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Futebol ao modo da Florença medieval

Florença, século XVI. O Renascimento estava no auge e a cidade fervilhava. Era o centro do mundo. Poucas vezes um lugar concentrou tantas idéias, tantos gênios, tanta inovação. Talvez apenas a Atenas clássica, Alexandria ptolomaica, a Córdoba da virada do primeiro milênio, a Londres vitoriana ou a Paris da Belle Époque pudessem se comparar. Pensando bem, nem isso. Difícil concorrer com um lugar que contou, em algum momento, com nomes como Brunelleschi, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Galileu Galilei, Dante Alighieri, Maquiavel, Boccaccio, Botticelli e Giotto.

Fazer um retrato mental dessa cidade é tentador. Gênios se cruzam pelas ruas, obras de arte apresentadas, tecnologias são desenvolvidas e surgem novos conceitos a respeito do papel do ser humano no universo. O que pouca gente lembra é que, no meio dessa imagem idealizada, há gente comum. Pessoas que praticavam várias atividades cotidianas, como o esporte. Aliás, mais que isso, elas jogavam uma modalidade que guarda algumas semelhanças com o futebol, o calcio in costume, hoje também conhecido como calcio storico ou calcio fiorentino.

Quando o jogo passou a existir no molde que ficou famoso é difícil de definir. O que se sabe é que se trata de um parente próximo do sferomachia, jogo de bola criado na Grécia Antiga. Quando os romanos invadiram os Bálcãs, levaram o esporte e rebatizaram-no de harpastum. Essa modalidade se espalhou pelo império a partir de confrontos de times de legionários romanos. Alguns séculos depois, os florentinos adaptaram o esporte romano e, já na Idade Média, haviam desenvolvido suas próprias regras.

O campo de jogo – com piso de areia – se divide em dois quadrados. Os limites do terreno são cercados por muros e os gols se estendem pelas linhas de fundo, formando uma linha horizontal logo acima dos muros. Cada time conta com 27 jogadores, sendo quatro goleiros. O resto é simples: as equipes precisam colocar a bola dentro do gol do modo que for possível. Pode usar a mão e os pés. A cada tento, os times mudam de lado. Vence quem, ao final de 50 minutos, fizer mais gols. Só é preciso tomar cuidado com arremates precipitados: bola fora dos limites do campo vale meio gol ao time adversário.

Regras?

Como a regra previa que os times poderiam usar qualquer meio para chegar a seu objetivo, segurar a bola com as mãos e avançar é um expediente comum, bem como o uso de agarrões na defesa. Apesar do nome (“calcio” significa “chute” em italiano e, depois, foi usado para “futebol”), a dinâmica do jogo guarda mais semelhanças com o rúgbi.

Desde a Idade Média, o calcio fiorentino foi uma mania em Florença. A origem era aristocrática, mas pessoas comuns passaram a jogar pelas ruas e vielas. Depois de um tempo, isso chegou a causar problemas de ordem pública pela freqüência que as equipes brigavam. O governo foi obrigado a organizar um pouco a prática do esporte, que ficou concentrada nas principais praças da cidade. O que não significa que houvesse reprovação das autoridades. Pelo contrário. Membros da família Médici, governantes da cidade, e futuros papas eram praticantes conhecidos do calcio.

As partidas mais importantes do ano eram realizadas no Carnaval, mas havia duelos durante todo o ano. A praça de Santa Croce (em frente à igreja onde, hoje, estão enterrados Michelangelo, Dante Alighieri, Nicolau Maquiavel e Galileu Galilei) era o palco principal dos encontros, mas foram realizados jogos até sobre o Rio Arno, congelado nos invernos de 1491, 1605 e 1606. Houve ainda partidas fora de Florença, sempre como eventos festivos e de demonstração.

A partir do século XVII, o calcio fiorentino foi perdendo espaço lentamente. A quantidade de partidas organizadas foi reduzindo gradualmente até que, no século XVIII, a prática já havia cessado. Mas ainda havia tempo para deixar a brecha a uma lenda.

Exportando para a Inglaterra

Em 1766, o imperador Leopoldo II, do Sacro Império Romano-Germânico, visitou Livorno. Para entreter a ilustre visita, foi organizada uma partida de calcio fiorentino. Um evento tão importante teve a presença do cônsul da Inglaterra, que poderia ter levado o esporte para seu país. Não há provas de que isso ocorreu realmente e os britânicos já praticavam uma espécie primitiva – e violenta – de futebol. De qualquer modo, a ligação histórica entre calcio fiorentino e futebol era possível na teoria.

Por quase duzentos anos em que o esporte que divertira Florença por tantos séculos era uma modalidade morta. Nesse meio-tempo, Florença caíra como estado e a península itálica se unificara sob uma bandeira. Até que, no século XX, houve um renascimento. O governo fascista queria incentivar qualquer coisa que pudesse exacerbar o nacionalismo italiano. Claro que as glórias do Império Romano e das repúblicas de Florença, Veneza e Gênova foram lembradas.

Em 1930, foram reorganizadas as partidas de calcio fiorentino na praça Santa Croce. São três partidas anuais, sempre na terceira semana de junho (época das festas do patrono da cidade), envolvendo equipes de quatro paróquias (regiões) florentinas: Santa Croce (time azul), Santa Maria Novella (vermelho), Santo Spirito (branco) e San Giovanni (verde). O calcio fiorentino também foi usado como inspirador do volata, esporte de vida efêmera criado pelo fascismo como alternativa de “raízes nativas” do futebol, muito inglês para o gosto de Mussolini.

Desde então, o esporte se consolidou. Em 1998, foi realizada uma partida entre uma seleção de Florença e um time de Lyon como parte da agenda cultural-esportiva da Copa do Mundo da França. A escolha da capital de Rhône-Alpes não é despropositada. Em 1575, a cidade francesa recebeu um jogo de calcio storico entre mercadores florentinos como forma de homenagear o rei Henrique III da França (filho de Catarina de Médici).

O ressurgimento no século XX não garante ao calcio fiorentino uma existência livre de problemas. Mesmo sendo um evento mais folclórico, turístico e histórico do que uma modalidade esportiva de competição, há muita rixa. Até pela natureza do jogo. O campeonato de 2006 foi cancelado depois de uma briga entre os times branco e azul. Em 2007, as partidas também foram canceladas por falta de segurança. Está programado o retorno em 2008, mas as equipes ainda discutem as regras para evitar novas brigas generalizadas.
 

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Equipe Trivela

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