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“Eu jogaria facilmente na Europa”

Esta chegando ao fim a brilhante carreira do meia Peres de Oliveira em Cingapura. Aos 34 anos, jogará a S-League 2009 para cumprir seu último ano de contrato com o Home United e depois pretende voltar ao Brasil. Neste bate-papo, o maestro dos ‘protectors’ também critica a seleção olímpica de Dunga que passou pelo sudeste asiático este ano e dispara.
“O que eu vejo de jogador meia-boca na Europa é um absurdo. O Jô, por exemplo, vejo ele no Manchester City e vi ele aqui pela seleção olímpica e pensei ‘Meus Deus, o que é aquilo? Como é possível eu não ter jogado na Europa?”


Você tem mais um ano de contrato com o Home United, vai cumprir?

Sim, eles insistiram e vou cumprir, talvez 2009 será meu último ano lá. Nesta temporada 2008 eu me machuquei muito, fiquei um mês fora e joguei três meses no sacrifício. Nosso time era bom, mas muitos se machucaram ao longo do ano.

O Singapore Armed Forces criou uma hegemonia com o tricampeonato. Como um time tão veterano consegue tal feito?
Todos mudaram seus plantéis, mas eles mantiveram a base, tem uns quatro anos que jogam juntos, sem mudanças.

O Tampines Rovers perdeu você, Mirko Grabovac e Alam Shah e não trouxe ninguém a altura. Acha que eles se movimentaram mal no mercado?
Desarrumar para depois tentar arrumar um time é complicado.

E esse time do Super Reds, vice-campeão, que surpresa, não?
Foi o melhor time que vi jogar em Cingapura desde que cheguei lá (2001). Troca passe com rapidez e chega fácil no ataque com inteligência.

Esse ano foi a despedida do Mirko Grabovac, ídolo no país e detentor de muitos recordes e prêmios individuais. Ele voltou pra Croácia depois de 9 anos em Cingapura.
Sim, eu estive com ele quando fomos jogar contra o Sengkang Punggol. Somos amigos e é uma perda muito grande.

O que aconteceu na eliminação para o Dempo, da Índia, nas quartas-de-final da AFC Cup?
Bobeira. Conseguimos empatar fora, mas na volta nosso zagueiro, o camaronês Valery, foi expulso com 20 minutos de jogo e sem ele nossa zaga acaba. O ‘Mani’, que faz dupla com ele, machucou muito esse ano. No finalzinho eles acabaram vencendo por 4 a 3 e nos tiraram.

Já existe uma preocupação maior em Cingapura em trabalhar o biótipo físico dos jogadores?
Agora que eles estão se virando para isso, tem muitas escolinhas e profissionais de fora, mas isso varia muito. Tem jogador que é muito forte fisicamente, mas que não tem condições de atingir altos níveis, outros são mais franzinos, mas se forem bem trabalhados tecnicamente, fazem a diferença.

Como foi a passagem da seleção olímpica do Brasil por lá?
Vi o jogo no Estádio e foi um amistoso mesmo, o Brasil com um time jovem, Ronaldinho gordo andando em campo. Depois de ver aquilo eu sabia que a seleção não iria longe nas Olimpíadas, não tinha condições de buscar o ouro. Para esse jogo o ‘Raddy’ (Radojko Avramovic, técnico de Cingapura) me convidou.

Como assim?
Ele podia convidar quatro estrangeiros da S-League e queria me incluir. Eu estava assistindo o treino no Estádio, ele me viu na arquibancada e veio falar comigo, sentou do meu lado e explicou que me queria para essa partida, mas como eu estava machucado, não deu. Eu falei pra ele “Não posso jogar nem pro meu clube que me paga, como vou jogar pra você?”.

Você sempre se negou a naturalizar e jogar pela seleção e continua com essa posição, não?
Se em 2003 quando ganhei tudo lá eu não queria, agora então nem se fala. Jogar em seleção não me interessa muito.

Você é considerado um dos maiores jogadores da história de Cingapura, sente que poderia ter dado vôos mais altos na Ásia?
Faltou ter jogado em alto nível na Europa.

Seu ex-técnico, o inglês Steve Darby, nos contou que você teria condições pra isso se jogasse num ritmo mais intenso.
Eu vejo muito futebol europeu na TV e te garanto que jogaria. Fala-se muito dessa coisa de porte físico, mas se o Robinho jogasse na Ásia todos falariam que não teria condições de atuar na Europa por ser magrinho. Quando ele não joga o Manchester City não existe. Ele é o cara ali. O que eu vejo de jogador meia-boca na Europa é um absurdo. O Jô, por exemplo, vejo ele no Manchester City e vi ele aqui pela seleção e pensei “Meus Deus, o que é aquilo? Como é possível eu não ter jogado na Europa?”. Mas tudo é oportunidade.

Depois de 8 temporadas e ganhar tudo que disputou, é difícil encontrar motivação?
Confesso que jogar contra times da parte de baixo da tabela é desmotivante…

Ninguém entende como um centroavante troncudo e de escassa técnica como Aleksander Duric ganhou o prêmio de melhor jogador do país nos últimos dois anos. O critério deve ser pela quantidade de gols, não?
Com certeza, eu já te falei no ano passado, ele é um ‘Dada Maravilha da vida’ (risos). Não sabe fazer ‘um-dois’, não consegue dar um passe de mais de 7 metros, uma coisa horrível, o time (SAFFC) joga pra ele. Eu queria te mostrar um vídeo para você ver como são os gols dele.

Ao final do contrato você fica lá ou volta?
Voltar e jogar em São Paulo ou Rio de Janeiro seria uma boa, mas no Espírito Santo, não. Com a estrutura que temos em Cingapura, ter que encarar a realidade dos times daqui é meio complicado. Mas acho que jogar um Campeonato Carioca seria ótimo pra mim.

O Cosme Eduardo, técnico com maior número de títulos capixabas nesta década é seu amigo pessoal e há muitos anos cogitam o nome dele em pequenos clubes de grandes centros do futebol brasileiro. Já tentou levá-lo pra lá?
Já tentei, mas em Cingapura eles preferem um treinador que saiba inglês.

Foi o melhor técnico que você já teve?
Aqui no Brasil, sim. Na minha carreira inteira foi Steve Darby, inglês que agora está na Tailândia. Ele sabia ‘puxar’ o jogador para o lado dele, saía conosco para beber, era um amigo fora de campo, aqui no Brasil não existe esse tipo de relação.

Já tem alguma noção do que vai fazer quando parar?
Eu pretendo voltar, já tenho carteira de técnico, mas nunca se sabe, no mundo do futebol tudo muda de repente. O que me faz ficar lá é a educação dos meus filhos, Cingapura é um ‘Estados Unidos organizado’, tudo perfeito; educação, moradia, saúde, padrão de vida etc.
 

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Equipe Trivela

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