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Gilberto: “Tenho chances de ir à Copa”

É impossível conceber uma festa sem a presença do anfitrião. Gilberto corre o risco de passar por esta estranha sensação. O lateral-esquerdo está acostumado a atuar no Olympiastadion, casa do Hertha Berlim. Ele luta para estar no estádio na estréia da Seleção na Copa e, quem sabe, voltar lá para a disputa do título. Para isso, Gilberto ainda precisa convencer Parreira a levá-lo para o Mundial.

A disputa por um lugar na lista dos 23 convocados vem sendo acirrada. Gustavo Nery aparece como uma sombra na batalha pela reserva de Roberto Carlos. Em entrevista à Trivela, Gilberto revelou quais as chances de ele se sentir como uma espécie de ‘anfitrião’ em Berlim. “São boas. Gostaria de estar junto com o pessoal para ter esta oportunidade de disputar o Mundial”, disse.

O lateral espera ser lembrado para o amistoso contra a Rússia, o último do Brasil antes da estréia na Copa, para finalmente ter a certeza de participar do torneio. Gilberto também falou a respeito do esquema tático montado por Parreira, o clima de oba-oba em torno da equipe e analisou os adversários da primeira fase. Além disso, comentou a respeito do Hertha Berlim e de Marclinho Paraíba.

Confira a seguir a entrevista de Gilberto:

Na sua opinião, como você avalia suas chances de ir para a Copa?São boas. Isso depende das oportunidades que o Parreira dará. Ele me deu a chance de jogar na Copa das Confederações e fui bem. Na Copa América, ele deu a oportunidade para o Gustavo Nery e ele foi bem também, foi campeão. Ele me convocou para alguns amistosos mas não pude ir por estar lesionado. Acho que as chances de eu disputar a Copa do Mundo são grandes. Espero poder jogar já neste amistoso contra a Rússia e ir bem, porque essa convocação será a última. Mesmo estando a dois, três meses da Copa, o Parreira já terá uma boa noção de quem irá levar. Então gostaria de estar junto com o pessoal para ter esta oportunidade de disputar o Mundial.

Jogar no Brasil como o Gustavo Nery te daria uma visibilidade maior?
Penso que este não seja o fator mais determinante para ser convocado mais ou menos vezes. A maioria dos jogadores brasileiros atua na Europa e isso demonstra que o Parreira tem acompanhado, lido e visto jogos de todos estes atletas. Comigo não deve ser muito diferente. Ele deve ter visto não só jogadores que atuam no Brasil mas também quem está na Europa.

Você está acostumado a atuar no estádio Olímpico de Berlim. A Seleção jogará na estréia justamente nele. Além disso, se chegar à final, voltará a jogar nele. Como é disputar uma partida no Olympiastadion? A torcida faz muita pressão?
O estádio é muito representativo, pois foram disputados nele os Jogos Olímpicos em 1936 e ele foi todo reformado. Para mim, como atleta, jogar neste estádio é muito importante. Mas acho que é um estádio como outro qualquer. Ele oferece segurança como outros na Europa. Espero poder atuar não apenas no primeiro jogo da Seleção e também como o último, mesmo que ficasse no campo.

Há na Alemanha um estádio com características de caldeirão, no qual a pressão da torcida possa ser um obstáculo para o Brasil?
Não, os jogadores já estão acostumados com isso. Os estádios são bons, com bons gramados e, em termos de torcida, não vai atrapalhar. Claro que os alemães não vão torcer de jeito nenhum para o Brasil, mas os atletas são experientes e não se deixarão levar pela torcida.

Existe um clima de oba-oba em cima da seleção, considerada como grande favorita para a conquista do hexa. Como você avalia esta condição? Afinal, quando o time saiu com este clima positivo acabou fracassando e, quando era criticada, conquistou o título…
O Brasil saiu com esse favoritismo. É uma sensação boa, porque vários jogadores estão vivendo um bom momento, como o caso do Ronaldinho, eleito o melhor do mundo pela segunda vez. O Brasil ganhou a Copa América, a Copa das Confederações e se classificou nas eliminatórias com uma certa antecedência. Isso deu crédito para a Seleção e fez com que o time ganhasse esse favoritismo. Os jogadores precisam se adaptar a isso e fazer o seu melhor. Chegar como favorita é importante para qualquer equipe. Vamos todos querer ganhar. No afã das outras seleções quererem tirar um pontinho contra nós, serão deixados espaços que poderemos aproveitar com a criatividade e habilidade.

Já conversamos com alguns jogadores da Seleção e, pelo menos entre os defensores, há um consenso de que o esquema tático deixa a zaga sobrecarregada. Você concorda com esta visão?
Isso deve ser conversado com o Parreira. A seleção jogou de forma ofensiva e ganhou a Copa das Confederações. O treinador introduziu este sistema tático naquele torneio e a Seleção foi campeã. Isso também demonstra que o fato de jogarmos de modo ofensivo nos traz benefícios. O importante é que os jogadores conversem com o Parreira para vir a esclarecer isso. O treinador sabe qual é o melhor esquema de acordo com cada partida.

No Hertha, você tem atuado mais como um meia do que como um lateral propriamente dito. Isso não te prejudica na luta para garantir um lugar no grupo?
Não, até porque estou sendo convocado mesmo jogando pelo meio. Já jogava desta maneira no São Caetano, no Grêmio atuava como ala. Na Copa das Confederações, demonstrei que tenho condições de jogar na lateral. Não vejo problema nenhum.

O próprio Parreira chegou a garantir que nem mesmo Roberto Carlos e Cafu, considerados titulares absolutos, não estão garantidos nem terão privilégios. Isto te anima na briga por uma vaga?
Serei sincero: acho que os dois jogarão sim. Eles são jogadores altamente experientes e importantes para a Seleção. Tanto o Cafu como o Roberto Carlos impõem muito respeito. Lógico que todo mundo quero jogar: eu, o Gustavo Nery, o Cicinho… Mas acho importante o Parreira ser sincero e dizer que vai jogar aquele que estiver melhor no momento. Vejo o Cafu e o Roberto Carlos como titulares absolutos da equipe.

Você é companheiro de equipe do croata Niko Kovac. Vocês já chegaram a conversar sobre o jogo entre Brasil e Croácia na Copa?
Eu quase não conversei com ele a respeito desse jogo, até porque ainda estou lutando para estar lá. Para eu poder comentar sobre alguma coisa, preciso estar com meu passaporte carimbado (risos). Mas o importante é haver respeito. Nem ele comenta muito. É um jogo que eles esperam muito e qualquer seleção européia espera jogar contra o Brasil dentro da Copa do Mundo. Não num primeiro jogo, mas numa final, semifinal, sempre querem jogar contra nós para tentar nos vencer e sentir esse gostinho, já que é muito difícil. Dentro do grupo brasileiro, assisti a seleção jogar contra o Japão e a Austrália na Copa dos Confederações. No nosso grupo no Mundial, acho que se classificam Brasil e Croácia tranqüilamente, sendo que o Zico está fazendo um grande papel no Japão. A gente conversa pouco, comentamos que será um jogo em Berlim, que vai ser legal, esperamos ter muita gente, mas não falamos muito sobre isso.

Quais são as principais características de Kovac?
No time ele joga diferente do que quando atua na seleção. Na Croácia, ele é o camisa dez, o capitão e joga praticamente solto. É um jogador com um bom cabeceio. Nos escanteios e faltas ele vai para área e faz muitos gols de cabeça. Aqui no Hertha ele joga mais como um volante, sai pouco para o jogo e fica mais protegendo a zaga. Na seleção ele atua mais para a frente. É um jogador aguerrido, que gosta de fazer gols e que pode complicar nas bolas paradas.

Pouca gente se lembra, mas você teve uma passagem-relâmpago pela Internazionale. O que houve para passar tão pouco tempo na Itália?
Eu era novo quando fui para lá e não me adaptei com a questão do frio. Hoje na Alemanha faz muito mais frio, mas estou mais bem adaptado do que em Milão. Era uma coisa nova e a equipe não estava tão bem assim.

Você mantém contato com outros jogadores brasileiros na Alemanha?
Converso muito com o Juan, por já ter atuado com ele no Flamengo, com o Bóvio, hoje na Espanha. Joguei um tempo futebol na salão na Espanha uns doze anos atrás e entro em contato com eles sempre. Falo com o Zé Roberto e o Lúcio também.

Até hoje, qual foi o melhor jogador contra quem você já jogou?
É difícil escolher apenas um jogador. Na época em que estava no Cruzeiro, era muito difícil jogar contra a Portuguesa. Eles contavam com o Alex Alves, um jogador muito rápido, com uma força muito grande e habilidoso. Era difícil marcá-lo. Havia também o Alessandro, ponta-direita, o Maurinho, lateral-direito, que enfrentei na época em que eu estava no Grêmio, e que tem um pulmão muito grande, o Vágner, volante do São Paulo e do Celta… Se eu falar todos, ficarei até amanhã… (risos).

O Hertha Berlim chegou a beirar a zona do rebaixamento na temporada passada, recuperou-se e por pouco não conseguiu uma vaga na Liga dos Campeões. Desta vez, o time se mantém entre os cinco primeiros da Bundesliga há um bom tempo. Dá para sonhar com uma vaga na LC?
Na temporada 2003/4 o Hertha quase caiu. No ano passado fizemos uma temporada boa. Nos mantivemos entre o oitavo e o quinto lugar e acabamos chegando em quarto. Por pouco não chegamos em terceiro e conseguimos um lugar na Liga dos Campeões. Neste ano, estamos mantendo o mesmo padrão. Estamos agora em quinto, mas a distância em pontos ficou muito grande em relação ao quarto colocado. Em termos título, estamos ainda mais longe do primeiro colocado. Para almejar um título acho que está bastante difícil. A gente possui bons jogadores, mas não possui um bom elenco como o do Bayern de Munique, o Werder Bremen e o Schalke 04. A gente luta mesmo para ficar entre o quarto e o quinto colocado, que dá a chance de disputar a Copa Uefa. Acho que temos grandes chances de terminar o campeonato alemão em uma destas posições.

Na sua opinião, o que falta para o Hertha Berlim ser considerado um time de ponta?
São vários os fatores. Acho que não falta estrutura, mas sim mudar a mentalidade dos dirigentes. Falta almejar uma coisa melhor. O Hertha, por ser uma equipe da capital, precisa ter um plano para elevar o nome do time numa posição melhor, ganhar títulos. Isto é o que move o clube. Acho que é mais isso. Até temos jogadores que passaram por seleções, como é o meu caso, o do Marcelinho Paraíba, o do Bastürk, tem o Arne Friedrich, zagueiro da seleção alemã. Temos um time bom, mas é necessário mudar a mentalidade. Para os dirigentes, a equipe tem nível para chegar em sétimo, oitavo lugar. A gente corre atrás para buscar uma outra competição como a Copa Uefa, que estamos disputando agora.

O Bayern de Munique assumiu a ponta do campeonato logo e desde então não sofreu grandes ameaças. Dá para tirar o título da Bundesliga?
Acho muito difícil. O Bayern de Munique tem um elenco muito bom. Todos os jogadores são do nível de seleção, por isso fica muito difícil. São jogadores experientes, acostumados a atuar em partidas e competições difíceis. Para buscar o título está difícil. Portanto temos que nos concentrar em nosso papel e tentar pegar o terceiro lugar, que nos dá condições de participar da Liga dos Campeões, ou então o quarto o quinto lugar para disputar a Copa Uefa, que seria muito importante para nós.

O Hertha depende demais do Marcelinho Paraíba, como ficou comprovado na última temporada. Esta dependência de um jogador não acaba prejudicando o time?
Ele é um dos jogadores mais importantes do grupo, sem dúvida nenhuma. Mas a gente depende de um grupo inteiro. A gente só não chega onde quer justamente por não ter um elenco muito bom. Isso dificulta na hora de enfrentar adversários como o Bayern de Munique ou o Werder Bremen. Falta um pouco de experiência para a equipe para que possamos vencê-los. Acho que precisamos de atacantes, de mais jogadores com bom nível técnico para almejar títulos.

Para você, o Marcelinho Paraíba merece uma oportunidade na Seleção?
Lembrado sim, mas é como eu sempre falo: para o meio-campo hoje é muito complicado. Você tem Kaká, Ronaldinho, Juninho Pernambucano, Emerson, Edmílson… Há tantos jogadores que foram campeões do mundo, como o Kleberson, o Gilberto Silva… Acho que o Marcelinho não está atrás deles. Ele está em um nível técnico muito bom, mas isso já não cabe a mim. É uma questão para o treinador. Há técnicos que gostam de determinados jogadores e acabam optando por um em detrimento a outro. Entretanto, o Marcelinho não atravessa uma fase tão boa como no ano passado, quando levou o time para uma posição boa, mas sem dúvida é um bom jogador.

No Brasil, muitos consideram a Bundesliga como um torneio de menor importância em relação ao inglês, espanhol e italiano. Você concorda?
É normal. Pelo o que envolve o campeonato espanhol, italiano e inglês, com grandes jogadores e valores muito altos de negociações, são torneios com clubes com muita grana. Muitos deles disputam competições importantes, como Milan e Internazionale na Itália, Barcelona, Real Madrid e Valencia na Espanha, Arsenal, Chelsea, Liverpool e Manchester United na Inglaterra. Na Alemanha, temos o Bayern de Munique e, puxando um pouquinho, o Werder Bremen e o Hamburg, mas são poucos os times. Isso faz com que o campeonato alemão venha um pouco atrás. Mas a Bundesliga é um campeonato bom de ser disputado, com grandes jogadores de bom nível. Gosto de atuar aqui.

Em quais pontos a Bundesliga é mais forte ou fraca do que os campeonatos inglês, italiano e espanhol?
Está mais nos jogadores. Não desmerecendo os jogadores que estão aqui, mas o nível aqui não é tão alto como nestes campeonatos.

Caso você não seja convocado para disputar a Copa, já escolheu em que lugar assistirá ao Mundial? Ficará em Berlim ou voltará para o Brasil?
Estou na dúvida, ainda não decidi o que vou fazer. Talvez eu volte para o Brasil de férias ou talvez fique para ver a Copa. Mas ainda não tenho certeza.

* fotos: Agência CBF

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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