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Futebol tem de ser tratado a sério

O futebol é, como sempre escrevemos por aqui, uma atividade econômica altamente rentável, que movimenta milhões em dinheiro, das mais diversas moedas, seja em transferências de atletas, investimento em marketing, projeção econômica de marcas, enfim, diversas formas a serem observadas em diferentes centros. Porém, a gestão profissional de tamanho volume de recursos e a regulação desse mercado contemporâneo nos negócios envolvendo o esporte (tratado como ramificação dentro do mercado do entretenimento de um modo geral) geram distorções.

No continente europeu, existem diversas formas de gestão de clubes – e nesses modelos de gestão encontramos, de certa forma, as respostas para o sucesso ou fracasso, em termos financeiros. Existe desde a simples gestão séria e responsável de um clube social, assim como a adoção de um modelo de gestão empresarial dentro de uma asso ciação, ou ainda a adoção de formas societárias, abertas ou fechadas ao mercado financeiro.

As experiências mostram que não existe um modelo societário básico, que tenha 100{4e6004d4b2dec836d33dc5172bfddf26d3363bd8dda1f1bebd6a41477248514f} de sucesso em gerir de forma satisfatória uma entidade de prática desportiva, no futebol. Porém, geralmente o sucesso de uma gestão vem sempre acompanhado do profissionalismo dentro dos cargos que existem nestes clubes, totalmente especializados no ramo específico da bola. Além disso, como já dissemos em colunas anteriores, não existe sucesso gerencial em clubes desacompanhados de uma organização igualmente séria na organização dos campeonatos oficiais que esses clubes disputam, pois os campeonatos são as verdadeiras “vitrines” para estes “produtos” (clubes), e sua credibilidade no mercado é aderente ã dos clubes, de forma recíproca inclusive.

Porém, são necessários mecanismos de controle econômico, e certamente uma cultura legislativa eficiente para fazer essa engrenagem funcionar, sem a deturpação dos objetivos nos negócios do futebol. Na maioria dos países que sediam as grandes ligas na Europa, foram criadas legislações específicas diferenciando a gestão esportiva dos demais modelos societários, devido às suas particularidades – porém, sempre com ferramentas de fiscalização na detecção de malversação de verbas ou má-fé na administração dos negócios.

O caso da Premier League inglesa, hoje a principal liga de futebol no mundo, é emblemático. A maioria dos clubes fecharam o último exercício financeiro no vermelho, incluindo grandes clubes ingleses, como Manchester United e Liverpool, que foram adquiridos por grupos de investidores americanos, que com a crise econômica mundial, acabou afetando o balanço desses clubes. O Portsmouth recentemente quebrou, por dívidas que chegam ao montante aproximado de 70 milhões de libras (aproximadamente 190 milhões de reais).

No Brasil, estamos ainda engatinhando na tentativa real de profissionalizar de fato a gestão esportiva dentro do futebol. Pouquíssimos clubes possuem diversificação em sua receita (vivendo apenas de verbas provenientes de transferências de atletas, caracterizando nosso futebol como um mercado essencialmente exportador), poucos clubes adotaram o marketing profissional e a valorização de suas marcas, e principalmente, não há organização eficiente e profissional do Campeonato Brasileiro enquanto produto e como fonte de renda aos clubes. A venda de direitos de transmissão são essencialmente monopolistas, não atendendo os interesses dos clubes e sim da detentora dos direitos (que atua no mercado do futebol nacional como credora dos clubes, ao antecipar receitas).

A legislação nacional também não ajuda: é excessivamente paternalista na forma de lidar com as gestões amadoras no futebol, que geram dívidas astronômicas, com a União (impostos e tributos), com pessoas jurídicas privadas, e também com seus próprios empregados, incluindo os atletas. A título de comparação, enquanto vemos o Portsmouth falir, e possivelmente ser rebaixado após a perda de nove pontos, por dívidas em torno de 190 milhões de reais, no Brasil vemos sete grandes clubes brasileiros (Vasco, Flamengo, Fluminense, Atlético-MG, Botafogo, Corinthians e Palmeiras) deverem valores maiores, e mesmo assim continuam participando nos torneios, não serem ameaçados de falência e, a maioria ainda por cima continua a aumentar esses valores na continuidade de gestões amadoras dentro do clube.

Ou seja, o primeiro passo para os clubes realmente se inserirem no mercado global do futebol é trazer credibilidade aos investidores externos, para aos poucos profissionalizarem integralmente suas gestões, e a partir daí pensarem em alçar vôos maiores. O mercado de consumidores brasileiros ainda não foi totalmente atendido de forma satisfatória, ainda há muitos pontos que podemos avançar, e cabem aos gestores dos clubes darem o primeiro passo para que a cultura do amadorismo seja substituída pela cultura do profissionalismo, dentro do futebol brasileiro.

Carlos Eduardo R. de Moura é advogado especializado em Direito Desportivo, em consultorias contratuais, além de litigâncias nacionais e internacionais envolvendo futebol profissional. Contato: [email protected]

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Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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