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“Há três favoritos para ficar com a taça”

Depois de quatro rodadas transcorridas, procuramos o gaúcho Rogério Ramos (foto ao lado), Preparador de goleiros do Mahindra United, para falar da temporada 2007/8 da Liga Indiana de futebol. Neste contato, ele destrincha para nós a realidade atual do futebol na Índia, e revela ter como meta voltar a seleção local, onde já esteve presente entre 2002 e 2005. Transcorra o texto abaixo, descubra os detalhes e mergulhe na atmosfera do futebol indiano.

O grande adversário do Mahindra United nesta temporada 2007/8 da Liga Indiana será o atual campeão Dempo Sports Club ou existem outras equipes na briga pelo titulo na Índia?
Acredito que o Mahindra United seja uma boa equipe e que pode disputar o titulo. Porém, o Dempo, de Goa, o Mohun Bagam e o West Bengal, de Calcutá, estão bem cotados para a disputa. Outras equipes podem aparecer como surpresa, mas é pouco provável que aconteça. O Mahindra corre junto, mas um pouco por fora no páreo.

Como você avalia o momento dos brasileiros na Liga? Quem vem se destacando?
Sempre existe especulação quando temos brasileiros em campo, mas também são os mais criticados quando as coisas não vão tão bem. Todo ano sempre tem brasileiros que fazem muito bem seu trabalho. Tem alguns nomes que já estão aqui há alguns anos, e só permanecem porque fazem a diferença nas equipes que trabalham. É muito complicado jogar aqui, pode parecer fácil pelo fraco nível técnico, mas na verdade é mais difícil, pois o futebol é um jogo coletivo e precisa de jogadores inteligentes em todos os setores. Não dá para jogar sozinho, a grande qualidade de um jogador brasileiro para atuar aqui deve ser, além de um excelente futebol, uma capacidade imensa de se adaptar a tudo a sua volta e fazer diferença provando seu valor.

Como jogam as equipes da Liga Indiana?
3-5-2 e 4-4-2, bem básicos. São esquemas prioritários já que correm muito e pensam pouco, o que acaba acontecendo é muito desperdício de energia apenas correndo para atacar e voltando para defender. O que quero dizer é que, por causa dos treinadores sem muita qualidade, vemos também equipes sem muita identidade tática…e isso predomina. Hoje posso citar dois ou três treinadores de uma nova geração que tem uma mente mais aberta e inovadora. A maioria deles são ultrapassados, com métodos antigos, arrogantes e não dispostos a mudar, essa é a verdade…Então vemos jogadores agindo sem muita personalidade e apenas ocupando seu espaço físico em campo.

Goa é o estado com o maior número de clubes disputando as 3 divisões do futebol indiano na atualidade. Como é a relação com o futebol por lá?
As coisas em Goa são diferentes, principalmente pelo fato da cidade ter sido colônia de Portugal até 1964. Pessoas ainda falam português por lá, por esta razão, o futebol tem uma boa aceitação, mas digo que é uma aceitação limitada, já que na Índia realmente o crícket predomina. O futebol tem ganhado mais espaço, e apesar de Goa estar à frente em número de times, a cidade do futebol aqui na Índia é Calcutá.

Quais são as principais diferenças em se jogar nas cidades de Goia, Mumbai, Calcutá, Punjab, Cochin e Kerala?
O futebol em si não tem diferença, mas a cultura local, que muda em cada parte da Índia, pode tornar esses lugares bem diferentes em relação ao futebol que se joga por lá. Falando de estrangeiros, é claro, é necessário uma grande capacidade de adaptação e muita vontade de vencer pra não se acomodar ou ser vencido pelas dificuldades que cada lugar apresenta.

Conversando com o atacante Rodrigo Calisto, ex-Mahindra United, ele disse que uma das coisas que mais chamaram sua atenção na Índia foi o silêncio dos torcedores durante a partida. Descreva para nós o comportamento dos torcedores na Índia?
Realmente, para ver alguma vibração é necessário que aconteça algo, como um pênalti ou coisa parecida. A comemoração ou a vaia é momentânea e logo esta tudo quieto de novo. Acredito que seja herança da própria criação local. O indiano, no geral, é pacato e não é dado a muito alarme, assiste quieto e se manifesta só em casos extremos. Foram raras as vezes em que senti a torcida nos incentivando e tentando empurrar o time…

Descreva para nós como são os clássicos do futebol indiano? Quais são os principais dérbis?
Jogos envolvendo equipes locais podem ser considerados clássicos, mas sem dúvida o grande clássico no futebol da Índia é entre Mohun Bagam e West Bengal, ambas equipes de Calcutá. É jogo que facilmente lota o estádio com capacidade para 125 mil pessoas. Em Goa , quando Salgaocar e Churchill Brothers se enfrentam, as coisas esquentam bastante. Mas como falei, jogos envolvendo equipes locais são sempre clássicos.

Na Ásia existem muitos escândalos ligados a manipulação de resultados. Sobre corrupção no futebol indiano, você já viu ou ouviu muita coisa suspeita?
Sinceramente não, até porque se acontece, e deve acontecer, isso esta em nível de cartolas e como a arbitragem por aqui é muito fraca, os erros absurdos que eles cometem não me garantem que estão arrumando resultados porque pode simplesmente ser por baixa qualidade técnica. Até agora pelo que entendo de futebol, na Índia o título geralmente vai pra uma equipe que faz por merecer, e possui time para ser campeão. Qualquer outro tipo de armação acredito que fique fora de campo…Mas que a arbitragem pode ser armada, isso pode sim…

Sobre seus anos como goleiro do Vasco, de Goa. Como foi trabalhar num clube de administração portuguesa na Índia?
Tínhamos uma equipe limitada, o Vasco nunca montou uma equipe de ponta. Porém, sempre acreditou no trabalho de brasileiros e isto sempre causou um efeito positivo nos indianos, que acabavam influenciados pela nossa maneira de ser e se espelhavam muitas vezes em nós, produzindo uma identidade própria ao time. A meu ver o que mais marcou essa época foi a raça, a determinação que se podia perceber na equipe, que nos levou a resultados muito bons levando em conta o time que tínhamos.

Por qual razão o clube (Vasco) se encontra na 2ª divisão? O que houve?
O Vasco caiu pelo fato de não conseguir manter os jogadores indianos que precisava, já que na Índia você tem dificuldade de encontrar jogadores com qualidade suficiente pra jogar uma primeira divisão. Os clubes muitas vezes contratam jogadores fracos para completar um plantel. O Vasco foi, ao longo do tempo, perdendo esses jogadores para outras equipes por não poder cobrir a proposta de outros times. Isto acabou tornando a equipe muito inferior as outras. No ano que o Vasco caiu, eu fui embora após 7 jogos, não terminei o campeonato, mas sei que a equipe lutou até o último jogo para não cair, mas infelizmente caiu, e sei também que ainda tem diretor no clube que relaciona o rebaixamento com a minha saída prematura…Eu fui o brasileiro que atuou mais tempo pelo Vasco.

O astro local, Baichung Bhutia, é diferenciado?
Sendo sincero contigo… para indiano, ele tem personalidade, mas é um jogador comum se colocá-lo nivelado com o futebol no Brasil. Porém, ele é inteligente e não deixa de aproveitar as oportunidades. Quiseram criar um ídolo para o futebol indiano e de alguma forma o escolhido foi ele. Talvez por ter sido o único indiano a jogar fora do país. Principalmente por ter sido na Inglaterra, que tem um futebol muito admirado aqui, então, por tudo isso, na Índia ele é diferenciado, sim.

Você participou de uma época produtiva da seleção da Índia entre 2002 e 2005 quando Stephen Constantine estava no comando. Qual era o segredo de Stephen para fazer a seleção conseguir bons resultados? O que havia de especial?
Stephen foi precursor de uma revolução por aqui, arrumou muita briga exigindo condições ideais para os jogadores, e esta doação pelos atletas era correspondida com dedicação total e uma vontade enorme de mudar a imagem da seleção fora daqui e até mesmo em nível interno. Treinadores indianos pediam a “cabeça” de Stephen cada vez que ele se manifestava contra as tradições e costumes do futebol por aqui. Stephen conseguiu fazer os jogadores entenderem que ser profissional era bem mais do que conheciam e passaram a se manifestar contra a falta de estrutura e exigir melhoras. Mas te digo, foi uma revolução, mas tem muito que crescer ainda, já que a Índia está muitos anos atrás de outros países asiáticos.

Como foi que pintou essa chance de ser o primeiro preparador de goleiros brasileiro da seleção da Índia?
Fui indicado a Stephen pelo diretor do meu time e depois de conversar com ele, aceitei o convite, topando o desafio de tentar mudar a mentalidade deles e não apenas treinar os goleiros. Esse era o trabalho que procurava fazer no Vasco e que me rendeu reconhecimento, respeito e abriu caminho para seleção, já que Stephen sempre pediu a contratação de um preparador de goleiros estrangeiro.

Em março deste ano a seleção indiana chegou a ser número 165 no ranking da FIFA, a pior posição de sua história. Qual é o grande problema da seleção do país atualmente?
É a própria historia do futebol na Índia, os clubes que deveriam formar os jogadores, não possuem estrutura adequada para formar atletas corretamente, Existe trabalho de base, mas sem qualidade e que na verdade é feito por pessoas, na grande maioria, sem a mínima condição de preparar esses atletas para o mercado nacional. Até resolvem, mas em nível internacional, eles estão bem abaixo de qualquer outro país que tenha estrutura e base no futebol. Muita coisa tem mudado com a contratação de treinadores estrangeiros, mas este processo é lento e pode ser que numa geração futura a Índia tenha condições de brigar por posições melhores no futebol mundial… Isso se os clubes iniciarem um trabalho de base bem feito.

O que você pensa a respeito dos dois principais goleiros da seleção no momento: Subashish Roy Chowdhury e Subrata Pal? Eles são os melhores do país?
Sei que ambos precisam de muito trabalho de base, por incrível que possa parecer eu não os indicaria para jogar em uma equipe pequena no Brasil, mas estamos falando de Índia. Então, acho que eles no momento sejam dois dos melhores goleiros que se encontram por aqui. Estou no mesmo clube que Subashish e acredito que depois de uma temporada ele terá elevado o seu nível técnico e mental pelo trabalho que vamos fazer .

Você concorda que o fato da Índia não exportar jogadores é um dos motivos que impedem o progresso da seleção? Não existiu nenhuma especulação em cima de algum atleta indiano durante seu tempo aí?
O desinteresse por atletas indianos pelo futebol de outros países se deve ao fato de que, no geral, o jogador indiano é magro, baixo e tecnicamente limitado, devido ao fraco trabalho de base feito pelos clubes, que não vão atrás de jovens com o perfil adequado e acaba acontecendo que o jogador indiano não chega a ter nível para atuar em outro lugar que não seja o seu próprio país. Questões simples como alimentação, equipamento adequado, orientação técnica e tática, são simplesmente ignoradas por técnicos que tem a responsabilidade de desenvolver os poucos jovens que gostam de futebol e pensam em se tornar jogadores profissionais. Na verdade, a profissionalização dos jogadores por aqui é muito aquém da nossa realidade no Brasil.

Em países super populosos como é o caso da Índia, existe a esperança de desenvolvimento futebolístico, principalmente por parte de membros da FIFA. O Vietnã, por exemplo, com 80 milhões de habitantes, vem crescendo. A tradição do crícket atrapalha o futebol crescer e ter mais popularidade na Índia?
Com certeza sim, é impossível que num país de mais de 1.1 bilhão de habitantes você não consiga revelar jogadores que tenham nível elevado, mas a grande maioria dos jovens gosta mesmo é de jogar cricket, e nós no Brasil nem sabemos que jogo é este.. Só que o futebol tem meios próprios para assumir seu lugar, mas esse processo aqui pode ser lento devido a muitos fatores e um deles com certeza é o críquete…

Você foi o primeiro brasileiro a fazer parte da comissão técnica da seleção da Índia? Você tem algum recorde pessoal na sua passagem pelo futebol indiano?
Preparador de goleiros, com certeza fui o primeiro, e acredito que agora que voltei pra cá eu retorne para seleção novamente, já que fiz um bom trabalho, tenho o respeito de todos. Já conversei com vários jogadores que me pediram para voltar. Mas ainda não conheço o novo treinador. Na minha passagem pelo Vasco, na primeira liga que joguei, fiquei 9 jogos sem tomar gol. Deve ter sido recorde aqui. Fui o único capitão estrangeiro que o clube teve, não lembro de nada mais que possa ser entendido como recorde…

FICHA

Nome: Rogério Ramos Dal Solio

Data de Nascimento: 26/11/1973, em Passo Fundo/RS

Clubes:
1994: Naviraiense/MT
1994: Xanxerense/SC
1995: Tangara/MT
1996: Atlético Alto Vale/SC
1997: Mixto Bordo/PR
1998: Mixto Bordo/PR
1999: Atlético Ibirama/SC
2000: CENE/MS
2001: Vasco – IND
2002: Vasco – IND

(Como Preparador de goleiros)
2002/3: Seleção da Índia
2003/4: Seleção da Índia
2004/5: Seleção da Índia
2005: Vasco – IND
2005: Passo Fundo/RS
2005/6: Yongin – COR
2006: São Carlos/SP
2007: Juventus/SC
2007: Mahindra United – IND

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