Gilberto Silva: ‘Torço para entrar dois volantes’

Com a contusão de Edmílson, Gilberto Silva ganhou espaço na Seleção Brasileira que se prepara para a disputa da Copa do Mundo. Agora, o jogador do Arsenal é, em teoria, a primeira opção caso Carlos Alberto Parreira precise lançar mão de alguém no banco com características de um volante típico de marcação.
No entanto, nem isso contenta o jogador, que admite, mesmo que de brincadeira, que torce para o técnico colocar mais um volante no time. “Estou na esperança de ele mudar de idéia e resolver proteger mais a defesa”, diz sem segurar a risada.
Porém, o tom dessa declaração não significa que a entrevista concedida à Trivela tenha tratado apenas de amenidades. O jogador deixou um pouco a ‘mineirice’ de lado e não foi evasivo ao explicar como o ‘quadrado mágico’ pode deixar a defesa brasileira exposta. Apesar de ele próprio admitir que é difícil mudar a formação. “A Seleção tem adotado uma forma de jogar mais ofensiva já faz algum tempo e tem dado certo, assim, não há muitos argumentos para mudar o time”, comenta.
De qualquer maneira, Gilberto Silva se diz tranqüilo em relação à formação tática da Seleção. Para ele, Parreira tem consciência da necessidade de montar uma equipe balanceada e não hesitaria em modificar o time se isso fosse necessário para ganhar uma partida. O jogador do Arsenal falou ainda da expectativa de Henry, seu colega de clube e astro da seleção francesa, para o Mundial da Alemanha.
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Muita gente defende que a Seleção tenha mais um atacante. Outros pedem mais um meia. Mas vaga a mais para volante ninguém quer. Você se sente preterido na seleção?
Isso só acontece no Brasil, que está acostumado com times que jogam bonito, com bastante habilidade. A última imagem que o torcedor tem é a da Copa das Confederações, em que a equipe venceu e jogou bonito. Aí, todo mundo quer mais atacante, mais meia ofensivo. Mas o Parreira sabe, pela experiência que tem por já ter participado de Copa do Mundo, que não é bem assim que funciona. Precisa haver um balanço entre todos os setores do campo para que não haja sobrecarga em nenhum setor.
Conversamos com alguns jogadores da defesa do Brasil e muitos adotaram o mesmo discurso: a defesa brasileira joga exposta. Por que isso acontece?
Isso acontece justamente quando jogamos com mais atacantes que não têm a característica de marcar, coisa que muitos atacantes europeus têm. Essa nunca foi nossa escola e acho que vai demorar muito para mudar. Por isso é que acaba acontecendo essa exposição. O mais complicado é mexer no time quando ele está ganhando, como aconteceu na Copa das Confederações. Mas o Parreira sabe da importância de armar uma equipe para não sofrer gols. Até porque, se tivermos um setor defensivo bem montado, podemos ficar tranqüilos que não vai faltar gente para marcar gols ou criar jogadas de gol.
Você, como volante, quando vê de fora a Seleção jogar, não acha que falta um volante no time? Que esse excesso de ofensividade não acaba por deixar a defesa mais exposta e passível a erros?
A Seleção tem adotado uma forma de jogar mais ofensiva já faz algum tempo e tem dado certo. É lógico que em alguns momentos a defesa fica mesmo exposta e isso poderia acontecer também com dois ou três volantes. Tudo depende muito da forma que cada jogador se propõe a se doar dentro de campo. Sabemos que nossos jogadores ofensivos não têm a característica de voltar para marcar. A partir do momento que eles se dedicam um pouquinho, já ajudam bastante quem está lá atrás E não digo voltar para marcar, como um volante ou um zagueiro, mas apenas ocupar os espaços.
Quando te coloca em campo, quais as instruções que o Parreira lhe passa?
Justamente para ficar na frente dos zagueiros, mais postado. Todas as vezes que entrei foi no lugar do Emerson. Nunca jogamos juntos. É sempre ou um ou o outro, ao lado de algum jogador mais ofensivo. Basicamente, tenho a mesma função dele.
O Parreira costuma pedir para os volantes marcarem homem a homem ou por setor?
Ele sempre pede para ocupar os espaços e encontrar alguém. Nunca para marcar algum jogador específico. Acho até que ninguém na Seleção tem essa característica, mesmo entre os jogadores de marcação.
E quando o time está com a bola, qual seu posicionamento?
Quando a bola está no ataque, a ordem é para eu ficar o mais próximo possível do jogador que estiver com a bola, porque, se o adversário recupera a posse, estou mais próximo para tentar o desarme. Aí, em alguns momentos, posso até arriscar uma chegada, se houver a possibilidade. Mas como já são tantos atacantes, não cabe a um volante tentar isso.
Qual a diferença na forma de atuar na seleção e no Arsenal?
Na Liga dos Campeões, minha função é praticamente a mesma da Seleção, à frente dos zagueiros.
Em 2002, você chegou à Copa como reserva e acabou como titular por conta da contusão do Emerson e pelas circunstâncias daquele Mundial. Novamente você foi chamado para ser reserva. Você espera conquistar um espaço entre os titulares?
Claro que sim. Vou trabalhar para isso ao longo dos treinamentos. Sei que o tempo é curto e que a equipe já está formada faz tempo, o que torna eventuais mudanças mais difíceis de acontecer. Torço para que o Parreira, de repente, coloque dois volantes para jogar. Ninguém tem cogitado isso. Só se fala em um atacante a mais ou um meia. Isso pode muito bem acontecer.
Então você está na torcida para que ele mude de idéia?
(risos) É, estou nessa esperança. Mas, acima de tudo, tenho que esperar e fazer minha parte, que é trabalhar.
Dos adversários na primeira fase, qual mais lhe preocupa?
Muita gente tem falado que o grupo do Brasil é fácil, mas não é bem assim. Fizemos um amistoso com a Croácia, mas não dá para tomar muito como base porque não tivemos tanto tempo para treinar. A Austrália eu não conheço tanto como grupo, apenas os jogadores que atuam na Inglaterra. Do Japão eu posso falar um pouco pelo que vi na Copa das Confederações do ano passado. É uma equipe que joga com a bola no chão. Encontramos dificuldades contra os japoneses e podíamos até ter perdido naquele dia. Temos de nos cuidar.
Você convive com o Henry. O que espera dele na Copa do Mundo?
Ele está super animado para a Copa. De um jogador da qualidade dele, espera-se sempre o melhor, que ele jogue muito e faça gols para apagar a má impressão deixada pela França no último Mundial.


