“Fiquei com medo”

Ele chegou com um certo medo no Guangzhou Evergrande, da segunda divisão chinesa. Decidira apostar, por ouvir boas recomendações. Sua estreia seria contra o Nanjing Yoyo. Placar de 10 a 0 para o Guangzhou. Quatro gols de Muriqui, que desde então já se tornou um dos destaques da equipe chinesa – junto de jogadores como Gao Lin, artilheiro da League One do país asiático.
Para saber a razão de Muriqui ter trocado uma carreira promissora no Brasil, que vinha de ótima passagem pelo Avaí, onde foi um dos destaques da boa campanha no Campeonato Brasileiro de 2009, e continuava mantendo a ascensão no Atlético Mineiro, pelo futebol chinês, a Trivela foi ouvi-lo. E descobriu que, agora, a intenção de Muriqui é conseguir, finalmente, uma identificação com um clube em sua carreira. Algo que, segundo ele, só foi conseguido no Avaí.
Como foi estrear marcando quatro gols pelo seu novo clube?
Foi bom. Uma estreia é sempre complicada. Consegui estrear bem aqui, ao marcar quatro gols num jogo só. Fico feliz por ter ajudado, por ter conseguido um começo tão bom.
E o nível técnico da segunda divisão chinesa? Você já conseguiu fazer uma avaliação a respeito disso?
É muito diferente do Brasil. Acho, por exemplo, que a primeira divisão chinesa é equivalente à Série B, no Brasil… é complicado. Mas, enfim, nosso time aqui tem qualidade, estamos liderando o campeonato em busca do acesso à primeira divisão, para buscar coisas maiores aqui na Ásia.
Você acabou de falar do seu time, o Guanghzou Evergrande, que está liderando. O time está muito acima dos adversários ou há muito equilíbrio?
Está bem acima, sim. Há os dois líderes, o Guangzhou, primeiro colocado, e o Chengdu Blades, vice-líder, que está sete pontos à frente do terceiro colocado. Então, acho que estes dois times estão, sim, um pouco acima. A tendência é de que consigamos subir para a primeira divisão.
Como surgiu a oportunidade de jogar na China?
Meu empresário conversou com o pessoal do clube aqui na China e com o pessoal do Atlético. Como eu não pertencia ao Atlético, ficou mais fácil para a negociação ser feita. Num primeiro momento, eu fiquei com um pouco de medo, porque não conhecia o futebol chinês. Mas, depois, consegui algumas informações que me ajudaram a aceitar a proposta. Para mim, foi muito bom, tanto financeiramente como profissionalmente. Então, estou feliz com esse momento da minha vida. Agora, é dar sequência ao meu trabalho.
No caso dessa transferência, o lado financeiro falou mais alto do que o lado esportivo. Mas você é novo, tem apenas 24 anos. Teria sido melhor ficar no Atlético, ou ir para a China foi mesmo a opção mais adequada?
Na realidade, aconteceram algumas coisas no Atlético que me fizeram tomar a decisão de sair, também. Eu tinha um contrato de três anos e meio, e joguei 32 jogos até a parada para a Copa, quando houve a minha saída. Aconteceram algumas coisas que me fizeram ver que seria melhor eu sair, porque, talvez, eu poderia não ter as oportunidades que eu vinha tendo. Volto a dizer: a proposta financeira era muito boa para mim, eu tinha a chance de poder dar mais tranquilidade para minha família. Tinha um salário muito bom no Atlético, também, mas aqui foi excelente para mim. Então, preferi vir para cá, jogar em outro país. Eu tinha este sonho de jogar fora do Brasil. Como você frisou, sou novo, e tenho a oportunidade de sair da China para ir para outro centro. Estou tranquilo, fazendo meu trabalho aqui. Tenho certeza de que acontecerão coisas novas na minha carreira.
Você acha que agora, conseguindo se destacar na China, uma transferência para outro país fica mais fácil?
Acho que sim. Hoje, no futebol, todos acompanham tudo. Os empresários do meio do futebol assistem aos jogos, assistem a DVDs. Como sou novo, tenho a possibilidade de jogar mais uns dez anos. Então, isso facilitaria muito a minha transferência para outro clube. Mas, a princípio, eu estou focado no Guangzhou, em fazer um bom trabalho aqui no clube. Se aparecer uma oportunidade de atuar em outro país, quero estar bem e preparado, focado no meu trabalho.
Você foi revelado pelo Madureira. Por que você acha que não deu certo no Vasco?
Na realidade, quando eu fui para o Vasco, eu era muito novo, apenas com 17 anos. Comecei a jogar como profissional, e não consegui ter sequência, por causa das lesões. Eu atuava por três ou quatro jogos, jogava bem, e me machucava. Então, eu me recuperava, jogava mais quatro partidas, e me machucava novamente. Não havia sequência de jogos. Não havia culpa do treinador, nem de outras coisas, mas sim por lesões. Então, quando eu me recuperei de todas as lesões, não tive a oportunidade que deveria ter. Então, acho que esse foi o ponto fundamental para que minha passagem não desse certo no Vasco. Mas foi um clube em que aprendi bastante, também, me deu uma projeção nacional. Foi o primeiro time grande em que eu pude jogar. Não deu certo, mas eu pude dar sequência na minha carreira.
Depois de não ter conseguido sequência no Vasco, você passou a ser emprestado para várias equipes. Isso incomoda o jogador, faz com que ele tenha dificuldades de adaptação?
É sempre ruim. Eu nunca fiquei por um ano direto num clube. Como eu era do Madureira, o clube sempre me mandava voltar para jogar o Campeonato Carioca lá, mesmo que eu tivesse ido bem no time em que eu estava emprestado. Então, eu nunca tinha sequência de trabalho, nunca tinha uma identificação com um clube. Isso me atrapalhou muito, ao longo da minha carreira. Jogava seis meses num lugar, seis meses noutro… não me identificava com nenhum clube. Eu só consegui isso na última vez em que passei pelo Avaí. Passei duas vezes por lá. Na primeira, o clube estava na segunda divisão, e eu ajudei na permanência dele. Da segunda vez, foi a melhor campanha que o Avaí fez na primeira divisão em toda a sua história. Então, acho que foi muito boa minha passagem pelo Avaí.
Então, jogar por muitos clubes diferentes me marcou muito. Tenho 24 anos, mas já joguei em sete clubes. Foi ruim para mim, mas aconteceu. Tive que assimilar isso. Agora, assinei um contrato por quatro anos com o Guangzhou. Posso cumprir esses quatro anos, e ser negociado com outro lugar. Agora, meu pensamento é esse. Antes, a não ser o Avaí, nunca pude me identificar tanto com nenhum clube. Hoje, posso me identificar com o Guangzhou, até porque fiz um contrato de quatro anos.


