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Gilberto Silva: “Não se pára Ronaldinho sozinho”

Dois dias depois do alívio de ser incluído na lista de convocados para a segunda Copa do Mundo de sua carreira, o volante Gilberto Silva terá um dos mais duros desafios de sua vida: sua primeira final de Liga dos Campeões. A primeira do volante brasileiro, campeão do mundo em 2002 e também a primeira do Arsenal.

Depois de anos como favorito, os Gunners chegaram à decisão desta quarta-feira, contra o Barcelona, em Paris, em uma temporada que muitos acreditavam ter tudo para ser um fiasco internacionalmente. Primeiro, o técnico Arsène Wenger vendeu o francês Patrick Vieira, capitão do time, para a Juventus. Desmoronaria-se, aí, toda a solidez defensiva. Depois, a equipe sofreu com diversas contusões de jogadores-chave, o que obrigou Arsène Wenger a antecipar as estréias de diversos dos jovens que ele costuma contratar. Contra qualquer expectativa, o time chegou à grande final. Eliminou os favoritos Real Madrid e Juventus nas oitavas e nas quartas-de-final, respectivamente, e depois o azarão Villarreal.

“Sinceramente, é difícil encontrar uma explicação lógica”, argumenta Gilberto, em entrevista exclusiva à Trivela. O volante acredita que o fato de o time não ter sido apontado como grande favorito, como aconteceu nas últimas temporadas, ajudou bastante. Porém, o campeão do mundo em 2002 revela que o segredo de Arsène Wenger foi fechar o time no meio-de-campo. A estratégia deu tão certo que os Gunners não tomam um gol a dez partidas na LC, um recorde.

Na conversa, Gilberto fala também sobre o duelo pessoal que travará com Ronaldinho no meio-de-campo e avisa: “Acho que só dá para pará-lo se você estiver num dia mais inspirado do que ele. Mais importante do que eu, individualmente, é o grupo criar alternativas para anulá-lo”.

Confira abaixo a entrevista completa concedida por Gilberto Silva

No início da temporada, Liverpool e Chelsea é que eram apontados como favoritos à conquista da Liga dos Campeões, enquanto o Arsenal nem passava perto. O que aconteceu para vocês terem roubado a cena?
Acho que o próprio fato de não termos sido considerados favoritos. Muito, talvez, pelo impacto de termos perdido um jogador importante como o Vieira. Para muita gente, isso enfraqueceu a equipe. De fato, no início da temporada isso causou um impacto muito grande no time. Principalmente no campeonato inglês, em que demoramos muito tempo para nos acertarmos. Acho que por isso ninguém apostava tanto no Arsenal. Por outro lado, isso foi bom para a gente. Principalmente após passarmos da primeira fase e termos enfrentado equipes que eram apontadas para a briga pelo título, caso do Real Madrid e da Juventus. Jogamos sem a pressão de ganhar.

Por que, depois de tantos anos fracassando, o Arsenal deu certo na LC?
Como disse, o fato de ninguém ter apostado na gente contribuiu bastante. Além disso, nosso time mudou bastante em relação aos anos anteriores, quando éramos apontados como favoritos. Agora, a situação se inverteu. Devagarinho, sem aquela obrigação de vencer, chegamos onde chegamos.

O Wenger de alguma maneira priorizou a Liga dos Campeões à Premiership?
De forma alguma. Tivemos uma dificuldade maior durante um período, em que vários jogadores ficaram machucados ao mesmo tempo. Por isso, o Arsene teve de começar a usar os jogadores mais jovens e das categorias de base para suprir as perdas. Isso dificultou bastante nosso trabalho e explica a péssima temporada que tivemos na liga inglesa.

E como explicar uma seqüência de fatos como essa – o time perde jogadores importantes, perde outros por contusões e tem de usar jogadores jovens – resulta com a chegada na final da Liga dos Campeões?
É difícil achar uma explicação lógica. Em anos anteriores, quando não fomos bem na LC, estávamos em situação mais confortável no campeonato inglês e com um time muito melhor estruturado. Talvez tenhamos conseguido reverter todas essas dificuldades que sofremos em resultado.

O Arsenal está a dez partidas sem sofrer gols na LC – um recorde absoluto. Qual o segredo?
Temos jogado diferente na Liga dos Campeões e no campeonato inglês. Na LC, temos atuado apenas com o Henry à frente e com cinco no meio-de-campo, enquanto na Premiership temos usado quatro meias – dois volantes e dois meias abertos. Esse esquema da Liga dos Campeões nos dá a vantagem de termos sempre um homem a mais que nossos adversários pelo meio-de-campo, o que nos ajuda bastante na hora de defender.

Com a saída do Vieira, apostava-se que o Arsenal ficaria mais frágil defensivamente. O que mudou na sua função tática desde a saída dele do time?
Minha responsabilidade no setor aumentou. Agora sou o jogador mais experiente do meio-de-campo e também o mais velho. Nesse ano tenho alternado as funções defensivas com o Fábregas e também com o Diaby, que se contundiu agora. Ambos são muito jovens e muita força física. Além disso, eles têm muita vontade, fogem da função tática, querem correr e chegar à frente. Isso significa que agora não tenho mais a liberdade de antes para arriscar jogadas no ataque.

Muita gente diz que o Arsenal só chegou à final da Liga dos Campeões porque o Wenger abriu mão de uma de suas principais características, que é a de colocar seus times jogando bonito. Ele mesmo deu a entender que isso, de fato, aconteceu, ao prometer que colocará a equipe para jogar mais aberta. Isso é possível contra um time como o Barcelona?
Olha, acredito que vamos jogar da mesma forma que vínhamos jogando. Não concordo que só chegamos onde chegamos porque jogamos mais feio. Mudamos, sim, a forma de jogar em relação aos outros anos. Se analisarmos todos os jogos dessa fase final, nossa pior partida foi a segunda contra o Villarreal. Nos outros, criamos diversas oportunidades de marcar gols: contra o Real Madrid, a Juventus e também contra o Villarreal em Highbury. Só no segundo que concordo termos jogado feio. A verdade é que contra o Barcelona o jogo não será nada parecido com esse último. Queremos vencer e não podemos ficar postados lá atrás, tímidos, contra uma equipe como a deles. É só darmos uma chance que eles acabam com o jogo. Vamos ter de sair para o jogo.

Como você prevê seu duelo pessoal com o Ronaldinho, já que você provavelmente será o homem com a tarefa de marcá-lo?
A gente sabe que ele está jogando muita bola e que ele é um jogador que não precisa de muito espaço. Acho que para pará-lo, só estando num dia mais inspirado do que ele. Não tem uma fórmula. Mais importante do que eu, individualmente, é o grupo criar alternativas para anulá-lo. Se todos nos ajudarmos, como já temos feito, as coisas ficarão mais fáceis dentro de campo.

E qual sua expectativa para essa partida?
Acredito que vai ser um bom jogo, não uma partida em que uma equipe fica só se defendendo e a outra atacando, como muita gente tem comentado. Vai ser um jogo bem aberto. É o último jogo da temporada para os dois clubes e vamos atrás de um título importantíssimo.

Para você, que já foi campeão do mundo, o que significa disputar a final da Liga dos Campeões?
Acho super importante. É um título que falta na minha carreira e nunca houve a oportunidade de disputá-lo. Espero ter o mesmo sucesso das finais anteriores que disputei e que seja um dia feliz para o Arsenal.

Fotos: Divulgação/Agência CBF

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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