Forçados a sair do palco

Como cidadão que (tenta) acompanhar o futebol holandês, claro que conheço a seleção de 1974. Não há como não fazê-lo: antes dela, com exceções como Faas Wilkes, Beb Bakhuys e Abe Lenstra, o país era um nada em termos futebolísticos. Fazia parte do terceiro escalão europeu, se tanto.
Por tudo o que representaram, os nomes dessa seleção – Cruyff, Neeskens, Van Hanegem, Krol, Jansen, Johnny Rep, Arie Haan e por aí vai – ficaram marcados eternamente. Até de modo exagerado. E a influência que exerciam dentro do elenco acabou por apagar injustamente a importância de certos jogadores que também se destacaram na Holanda, mas que não foram à Copa de 74, e, logo, despontaram para o anonimato.
Por que falar disso? Porque, no último domingo, foi anunciada a morte do ex-goleiro Jan van Beveren, de 63 anos, por causas não especificadas. Quem? Simplesmente o maior goleiro da história do PSV. E, para muitos, o maior goleiro da história da Holanda – sim, rivalizando com Van Breukelen e Van der Sar. Fama até justa, pelos feitos de Van Beveren: passou 10 anos no clube de Eindhoven, ganhou títulos, era o titular na primeira conquista internacional da equipe (Copa Uefa 1977/78).
E Van Beveren até teve oportunidade de atuar pela Oranje – fez 32 jogos, entre 1967 e 1977. Por que, então, seu nome fica de fora nas lembranças de grandes jogadores holandeses? Simplesmente porque o goleiro sempre teve convivência bastante turbulenta com os jogadores do Ajax, Cruyff e Neeskens à frente. Achava-os um bando de mercenários. A briga definitiva estourou simplesmente na pré-convocação para 1974. Além de já estar machucado, Van Beveren brigou irremediavelmente com Cruyff, desafeto eterno. Foi cortado por Rinus Michels. Substituído por Jongbloed – útil no esquema, mas temerário debaixo das três traves. E, por isso, teve vida curta na Oranje. Após sair do PSV, foi se exilar nos Estados Unidos. Lá, encerrou carreira (jogou em Fort Lauderdale Strikers e Dallas Sidekicks), e fixou residência em Houston, onde morreu.
Pelos mesmos motivos de Van Beveren, Willy van der Kuijlen, maior artilheiro da história do PSV, também ficou aquém do que poderia ter apresentado na Holanda. Isso, sem falar de companheiros de Cruyff no Ajax que perderam o bonde da história – como Barry Hulshoff, que não jogou em 1974 por lesão, ou Gerrie Mühren, que desistiu de ir à Alemanha pelo fato do filho estar doente.
Todos jogadores que tiveram uma história honrosa. Mas que, pela genialidade dos titulares holandeses (e pela personalidade polêmica deles), foram forçados a sair do palco principal. É: a história, às vezes, fica do lado dos vencedores, só.



