Fifa lava as mãos

A BBC informou, na última terça, que a Fifa pretende acabar com a obrigatoriedade dos agentes e representantes de atletas se filiarem junto à entidade para poder executar transações internacionais de atletas. Esta decisão é fundamentada num levantamento onde apenas 25 a 30{4e6004d4b2dec836d33dc5172bfddf26d3363bd8dda1f1bebd6a41477248514f} das transações internacionais realizadas serem feitas por um agente Fifa.
Essa decisão, caso se confirme, cessará todos os pedidos de licença e ou renovação de licença para agentes Fifa a partir de maio de 2011 (após a conclusão das discussões que estão sendo feitas por uma comissão da entidade no fim de 2010), e automaticamente liberará qualquer cidadão, amparado com a devida documentação, de representar um atleta numa negociação, ou numa intermediação dentro de uma transferência internacional.
As associações de agentes de futebol (incluindo a brasileira) se movimentam para evitar que tal medida vire realidade para garantir sua reserva de mercado, até porque hoje a realidade é que a maioria dos representantes de atletas realmente não possui licença de agenciamento, e em tese contratam agentes Fifa para apenas assinarem os contratos de representação, ganhando uma fatia em caso de sucesso numa negociação mais à frente.
Porém, a real motivação não passa por uma mera constatação da realidade nos negócios do futebol, e sim uma tentativa da Fifa de se desonerar de fiscalizar e policiar as transferências internacionais. E sem querer, a entidade pode marcar um gol com essa decisão.
Os agentes surgiram na brecha dada aos clubes por não terem a devida preocupação com o planejamento de carreira de seus jovens jogadores nas divisões de base, e só se interessarem naqueles que se destacam, criando uma relação de certa forma interesseira, e não criando laços de fidelidade com seus jovens valores.
Os agentes, ao contrário, aparecem nesse momento de falta de atenção e desleixo dos clubes com seus atletas, oferecendo apoio, suporte (financeiro e moral) e portas que podem ser abertas com um bom desempenho desses atletas. Não à toa, a maioria dos jovens atletas não se desvincula tão cedo de seus representantes, sendo leais a quem os apoiou quando não eram famosos.
Com esse tipo de relação entre atleta e seu agente, é normal ouvir de jovens atletas brasileiros que seu sonho não é se profissionalizar em seu clube formador e ganhar títulos, e sim conseguir uma boa transferência para a Europa, afinal o garoto se espelha no modelo de sucesso estabelecido pelo seu tutor, que não é mais o seu clube e sim seu agente.
E com essa conjuntura vigente, não à toa podemos até comparar a maioria dos clubes formadores brasileiros com internatos, que por serem mal administrados, geram mais rejeição dos seus atletas do que fidelização. Para corrigir isso, é necessário que os clubes se profissionalizem para além do jargão comum que sai da boca da maioria dos dirigentes brasileiros.
Os clubes, aproveitando essa intenção da Fifa, devem organizar suas divisões de base para apurar e desenvolver melhor o conceito de planejamento de carreira junto aos seus atletas, inclusive representando seus interesses, baseado na possibilidade de retorno que esse garoto, um verdadeiro ativo financeiro de um clube exercendo seu papel na atividade econômica que hoje é o futebol, pode trazer para gerar maiores receitas para equilibrar as contas.


