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Ficarão na memória – 2ª parte

A primeira parte da lista especial feita pela Trivela, com os 20 jogos realizados nesta década que prometem ficar por muito tempo na memória (se você ainda não leu, clique aqui), já causou certa celeuma. Normal, natural, e até esperado: afinal de contas, não é algo feito com muito rigor, mas para apimentar uma discussão já calorosa por natureza.

E chegou a hora de levar esse tema polêmico além. Afinal, estão aqui os jogos considerados pela Trivela como os mais emocionantes da década. Fica o convite para, novamente, o leitor comentar aí embaixo sobre as escolhas exibidas na lista – e até mostrar, ele mesmo, sua relação particular. Porque, se há discussões no futebol que não têm fim, essa certamente é uma delas.

10) Corinthians 2×3 Santos – Final do Campeonato Brasileiro (2002)

A ascensão do Santos no Campeonato Brasileiro de 2002 foi surpreendente. Afinal, uma equipe jovem, que entrara nos mata-matas apenas como oitava colocada, conseguira superar o São Paulo, primeiro colocado na fase de classificação, e o Grêmio. Mas também foi justa, pelo alto nível das atuações de Alex, Léo, Renato, Diego e Robinho. Porém, a decisão do Brasileiro representava um grande desafio: enfrentar o Corinthians de Gil, Deivid e Kléber, treinado por Carlos Alberto Parreira. A outra grande equipe de 2002, pela solidez demonstrada.

Após ótima atuação no jogo de ida, com vitória por 2 a 0, o Santos sofreu sério golpe, logo no início da finalíssima: com um minuto de jogo, Diego voltou a sentir problema muscular, e deixou o campo. Foi a hora de Robinho ser o protagonista, e abrir o placar. Na defesa, Fábio Costa salvava a equipe. Até que Deivid e Anderson viraram o jogo para o Corinthians. A situação virara: agora, o time do Parque São Jorge estava em vantagem psicológica. Até Robinho assumir, novamente, o papel principal. E participar decisivamente das jogadas dos gols de Elano e Léo – este, o decisivo, que deu ao Santos o primeiro título de vulto, após 18 anos.

Evidentemente, a decisão ficou mais marcada por ser a primeira grande aparição de Robinho, e por marcar o retorno do Santos aos grandes títulos. Porém, o Corinthians foi um adversário duríssimo, que só valorizou mais a conquista. E também a última final de um Campeonato Brasileiro decidido no sistema eliminatório.

9) Brasil 3×0 Argentina – Final da Copa América (2007)

Enquanto o time comandado por Dunga enfrentava uma campanha bastante criticada, além de ter mais dificuldade em algumas partidas (como na estreia, com a derrota para o México, ou na semifinal, quando a vitória sobre o Uruguai veio somente nos pênaltis), a Argentina de Alfio Basile era admirada – e invejada, até. Messi começando o seu apogeu, Riquelme vivendo os últimos grandes momentos com a camisa alviceleste, vários jogadores em boa fase…

Porém, mal a decisão havia começado, em Maracaibo, Júlio Baptista abriu o placar, com um forte chute. Restava à Argentina buscar o empate, de vários modos – o que incluiu até bola na trave. Tudo infrutífero: o gol contra de Ayala só ampliou a determinação brasileira. A fragilidade emocional dos argentinos foi escancarada pelo cansaço, no segundo tempo. Coube a Daniel Alves dar o golpe final e fatal. E consolidar a primeira de várias reações que caracterizam a Seleção Brasileira, sob o comando de Dunga.

8) Brasil 2×0 Alemanha – Final da Copa do Mundo (2002)

Os 23 jogadores convocados por Luiz Felipe Scolari chegaram ao Mundial de Japão/Coreia do Sul absolutamente desgastados. Nem tanto no aspecto físico, mas sim no emocional. Afinal de contas, a Seleção Brasileira vinha de campanha bastante turbulenta nas Eliminatórias, e Scolari sofreu com as pressões para a convocação de Romário. E, no entanto, guiada pelas ótimas atuações de Ronaldo e Rivaldo, o time chegou à final.

E, naquela decisão em Yokohama, o adversário vinha de situação muito semelhante: só tendo garantido vaga na Copa pela repescagem, a Alemanha havia alcançado a decisão ancorada nas grandes atuações de Oliver Kahn (com auxílio de Klose, Ballack e Neuville). Mas, na partida, o Brasil demonstrou segurança muito grande, só sofrendo pressão maior no início do segundo tempo. E os dois gols de Ronaldo que definiram o pentacampeonato foram o final feliz de uma história que teve um meio bastante atormentado para a resolução a que se chegou.

7) Itália 1×1 França – Itália 5×3 nos pênaltis (Final da Copa do Mundo – 2006)

Na verdade, a decisão da última Copa do Mundo não teve brilhantismo no aspecto técnico. Após os dois gols, marcados ainda no primeiro tempo, o jogo permaneceu morno nos primeiros 90 minutos, e assim foi para a prorrogação. Porém, o caráter “arrastado” da final colaborou para que a tensão fosse aumentando, à medida que passavam os 30 minutos complementares.

E também vinha a alternância de momentos agudos. Notadamente, aqueles envolvendo Zidane: o mesmo jogador que quase marcara um gol decisivo, com uma cabeçada defendida brilhantemente por Buffon, foi capaz de cometer um ato polêmico, com a célebre cabeçada que lhe rendeu a expulsão. Depois daquilo, vieram os pênaltis. Os Bleus não conseguiram livrar-se do peso da ausência de seu camisa 10. Sorte da Azzurra, que teve o espírito mais preservado para alcançar o tetracampeonato mundial.

6) Alemanha 0x2 Itália (Semifinal da Copa do Mundo – 2006)

Pode uma semifinal de Copa do Mundo ser mais emocionante do que a final desta mesma Copa? Pode. A prova foi 2006, quando este Alemanha x Itália foi apontado, de modo quase unânime, como a melhor partida daquele Mundial. Também, pudera: frente a frente, estavam uma Alemanha turbinada pelo “fator casa” e pela empolgante campanha, contra uma Itália que se revelou surpreendentemente ofensiva, durante a partida em Dortmund.

Com tais elementos, as duas equipes fizeram um jogo altamente emocionante, cheio de ataques de parte a parte. E, no entanto, necessitaram da prorrogação para definir o finalista. O que só ampliou o caráter “arrebenta-coração” da partida. Quando parecia que os pênaltis elevariam a tensão a níveis inimagináveis, Fabio Grosso marcou, aos 13 minutos do segundo tempo. E saiu gritando, como que desafogando-se do ambiente quase irrespirável de tanta emoção e suspense. E o gol de Del Piero só foi a cereja no bolo italiano, que entristeceu toda a Alemanha – e jogou a motivação da Azzurra na estratosfera. 

5) Corinthians 2×3 Palmeiras – Palmeiras 5×4 nos pênaltis (Semifinal da Copa Libertadores – 2000)

Muito antes dessa semifinal, a história de rivalidade entre Palmeiras e Corinthians já tinha vários capítulos saborosos – o próprio confronto entre os dois times na Libertadores de 1999 era um deles. Todavia, a semifinal de 2000 virou, talvez, o favorito a ser considerado o principal jogo da relação de clássicos. Pois, se a primeira partida (vitória corintiana por 4 a 3) já fora eletrizante, o desenrolar da partida de volta, em 6 de junho de 2000, foi inesquecível.

Com uma equipe primordialmente esforçada, mas contando com Alex, Euller, Pena e mais um outro jogador em estado de graça, o Palmeiras abriu o placar. Com um time mais técnico, um dos melhores de sua história, o Corinthians virou o jogo. O Alviverde não se acanhou, foi atrás da virada e levou a decisão para os pênaltis. Foi quando apareceu aquele “outro jogador em estado de graça” que os palmeirenses tinham: Marcos. Ele defendeu o pênalti de Marcelinho, último da série regulamentar. E o Palmeiras pôde tripudiar em cima do sofrimento corintiano.

4) Brasil 4×1 Argentina – Final da Copa das Confederações (2005)

“Parece até 1970: olha só, bola de pé em pé até o gol!” Foi a opinião de várias pessoas, após a atuação brasileira em Frankfurt, naquele 28 de junho de 2005. Opinião justa, já que o desempenho do time de Carlos Alberto Parreira foi tão brilhante que motivou a colocação imediata do Brasil como favorito destacado ao Mundial do ano seguinte.

Havia altíssima expectativa sobre o que ocorreria em mais um clássico envolvendo Brasil e Argentina. Esperava-se tudo, como sempre. Mas poucos acreditavam no franco domínio brasileiro, iniciado com os gols de Adriano e Kaká, ainda no primeiro tempo. E sacramentado com o gol de Ronaldinho, após um minuto de troca de passes entre os brasileiros, que motivou o comentário que inicia este texto. Adriano ainda marcaria mais um. E nem o gol de honra, de Pablo Aimar, apagou o fato: foi, talvez, a melhor atuação da Seleção Brasileira na década.

3) Palmeiras 3×4 Vasco – Final da Copa Mercosul (2000)

Após duas partidas, com uma vitória para cada lado, o terceiro jogo da decisão da Copa Mercosul, em 13 de dezembro de 2000, estava até equilibrado. Até Júnior Baiano colocar a mão na bola, cometer pênalti e ser expulso de campo, aos 36 minutos do primeiro tempo. Arce bateu e fez 1 a 0 Palmeiras. No minuto seguinte (precisamente, dali a alguns segundos), Magrão ampliou. E, nos acréscimos, Tuta fez 3 a 0. Estava acabado, foi o que a maioria dos presentes ao Parque Antártica pensou.

Os únicos que não seguiam essa linha de pensamento eram apenas aqueles que defendiam o Vasco, time e torcida. E ambos agiram, cada um a seu modo. A torcida, mantendo uma fé inabalável. E o Vasco, jogando, apenas. Amparado pela frieza de Romário e Juninho Paulista – mais o sangue quente de Juninho Pernambucano. Romário fez dois. Já era algo. Pouco, diante do empate de Juninho Paulista. E ficou menor ainda, com o gol decisivo de Romário, aos 48 minutos do segundo tempo. Só aí estava acabado. Mas a favor do Vasco.

2) Milan 3×3 Liverpool – Liverpool 3×2 nos pênaltis (Final da Liga dos Campeões – 2005)

Um minuto… e Paolo Maldini já havia colocado o Milan na frente, naquele 25 de maio de 2005, em Istambul. Depois, Shevchenko fez mais um gol, anulado. Mas o domínio dos Rossoneri continuava impressionando, deixando o time de Rafa Benítez completamente desarvorado. E os dois gols que Crespo fez, em seis minutos, ampliaram essa sensação de que o título era italiano. Era preciso que ocorresse um milagre, que heróis aparecessem para os Reds.

Apareceram, em seis inesquecíveis minutos, no segundo tempo. O primeiro deles, e mais importante, Steven Gerrard, que marcou o primeiro, aos nove minutos. O segundo, Vladimir Smicer, com o segundo gol, aos 11. Depois, Xabi Alonso, que empatou aos 15. Desde então, o heroísmo ficou com Gerrard, que permaneceu sendo o dínamo que levava o Liverpool à frente, e com Jerzy Dudek, defendendo tudo. No tempo normal, na prorrogação (como esquecer a bola de Shevchenko, na grande área?!), e nos pênaltis, com as pernas de “espaguete”, lembrando Bruce Grobbelaar. O milagre estava feito.

1) Náutico 0x1 Grêmio (Quadrangular final da Série B – 2005)

Em depoimento sobre este jogo, um músico gremista disse: “É daqueles jogos sobre o qual se criarão lendas. Por exemplo: daqui a uns vinte anos, vão dizer que o Galatto pegou o pênalti e desmaiou, ou que uma pedra acertou o supercílio do Anderson no momento do gol.” Exagero? Definitivamente, não. São raras, nos últimos tempos, aquelas partidas que viram “guias espirituais”, símbolos de que nada está perdido. E esta é uma delas. O 26 de novembro de 2005 até faixa virou, na torcida do Grêmio.

E olhe que só era necessário um empate. Apenas um empate. Foi necessário muito, mas muito mais, para que o time de Mano Menezes enfim alcançasse o retorno à Série A. Foi necessário ter frieza, para suportar o pênalti de Domingos em Paulo Matos, ainda no primeiro tempo. Foi necessário segurar a explosão, quando Bruno Carvalho bateu na trave. E seria necessária calma, muita calma. Após a expulsão de Escalona, no segundo tempo. E, principalmente, com o polêmico pênalti de Patrício, que levou às desesperadas expulsões de Nunes, Domingos e do próprio Patrício.

Mas Galatto conseguiu o que parecia impossível, após tanto desgaste. Defendeu o chute de Ademar. Depois, a expulsão de Batata. E o gol de Ânderson. Com sete contra dez. Sete. Ainda hoje, é inacreditável, como diz o filme. Inacreditável que o Grêmio tenha conseguido. E continuará sendo, passe o tempo que passar.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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