Fábio Simplício: “Ainda não tenho lugar na Seleção”

A saída de Fábio Simplício do São Paulo não foi cercada de alarde como a de Kaká, nem confusa como a de Robinho do Santos. O volante de 25 anos rumou para a Itália quase no anonimato, pouco depois da eliminação do São Paulo na Libertadores de 2004. O destino – o Parma – era maldito à época. Tanto que colegas seus, como o volante Fabinho, deram meia volta quando viram a situação econômica aflitiva no estádio Ennio Tardini. Pouca gente botava fé na união entre o jogador quase dispensado pelo São Paulo e um clube que, se não quebrasse financeiramente, seria rebaixado.
Simplício chegou em Parma a tempo de assistir das arquibancadas seu time empatar como Messina. Na partida seguinte (contra a Udinese), já estava no banco. E do terceiro jogo em diante, virou um alicerce do jovem time emiliano. No final da temporada, o jogador conseguira salvar seu time do rebaixamento, fazendo 33 partidas (em 38 possíveis), 4 gols, tomando sete cartões amarelos e nenhum vermelho, e como prêmio, conseguiu uma renovação de contrato até 2007, além das atenções de Inter e Milan. O ‘patinho feio’ do São Paulo de Júlio Baptista, Luís Fabiano e Kaká bateu um papo com a Trivela, falou de como é ser o azarão das apostas e se dar bem no final e disse ainda não ter feito por merecer uma vaga na Seleção.
Confira a entrevista:
Como foi a escolha de jogar no exterior? Foi uma opção profissional ou só por causa da grana?
Sinceramente, eu queria ter ficado no São Paulo, mas não teve acordo com a diretoria. É o clube que me abriu as portas, o ideal era eu ter ficado. Acho que se eles realmente quisessem, não tinham deixado para a última hora. No fim, meu empresário (N. da R: o ex-goleiro Gilmar Rinaldi), tinha uma proposta do Dínamo Moscou e do Parma. Numa boa, vir para cá foi a melhor coisa que eu podia ter feito.
Por quê?
Porque eu vim para um campeonato importante, joguei bastante e acho que fui bem, fui reconhecido. Acho que deu tudo bem certo. Dava para ter feito até mais, mas por ser o campeonato mais duro do mundo, acho que consegui ir bem.
Não deu medo de assinar com um clube que todo mundo falava que estava falindo? O Fabinho chegou até a visitar o clube mas foi embora…
Confiei muito no Gilmar. Antes de assinar, o Adriano (atacante da Inter, também empresariado por Rinaldi) me falou para ficar sossegado. O Antônio Carlos (zagueiro) também disse que era um clube ótimo. Assinei por um ano. Não atrasaram meu salário nenhuma vez.
Quem te indicou para o Parma?
O Arrigo Sacchi (N da R.: Arrigo Sacchi, ex-diretor do Parma e hoje no Real Madrid indicou Simplício para o Milan também) que me trouxe para cá
Você jogou com a camisa 30 por alguma razão especial?
Eu ia jogar com a 16, mas quando eu cheguei, ela estava com o Júnior, que ainda estava aqui. Daí, a primeira livre era a 30.
Você achava que fosse jogar tanto na sua primeira temporada?
Sinceramente, não. Achava que teria um período de adaptação e tudo mais. Me ajudou o fato de o time já precisar de um jogador como eu.
Você fez um gol contra o Cagliari, já nos acréscimos. Esse gol mudou seu ‘status’ no time?
Nossa, foi uma loucura. Primeiro que a torcida enlouqueceu no estádio. Depois, nos dias seguintes, as pessoas me paravam na rua, tiravam foto. Nessa semana, a Inter fez uma sondagem, porque meu contrato era só de um ano. No dia seguinte o Parma renovou meu contrato por mais dois anos.
É verdade que a Inter queria te contratar, mais ou menos nessa época?
É sim. Eles contataram o Gilmar, meu contrato vencia no final da temporada. A coisa não foi para a frente porque o Parma renovou comigo e porque a Inter não tinha vaga para extra-comunitários. Mas eu sei que meu caminho lá está aberto.
Nesses doze meses de Parma, você já teve três técnicos: Silvio Baldini, Gedeone Carmignani e o Mario Beretta. Com qual você se deu melhor?
O Beretta estou estou conhecendo agora, mas estamos indo bem. O Baldini fazia muito treinamento tático, pedia mais marcação. O time era mais duro. O Carmignani me deu mais liberdade para jogar e também pessoal. Com ele, o time jogou mais leve.
Mais leve como?
Logo que eu cheguei, minha função era como no Brasil, de segundo volante, mas aqui o futebol é muito mais corrido. Para a minha posição, era difícil receber a bola e ainda você tinha de correr atrás do meia adversário o tempo todo. O Baldini me colocava mais ajudando a defesa, ele tinha um jogo mais tático. Quando o Carmignani entrou, eu falei com o Morfeo (ex-armador do Parma) e ele me pediu para começar a buscar a bola na defesa e entregar para ele. O técnico gostou. O time acabou mudando o jeito de jogar. Quando eu cheguei, tinha jogador que pensava em perder de pouco quando a gente pegava um Milan ou uma Juventus. Hoje, a gente entra sempre para fazer resultado.
O novo técnico mudou o jeito do time jogar?
Ainda é cedo, mas ele já disse que quer o time jogando no 4-4-2; eu tenho treinado como um dos dois meio-campistas. O melhor entrosamento tem sido com o Bolaño (n. do r.: volante colombiano). Ele tem um futebol parecido com o meu, e a bola está rolando mais solta.
Onde o Parma quer chegar nesta temporada?
O grupo fala em chegar numa vaga de Copa Uefa.
Você sentiu diferença do futebol brasileiro para o italiano?
Muita. Aqui não dá para parar um minuto no campo, tem de correr com ou sem a bola. Você enfrenta grandes jogadores e, além disso, tem de se aplicar dobrado para marcar. Dificilmente a bola sobra para o volante perto da área.
Falando em grandes jogadores, qual foi o pior jogador de marcar?
Nunca tem um fácil, mas o Miccoli (N. da R.: atacante da Juventus, jogou a temporada passada pela Fiorentina) foi terrível. Ele é muito rápido e também é habilidoso. Deu uma baita canseira (N. da R.: O Parma perdeu a partida em Florença com um gol de Miccoli para a Fiorentina).
O Parma perdeu três jogadores importantes para a temporada: o Gilardino, o Frey e o Morfeo. Como você acha que vai ser a briga para não ser rebaixado? Dá para ter mais alívio ou será sufoco de novo?
Não mudará muito, não. São três grandes jogadores, mas em compensação a gente vai poder trabalhar contra o rebaixamento desde o comecinho. Sofrimento vai ter porque todo jogo é uma pedreira. Mas pelo que eu vi nos treinos, o time aprendeu a lição.
Qual o jogador mais importante do elenco, hoje?
Os jogadores de mais nome saíram quase todos. A gente respeita muito o Cardone, que é nosso capitão. É uma liderança importante.
Você jogou um ano com o Gilardino. Ele é tão bom assim?
Centroavante tem de fazer gols e ter um pouco de sorte. Ele faz os dois. Vai cansar de fazer gol pelo Milan.
Você pensa em ser convocado para a Seleção?
Acho que não dá para ser jogador de futebol sem pensar nisso. Todo mundo almeja, mas a gente tem de se conformar. Acho que o Parreira dificilmente vai mudar o time.
E você acha que já merecia uma chance? Você se sente injustiçado ou algo assim?
Não, acho que não. A minha posição tem um monte de jogador bom, e acho que eu ainda não fiz nada que me desse razão para exigir uma vaga. Tudo tem a sua hora. O Zé Roberto, o Emerson, estão num momento melhor que eu. Hoje eu corro por fora. Acho que o Parreira tem sido bastante coerente nas convocações.
Recentemente, o Marcos Senna se naturalizou espanhol para poder jogar pela Espanha. Você faria o mesmo?
Acho que não, mas a gente nunca sabe.
Sobre o São Paulo: você acompanhou a campanha do time na Libertadores?
Lógico! No dia que eu viajei de volta, estava rolando a final, e eu fiquei vendo o jogo no aeroporto.
Kaká, Júlio Baptista, Ricardinho, Beletti, Luís Fabiano, você…Todos esses jogadores são destaques em seus times, e estavam no São Paulo de pouco tempo atrás. Por que razão esse time não ganhou nada?
Era um bom time, sem dúvida. Acho que faltou um pouco mais de dedicação, um algo mais, que esse time que venceu a Libertadores certamente teve. Uma doação, vontade, sei lá.
Faltava um líder?
Não. O Rogério é um excelente capitão, foi fundamental para mim como jogador, chamava a responsabilidade para si. Faltava um pouco mais de coração.
Você jogou com o Ricardinho e ele foi uma das grandes decepções da história recente do São Paulo. Havia alguma restrição a ele?
Para mim, ele sempre foi legal. Jogando com ele eu ganhei a Bola de Prata da Placar, fui muito bem. Não sei porque ele não rendeu mais. Acho que só ele pode responder isso. O grupo não tinha nada contra ele não.
Em 2000, você fez uma capa para a Placar com o Ewerthon (Corinthians) e com o Juninho (Palmeiras). Cinco anos depois, como você avalia sua carreira até aqui?
Acho que tudo o que eu queria, ou quase tudo, aconteceu. Deixei o São Paulo como o jogador com mais jogos pelo clube depois do Rogério Ceni, vim jogar na Europa, num clube e num campeonato importante. Falta a Seleção, mas eu não tenho pressa.


