vê o povo dando importância a valores como a religião, idosos, enfim..a cultura asiática, onde o povo é conhecido como um povo tranquilo e receptivo. Mas infelizmente, aqui na Indonésia, eles tem um lado agressivo que sempre se manifesta quando eles se deparam com situações adversas. Inclusive, aqui é raro ver o time adversário levar torcida nos jogos fora de casa, pois a equipe da casa os proíbe de ir e ainda avisam a polícia que não se responsabilizam pela segurança deles, caso insistam em ir.

Como você define o futebol praticado no Campeonato Indonésio? Qual o esquema tático predominante?

O Futebol Indonésio se define em força, velocidade e muito contato durante as disputas de bola. O Esquema predominante é o 3-5-2, mas ultimamente algumas equipes quando atuam fora de casa estão começando a usar o 3-6-1. São raras as equipes que atuam no 4-4-2 ou 4-3-3, principalmente pela deficiência do jogador Indonésio em fazer a leitura do jogo e a cobertura.

E o nível técnico, como você avalia?

O nível técnico coletivo ainda é muito fraco para os padrões internacionais. Na verdade, eles tem potencial para evoluir, mas a maioria dos jogadores cresceu vendo os campeonatos europeus na televisão e isso faz com que eles não construam um estilo próprio. Sempre tentam imitar o craque que ele vê na televisão, até ai tudo bem, mas o problema esta no fato deles não treinarem para aperfeiçoar tais virtudes. Com isso, durante os treinos, eles querem ser Ronaldinhos, Messis, Kakas, Zidanes do dia para a noite, e esquecem que para eles chegaram a tal nível, existe um processo. Os Trabalhos nas categorias de base da Indonésia são muito carentes, e os profissionais que trabalham não são capacitados.

Esse Kurniawan Yulianto, do Persitara, atacante que chegou a jogar nos juniores da Sampdoria, da Itália, nos anos 90 e é o maior goleador da história da seleção é bom jogador mesmo?

O Kurniawan foi meu jogador no Persebaya, em 2004, quando fomos campeões. Ele é um jogador diferenciado, pois teve uma educação européia que o ajudou bastante a desenvolver as suas qualidades. Antes dele jogar na Sampdoria, tinha a equipe de juniores da Indonésia que jogou quatro anos o Campeonato de Aspirantes da Itália. Portanto, a geração do Kurniawan se desenvolveu bastante. Ele é do tipo que usa a inteligência para marcar os gols e tinha uma velocidade e poder de definição aprimorado. Hoje já esta em final de carreira. Para definir ele melhor, era do estilo do Careca no Brasil. Fazia gols com toques leves na bola.

Você destacaria algum jogador indonésio que teria condições de jogar em um nível aceitável no Brasil?

Fica difícil, pois eles não tem uma boa estrutura emocional para jogar fora do país, mas jogadores que impressionam existem alguns. Tinha o Robby Darwis (zagueiro, hoje assistente técnico do Persib Bandung), o Perri Sandria (atacante)…hoje os jogadores que mais se destacam no meu ponto de vista são Bambang Pamungkas (atacante, Persija Jakarta), Budi Sudarsono (atacante, Persik Kediri), Bejo Suguantoro (líbero) e Maman Abdulrahman (zagueiro, PSIS Semarang). Mas não posso afirmar se jogariam no Brasil. Poderiam até jogar, mas teriam que passar por um período de adaptação primeiro, ou seja, um estágio, pois o futebol aqui é muito diferente.

Sobre a sua passagem pelo Geylang United, de Cingapura. O que você sentiu de diferente entre o futebol cingapuriano e o da Indonésia?

O Futebol de Cingapura é mais cadenciado e na verdade mais fácil de jogar, só que infelizmente não tive boas passagens por lá devido a contusões. Mas é um futebol de pouca competição, pois só existiam dois clubes com força para chegar as finais, o Home United, time da Policia, e o SAFFC, time do Exercito. Os outros brigam para chegar em terceiro. Hoje, o Tampines conseguiu evoluir, mas a competitividade é fraca. Em termos de marketing e organização, eles ganham até do futebol brasileiro. O povo cingapuriano quer chegar a perfeição em tudo. Portanto, tem um futebol muito organizado. Eles trabalham com métodos da NBA e EPL (Liga Inglesa). Em termos de marketing e organização, eles são nota 10.

Recentemente entrevistamos o técnico de Cingapura Radojko Avramovic e alguns jogadores como 'Mani', Iskandar e Lionel Lewis. Todos eles disseram que o país deles é o melhor do sudeste da Ásia. Você acha que a conquista de Cingapura no ASEAN Games – Tiger Cup – leva a seleção deles a ser a melhor do sudeste asiático?

No futebol do sudeste da Ásia as maiores potências no momento são realmente Cingapura, Vietnã e Tailândia. O time que mais teve conquistas nos últimos anos foi a Tailândia, mas Cingapura vem evoluindo bastante, principalmente pelo fato de ter expandido em termos de naturalização. Se vermos por esse lado eles cresceram bastante.

Em campo são jogadores mais disciplinados e organizados taticamente. Eu gosto muito de vê-los jogar devido a disciplina tática. Mas o Vietnã tem um futebol de muita força e velocidade, e tem conquistado muitos bons resultados. A Tailândia vem passando por uma reformulação que afetou um pouco sua força, mas junto com o Vietnã é a seleção com maior experiência internacional, pois estão sempre realizando amistosos com equipes fortes do futebol europeu. Hoje, pode-se dizer que taticamente Cingapura é a melhor, mas em termos de força ofensiva e futebol atraente, o Vietnã me impressiona mais.

A seleção da Indonésia trocou 28 vezes de treinador em 56 anos de sua história, sendo que em 14 ocasiões recorreu a estrangeiros. Mas nota-se que a Federação dá pouco tempo para os técnicos trabalharem. O último que ficou mais de dois anos foi o russo Anatoly Polosin, entre 87 e 91. Qual sua opinião sobre a forma como a seleção da Indonésia é administrada pelos cartolas?

O Maior problema do futebol Indonésio é a falta de um planejamento em longo prazo, assim como os jogadores, os cartolas também querem ter sucesso da noite para o dia. Cingapura tem evoluído porque já vem trabalhando em cima de um programa em longo prazo com os Young Lions (equipe de jovens que disputa a liga nacional).

É um trabalho demorado que tem dado bons frutos para o futebol de Cingapura. Mas na Indonésia os cartolas querem mudar tudo durante seus mandatos de apenas quatro anos. Se formos observar o futebol Mundial, todas as grandes Associações vem crescendo a partir de trabalhos em longo prazo de seus dirigentes. Por exemplo, a FIFA com João Havelange e Sepp Blatter, a AFC (Federação Asiática de Futebol) com Bin Hammam (Presidente)…todos esses diretores tiveram anos para desenvolver seus trabalhos…Creio que este seja o maior problema encontrado aqui. Eles tem receio de seu sucessor levar o crédito. Tudo isso devido ao fato do futebol ser patrocinado pelos políticos. Insegurança política acaba refletindo no futebol.

O que acha do trabalho do técnico búlgaro Ivan Kolev a frente da seleção indonésia?

Ele dá bastante ênfase a parte física do jogador e muitas vezes tem padrões de seleção de jogadores baseados na postura e porte físico. Ele ainda não conquistou nenhum titulo de expressão. Mas tem sempre levado a equipe a fazer participações razoáveis em suas competições.

Você tem ambição de treinar a seleção do país?

Essa é minha maior ambição profissional no momento. Não é um trabalho fácil. Tenho apenas cinco anos como treinador de equipes profissionais aqui, mas tenho planos de ir para um mercado mais promissor onde eu possa evoluir em termos de experiência, mesmo que seja como auxiliar técnico de algum treinador experiente no Brasil ou exterior, simplesmente pelo fato de absorver a experiência dele.

Os jogadores da seleção da Indonésia na Copa da Ásia, em julho, tinham uma estrutura física média de 1,70 de altura e 67 quilos, ou seja, uma equipe que, em tese, não teria as mínimas condições de atuar em torneios de alto nível. Porquê ninguém no sudeste asiático enxerga a necessidade de trabalhar a massa muscular dos jogadores da região, que é extremamente frágil?

É difícil trabalhar com o pessoal aqui devido aos costumes alimentares deles. Isso só seria possível caso eles fizessem um intercâmbio em longo prazo com países com capacidade para desenvolver tal trabalho, pois aqui na Indonésia é complicado. Para se ter uma idéia, sempre que vamos jogar a Copa dos Campeões da Ásia, os jogadores levam na bagagem macarrão instantâneo e comidas locais sem nenhum poder nutritivo. Geralmente ficamos em hotéis 5 estrelas com um cardápio riquíssimo e variado, mas eles nem tocam na comida. 

É um absurdo, geralmente nas equipes que trabalho sempre peço a diretoria para montar uma academia de musculação para fazermos um trabalho de reforço com os jogadores. Muitos deles não gostam de fazer, pois dizem que viram robôs. Eles são totalmente leigos em termos profissionais. Necessitam de gente capacitada e dirigentes com boas intenções para que a coisa funcione. Geralmente, eles costumam perder os jogos nos minutos finais das partidas por não terem um bom condicionamento muscular.

FICHA

Nome: Jacksen Ferreira Tiago

Nascimento:28/05/1968, no Rio de Janeiro/RJ

Clubes:

1990/1: Confiança-RJ

1991: Madureira

1992: Botafogo-RJ

1992/3: Americano

1993: Noroeste

1994: Valeriodoce-MG

1994: Rubro-RJ

1994/1995 – Petrokimia Putra – IND

1995/1996 – PSM Makassar – IND

1996/1998 – Persebaya Surabaya – IND

1998 – Matsunichi Guangzhou Shongri – CHN

1999 – Geylang United – CIN

1999/2001 – Persebaya Surabaya – IND

2001 – Home United.F.C – IND

2001 – Petrokimia Putra – IND

Como treinador:

2002/2003: Assyabaad Surabaya – IND

2003/2005: Persebaya Surabaya – IND

2006: Persita Tangerang – IND

2007: Persiter Ternate – IND

Principais títulos:

– Campeão e artilheiro do Campeonato Indonésio (1997)

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Equipe Trivela

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