Heron Ferreira, treinador do Al Hilal (Sudão)

Desde maio de 2005 no Sudão, o treinador brasileiro Heron Ferreira comanda o maior clube do país, o Al Hilal, com sucesso. Em pouco mais de dois anos de trabalho, ele foi campeão de quase todas as competições que disputou, mas ainda lhe falta um título internacional. Em entrevista à Trivela, Heron falou a respeito da classificação inédita de sua equipe para a fase de grupos da Liga dos Campeões da África, entre outros assuntos. Confira a entrevista abaixo:
Após passar por adversários fortes como o Zamalek, do Egito, e o Nasawara United, da Nigéria, o Al Hilal se classificou para a fase de grupos da Liga dos Campeões, pela primeira vez em sua história. Qual foi a repercussão desse feito no Sudão?
Foi uma loucura. O país parou e houve carreata pela capital (Cartum) por toda a madrugada. As rádios transmitiam os gols contra o Nasawara em suas programações a cada 15 minutos durante vários dias. Acredito que conseguimos resgatar o respeito e a dignidade do futebol sudanês.
De que forma os torcedores e os clubes africanos encaram a Liga dos Campeões?
Eles encaram com muita paixão e passionalidade, mas existem, infelizmente, clubes e campos de jogos que não contam a mínima estrutura para receber times visitantes. Jogamos em estádios sem vestiários, sem grama – somente barro- e muita pressão da torcida. Creio que não encontraremos essas dificuldades na próxima fase.
O futebol africano é conhecido, também, pelo semiprofissionalismo de alguns países. Você se deparou com alguma situação em que essa realidade esteve exposta?
Sim, em Zanzibar (Tanzânia), por exemplo, o gramado era péssimo, mas o vestiário, em contrapartida, oferecia certa condição. Na Nigéria, também, nos deparamos com alguns problemas, como o tamanho do estádio e a inexistência de hotel na cidade da partida em questão, o que nos obrigou a ficar a 100 quilômetros de distância e, ainda assim, sob condições precárias. Diante do Zamalek, do Egito, no entanto, contamos com tudo do melhor, desde uma recepção fantástica até o hotel e o estádio.
Em 2004, quando você treinou, dentre outros clubes, o Náutico, o Al Hilal desclassificou o Al Ahly da Liga dos Campeões. Desde então, o Ahly perdeu somente uma vez na competição. Como superá-lo?
Realmente, eles contam com um excelente grupo, muito bem treinado, e ainda são os atuais campeões da competição. Mas minha equipe está num excelente momento, e a motivação é enorme. Temos que estar tranqüilos nesse primeiro encontro e tentar surpreendê-los num contra-ataque.
Além do Al Ahly, o Al Hilal enfrentará os tradicionais Asec Mimosas, da Costa do Marfim, e Espérance, da Tunísia. O que você achou do sorteio?
Gostei. Acho que os oito classificados têm excelente padrão de jogo. Queria o Ahly na minha chave, pois entendo que, se passarmos para a outra fase, teremos chances de brigar pelo título.
A propósito, como você foi parar no Sudão?
Por meio dos meus amigos Ivo Wortmann e Álvaro Peixoto.
Quando você resolveu comandar o Al Hilal, o que esperava encontrar pela frente?
Aceitei o trabalho pelo desafio e sabia que não seria fácil. Nos primeiros jogos, me deparei com uma equipe totalmente desorientada taticamente, e isso me alegrou, pois sabia que poderia melhorar seu padrão. Cabe ressaltar também a receptividade da direção e dos jogadores, que adoram a comissão técnica brasileira formada por mim, o preparador físico Rodolpho Maia, o treinador de goleiros Valdir de Oliveira e o fisioterapeuta Joílson Amorim. Essa oportunidade apareceu há dois anos, e nunca um treinador havia ficado mais tempo que eu no comando de um clube na história do futebol do Sudão.
No início do ano, você afirmou que sua meta para 2007 era vencer um torneio internacional. Como você avalia a temporada do Al Hilal até o momento?
Melhor é impossível. Somos líderes isolados do Campeonato Sudanês, com a vantagem de três pontos sobre o segundo colocado. Jogamos 11 partidas, ganhamos dez e empatamos uma. Enfim, como bicampeões nacionais, perdemos apenas uma partida desde janeiro. Creio que estamos no caminho certo.
O futebol sudanês atravessa uma excelente fase. Assim como o Al Hilal, o Al Merreikh e o Sudão cumprem bem seus papéis na Copa CAF e nas eliminatórias para a Copa Africana de Nações, respectivamente. A que você credita isso?
Acho que tenho participação direta nessa história. Dez jogadores da minha equipe foram convocados para a seleção, e sete deles são titulares. Creio que evoluimos muito em dois anos.
Desde 1976, o Sudão não participa das fases finais da CAN. Essa atual safra sudanesa é capaz de levar o país de volta a principal competição do continente?
Eles estão suficientemente maduros para alcançar essa meta. Ensinei a eles a jogarem no 4-4-2, pois todos os clubes utilizavam somente o 3-5-2. A partir disso, a seleção mudou seu esquema tático e também seus hábitos. Até mesmo o cardápio é elaborado por nós.
Como são os clássicos contra o Al Merreikh, arqui-rival do Al Hilal?
De muita rivalidade. O torcedor local é apaixonado, como em qualquer lugar. Às vezes, o clássico se torna um pouco violento, a exemplo do último, no qual empatamos por 1 a 1. O policiamento faz um cordão em volta do alambrado, para que não ocorram invasões, mas é interessante que não há briga nas ruas ou no estádio. Os torcedores são muito pacíficos, reflexo do grande respeito entre as torcidas.
Além de você, outros dois treinadores brasileiros se destacam no continente africano no momento: Carlos Alberto Parreira à frente da África do Sul e Márcio Máximo, no comando da Tanzânia. Você acha que mais técnicos brasileiros poderiam tentar a sorte na África?
Com certeza. Trata-se de um grande e bom mercado. O futebol africano está se modernizando, e a próxima Copa do Mundo, na África do Sul, trará muitos benefícios ao continente.
Até que ponto você acredita que o islamismo, religião predominante no Sudão, atrapalha seu trabalho?
Em nada, pois nós convivemos harmoniosamente. Determinamos os horários de treinamento fora dos horários de reza e também somos respeitados por nossa religião.
O Ramadã se iniciará no fim de setembro. De que maneira a comissão técnica do Al Hilal se prepara para esse período?
Nós nos adaptamos a essa situação. Preparamos um grande buffet com enorme variedade de comida, bebida e frutas no nosso clube. Assim, na hora de se alimentar, depois das 18:00, eles encontram tudo preparado pelo clube. Na primeira refeição, oferecemos alimentos mais leves, como sucos, sopas e tâmaras, entre outras coisas. Depois dessa refeição, descansamos por cerca de 40 minutos e vamos treinar. Após o treino, retornamos para comer, porém, dessa vez, a comida é mais pesada. Dessa forma, o ambiente se torna agradável.
Desde 2003, acontece na província de Darfur, no oeste do Sudão, uma das piores crises humanitárias do mundo. De que forma a sua cobertura é feita no país?
Eu não entendo muito bem o idioma árabe e, por isso, não consigo identificar um noticiário de Darfur. Falo inglês e espanhol e, às vezes, assisto a alguns canais estrangeiros. Mas, geralmente, quando minha televisão está ligada, acompanho algum jogo. Internamente, não dão muita ênfase à crise de Darfur.
Ela interferiu no andamento do Campeonato Sudanês?
Não. As notícias pelo mundo falam da violência daqui, no Sudão, mas, em Cartum, a segurança é enorme. Uma pessoa pode transitar a qualquer hora do dia ou da noite e não será importunada por nada, nem ninguém. Não há roubos nem assaltos no dia a dia daqui.
Seu contrato com o Al Hilal se encerra no final de 2008. Você pensa em cumpri-lo até o fim?
Até este momento, sim. O sonho do torcedor do Al Hilal é conquistar um título internacional, e eu estou vivendo esse sonho intensamente. Enquanto eu achar que posso contribuir de alguma forma para o crescimento do Al Hilal, eu fico. Quero muito transformar esse sonho em realidade.


