Herói no Qatar

Um dos grandes ídolos do futebol árabe nos últimos anos, o meia Camacho, ex-Botafogo, falou à Trivela sobre seus três anos no Oriente Médio defendendo o Al Hilal, da Arábia Saudita, e o Al Arabi, do Qatar. Simpático, o jogador revelado no CFZ, do ex-craque Zico, conta com orgulho suas proezas e conquistas no futebol saudita e retrata como foi a angustiante temporada pelo Al Arabi, do Qatar. Muito valorizado no mercado árabe, o meia carioca, que estuda propostas de clubes da região, também dialoga conosco sobre o desenvolvimento e a metodologia de clubes e seleções do futebol árabe. Confira nas linhas abaixo como foi essa agradável conversa com Camacho!
Como você avalia esses três anos no futebol árabe?
Foram três anos muito importantes para mim, especialmente os dois primeiros, quando eu jogava no Al Hilal, da Arábia Saudita, onde em dois anos, nós ganhamos muitos títulos. Ali foram muitas conquistas, tanto coletivamente quanto individualmente.
Vai continuar no Al Arabi, do Qatar? Como está sua situação?
Não vou continuar! Meu contrato com o Al Arabi era só de um ano, e eu não renovei. Estou analisando três situações. Duas propostas da Arábia Saudita e uma do Qatar.
O Al Arabi por pouco não caiu para a segundona nesta temporada 2006/7 da Qatari League. Quais foram as maiores dificuldades que vocês encontraram?
Quando cheguei ao Al Arabi, eles me contrataram como se eu fosse o ‘salvador da pátria’ porque quando fui para o Al Hilal, o time estava alguns anos sem ganhar titulo algum, e comigo, em dois anos, ganhamos seis títulos. A questão é que o Al Hilal tinha um bom time e uma boa estrutura, e no Al Arabi, foi o contrario, nosso time além de não ser uma equipe forte, ainda tinha os problemas internos, que atrapalhavam muito o clube. É por isso, que eles já estão há 10 anos sem ganhar titulo algum!
O clube até trouxe reforços no meio da temporada, como o Lembarki, o Al Ansari, e o atacante argentino Pisculichi, que estava no Mallorca, da Espanha. Eles acrescentaram alguma coisa ao time ou não mudou nada?
Com certeza eles acrescentaram muito para o time. Mas como desde o inicio da temporada foi tudo errado, desde planejamento, pré-temporada, escolha dos estrangeiros, não foi suficiente. Então, não adiantaria muito no campeonato nacional, porque já estávamos muito mal na tabela. Tanto eles acrescentaram que depois quando começou o outro campeonato que tem o estilo da Copa do Brasil aqui (Qatar Prince Cup), nós chegamos as semifinais, resultado que ninguém esperava que fossemos conseguir!
Existe muita pressão em cima desse jejum que o Al Arabi vive, de não ganhar um título há 10 anos?
A pressão é grande sim, porque é um time considerado grande, e esse jejum incomoda.
Quais as principais diferenças entre os técnicos Henri Michel, Abdullah Saad, e o português José Romão, que trabalharam no Al Arabi ao longo desta temporada 2006/7?
O José Romão foi o único que conseguiu dar um sistema ao time, depois da chegada dele que conseguimos melhorar consideravelmente, tanto que chegamos as semifinais da Qatar Prince Cup com ele no comando.
Como é a relação com o Sheikh do clube, Falah Bin Jassem Al-Thani?
Uma relação profissional! Só isso.
O jogador mais famoso do clube foi o argentino Gabriel Batistuta. Ele encerrou a carreira no Al Arabi há pouco mais de dois anos. Ainda se fala nele por lá?
Se fala sim, ele ficou dois anos no time, foi artilheiro de um campeonato, mas também
não conseguiu conquistar titulo algum.
O que torna o Al Sadd o melhor clube do Qatar hoje? O dinheiro e a força dos seus cartolas?
Tudo isso em questão. Além de ter muito dinheiro, ter ótimos jogadores profissionais, eles também tem a força dos cartolas e, acima de tudo, eles tem organização e planejamento, coisa que nenhum time do Qatar sabe o que é.
O futebol jogado na Liga do Qatar é mais fraco que o Campeonato Saudita?
Isso com toda certeza! Além de ser um futebol menos competitivo, também é menos profissional.
O que você tem a dizer sobre Younis Mahmoud, atacante iraquiano do Al Garrafa, artilheiro da liga?
Ótimo atacante, que sabe se posicionar dentro da área. É realmente um artilheiro.
O português João Tomás, que foi um dos goleadores da liga, é o jogador que você tem mais contato no Al Arabi? Você mantém contato com os outros brasileiros que atuam no país?
Não porque o João tem duas filhas, e eu não tenho filhos ainda, isso faz ser muito diferente o nosso dia-a-dia. Mantenho contato com quase todos os brasileiros que jogam lá, mas não diariamente.
Você marcou o gol do título saudita para o Al Hilal, em 2005, na final contra o Al Shabab. Quais lembranças você tem daquele jogo? Aquele foi seu melhor momento na carreira?
Esse momento foi um dos mais importantes da minha carreira sim. Eu marquei esse gol numa cobrança de falta. Interessante que nas semifinais, nós ganhamos de 1×0 do Al Ittihad, com um gol de falta meu também, e fomos para a final contra o Al Shabab. Foi inesquecível!
Um ano depois você realizou uma temporada excelente pelo Al Hilal, em 2005/6. O que aconteceu naquela final onde vocês perderam por 3×0 para o Al Shabab, onde ninguém esperava uma derrota tão elástica?
Foi um jogo em que o Al Shabab soube neutralizar nossas jogadas, eles marcaram muito bem, e em uma jogada de contra-ataque, no segundo tempo, fizeram o primeiro gol. Depois disso, nosso time não soube reagir, e eles, que também tinham um time muito bom, souberam aumentar o placar aproveitando os espaços que nosso time deu, pois estávamos tentando o empate. Foi uma decepção muito grande para todos, porque aquela derrota interrompeu uma seqüência enorme de títulos que o Al Hilal vinha ganhando.
Como é jogar o derby contra o Al Ittihad? Tem alguma diferença em relação aos outros clássicos pelo mundo?
É realmente um jogo especial, onde a pressão é muito grande. Eu particularmente sempre gostei desses jogos.
O jogador mais badalado do futebol saudita hoje é o atacante Yasser Al Qahtani, que jogou com você no Al Hilal. Como foi jogar com ele e o meia Mohammed Al Shlhoub, um dos melhores jogadores da Ásia, durante os dois anos que você esteve no clube de Riade?
São jogadores diferenciados, que tem muita técnica e podem resolver uma partida em um lance. Além disso, são pessoas extraordinárias, bastante amigáveis.
Yasser Al Qatani foi escolhido pelos companheiros de seleção como o capitão da Arábia Saudita nesta Copa da Ásia, que está acontecendo no sudeste asiático. No Al Hilal, ele já era tido como um futebolista carismático? Conte-nos sobre o perfil dele?
É um jogador que sempre teve ótima relação com todos, é muito descontraído e muito gente boa, só tenho coisas boas para falar dele.
Existe a tese de que a Arábia Saudita e outras seleções do Oriente Médio só serão competitivas quando exportarem seus jogadores para Europa. Você percebe que os jogadores árabes, em geral, tem ambição de jogar na Europa, ou estão acomodados pelo bom salário que ganham no Oriente Médio e ficam por ali mesmo?
Acredito que eles saindo do Oriente Médio seria um aprendizado muito grande para eles. Alguns jogadores tem essa ambição sim, mas também vejo muitos jogadores que se acomodaram por lá mesmo, e não pensam em sair de lá não.
Essa mentalidade no mundo árabe de trocar treinador várias vezes ao longo do ano é uma característica muito marcante no futebol da região. Você acha que essa troca constante de técnicos, especialmente nas seleções da região, definitivamente é um dos grandes males metodológicos do futebol árabe?
Isso sem duvida nenhuma! Eu acredito que o time ou a seleção tem que ter um planejamento, escolher o treinador, os jogadores, e focar naquilo que planejou, mesmo que os primeiros resultados não sejam tão bons. Tem que dar um tempo para que o trabalho dê o resultado esperado.
FICHA
Nome: Marcelo Ramiro Camacho
Data de Nascimento: 24/03/1980
Local de Nascimento: Rio de Janeiro
Clubes:
2000: CFZ
2001: CFZ
2002: CFZ
2003: Botafogo
2004: Botafogo
2004/5: Al Hilal
2005/6: Al Hilal
2006/7: Al Arabi


