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Este time já conquistou o mundo

O ano de 2010 terminará amargamente para o Feyenoord. É certo que a primeira metade do ano foi até honrosa: o Stadionclub terminou o Campeonato Holandês em quarto lugar. Porém, sem dúvida, a maior lembrança será a tão falada goleada de 10 a 0 sofrida para o PSV, na temporada 2010/11 da Eredivisie. A maior derrota que já atingiu o clube de Roterdã em sua história no torneio nacional.

Sem dúvida, é um dos pontos mais baixos da história do Feyenoord, que já vai por 102 anos. E, talvez, a goleada sofrida em Eindhoven, no dia 24 de outubro, tenha impressionado exatamente porque, apesar dos pesares, o clube continua tendo tradição. Continua sendo um dos integrantes do Trio de Ferro holandês. E, principalmente, porque foi o primeiro clube a despontar na aparição do futebol holandês no cenário mundial, na década de 1970.

Muito se fala do Ajax tricampeão europeu, mas, se a Holanda começou a aparecer, foi porque, em 1970, o Feyenoord tornou-se o primeiro holandês a conquistar um título continental. Mais do que isto: o primeiro holandês a conquistar um título mundial. O time a ter conseguido a maior goleada da história da Liga dos Campeões em todos os tempos. E é desta época dourada que esta matéria falará.

A construção do time

Como em várias equipes que conseguiram sucesso, a construção do Feyenoord que ganharia o mundo levaria tempo. A começar pelo nome: ainda sem frequência em competições europeias, o time ainda se chamava Feijenoord – o “y” seria incluído somente em 1974.

Não se pode dizer, no entanto, que a base já não estivesse lá. A começar pelo experiente goleiro Eddy Pieters Graafland, que defendeu a seleção holandesa por uma década – parando em 1967, quando já tinha 33 anos -, e estava no De Kuip desde 1958.

Também já vestiam a camisa dividida verticalmente em branco e vermelho dois futuros integrantes do time de Rinus Michels na Copa de 1974: o zagueiro e capitão Rinus Israël (reserva no Mundial), também conhecido como “Ijzeren Rinus” (Rinus de ferro), por sua disposição meio exagerada nas jogadas e divididas, e o meio-campista Wim Jansen (titular), surgido nas categorias de base do clube. Já havia o lateral-direito Piet Romeijn. E no ataque, dois importantes atletas: o sueco Ove Kindvall, um bom finalizador, e o já veterano Coen Moulijn, considerado um dos melhores pontas da história da Holanda.

E ainda chegariam mais jogadores, antes da temporada 1968/69. Outro zagueiro vigoroso, Theo Laseroms, que faria uma dupla histórica do Feyenoord com Israël, e o atacante Henk Wery. Porém, o mais importante reforço viria de um clube falido: o Xerxes, nascido em Roterdã (mas, então, na cidade de Delft), havia abandonado o futebol profissional. E o meio-campista Willem van Hanegem chegou ao Feyenoord, junto do goleiro Eddy Treytel.

O primeiro sucesso

E o clube começou a disputar o campeonato holandês, tendo como principais rivais na disputa do título o Ajax (que, ao final daquela temporada, seria finalista da Copa dos Campeões) e o Twente de Jan Jeuring, Theo Pahlplatz e Dick van Dijk, treinado por Kees Rijvers. Entretanto, comandado por Ben Peeters, o Feyenoord teve um ótimo começo de temporada, vencendo seus 13 primeiros jogos – só tropeçou na 14ª rodada, ao empatar sem gols com o Telstar.

Haveria ainda outros tropeços do Stadionclub, que permitiam a Ajax e Twente sonharem com o título. Como os dois empates por 1 a 1 com AZ e ADO, na 20ª e 21ª rodada, e a derrota para o NAC Breda, na 22ª. A maior chance para os adversários, então, veio com a derrota para o Holland Sport, por 1 a 0, na 31ª rodada. Porém, Ajax e Twente também perderam, então. E o Feyenoord terminou vencendo Twente (1 a 0, fora de casa) e NEC (também 1 a 0, no De Kuip). Era o nono título nacional do clube, com direito a artilheiro – Kindvall fez 30 gols, junto de Van Dijk, do Twente. Para melhorar, viria ainda a dupla coroa, com o título da Copa da Holanda: após empate por 1 a 1 com o PSV, 2 a 0 numa partida extra.

Mudanças para a história

E, para a temporada 1969/70, a mudança mais importante viria no banco. Ben Peeters deixou o cargo de técnico vago, e este seria ocupado pelo austríaco Ernst Happel, que já estava havia sete anos no ADO Den Haag, pelo qual vencera a Copa da Holanda, em 1967/68. Entre os jogadores, viriam o lateral-esquerdo Theo van Duivenbode, que surgiu no arquirrival Ajax, e mais um meio-campista, o austríaco Franz Hasil. No gol, Treytel (mais um Feyenoorder a estar na Copa de 1974) tomaria o lugar de Pieters Graafland.

E, na primeira fase da Copa dos Campeões da Europa, o Feyenoord já conseguiu uma façanha histórica: enfrentando o KR, da Islândia, a equipe de Happel aplicou 12 a 2. Simplesmente a maior goleada da história da Copa dos Campeões – e um recorde que resiste até hoje, já na era de Liga dos Campeões.

Na segunda fase, todavia, o desafio era grande: enfrentar o Milan, justamente o campeão da competição na temporada anterior. E, na primeira partida, em 12 de novembro de 1969, no Giuseppe Meazza, Nestor Combin deu a vitória aos Rossoneri. No entanto, o meio-campo do time holandês estava em estado de graça. E seria justamente a principal dupla dos Feyenoorders que definiria a vitória e a classificação no De Kuip, em 26 de novembro: Jansen marcaria, aos seis minutos do primeiro tempo, e Van Hanegem faria o gol do 2 a 0, aos 37 da segunda etapa.

Paralelamente à superação de tamanho desafio, o time que Happel armara não decepcionava na Holanda: continuava disputando o título da Eredivisie com o Ajax. No entanto, um resultado ruim no De Klassieker acabaria desanimando o Feyenoord: em casa, a equipe vencia por 3 a 1, mas permitiu o empate, por duas falhas de Treytel. O Ajax se animaria, então, para vencer o título holandês – e goleiro perderia a posição para veterano Pieters Graafland.

Na Copa dos Campeões, porém, o time de Roterdã prosseguia firme na disputa do título. Nas quartas de final, o adversário seria o Vorwärts Berlin, da Alemanha Oriental. E o mesmo cenário da vitória sobre o Milan se repetiu: derrota por 1 a 0 fora de casa, mas triunfo por 2 a 0 na volta. Classificação garantida nas semifinais, onde o adversário seria o Legia Varsóvia, da Polônia.

E, enfim, a classificação para a decisão: empate sem gols em Varsóvia, e vitória por 2 a 0 em Roterdã. Chegava, enfim, a decisão esperada, no dia 6 de maio. No mesmo San Siro em que a equipe jogara contra o Milan. E com um adversário nada desprezível: o Celtic, que havia sido campeão europeu, havia duas temporadas.

Suado e inesquecível

No jogo, a primeira chance foi do Feyenoord, com Hasil, chutando de longe para a defesa de Evan Williams. Porém, aos 29 minutos do primeiro tempo, os Bhoys abriram o placar: após falta na meia-lua, uma cobrança ensaiada terminou no chute de Tommy Gemmell, no canto esquerdo de Pieters Graafland, que teve a visão tapada.

Mas não duraria mais do que dois minutos a vantagem escocesa. Aos 31, pela direita, o árbitro italiano Concetto Lo Bello apitou falta. Hasil cobrou, e a bola foi disputada de cabeça, até que Israël completou, também testando, sobre Williams. Era o gol de empate.

Sem mais gols, a partida foi para a prorrogação. E nela continuaria empatada, até os 12 minutos da segunda parte do tempo extra. No meio-campo, Lo Bello apitou falta. A bola foi lançada para a área. Billy McNeill, capitão do Celtic, tocou com a mão. Porém, o árbitro deu a lei da vantagem, o artilheiro Kindvall dominou pela esquerda e tocou na saída de Willians. Era o gol do título. Do primeiro título europeu de um clube holandês. E Israël levantou a taça.

Desafio ainda mais difícil

A disputa do Mundial Interclubes, porém, seria ainda mais desafiadora. Afinal de contas, o time de Ernst Happel (com Treytel de volta ao gol, já que Pieters Graafland se aposentou depois do título europeu) teria pela frente o lendário Estudiantes. O time de Osvaldo Zubeldía, tricampeão sul-americano, campeão mundial em 1968, que contava com Oscar Malbernat, Carlos Pachamé, Carlos Bilardo, Juan Ramón Verón… temido tanto pela habilidade quanto pelos ameaçadores expedientes extracampo que usava costumeiramente.

E o primeiro jogo para o Feyenoord seria fora de casa, em La Bombonera, no dia 26 de agosto de 1970. E parecia que o Estudiantes iria fazer mais uma vítima: rapidamente, Juan Miguel Echecopar fez 1 a 0, e Verón ampliou a vantagem dos Pinchas. Todavia, o time holandês teria uma importante reação: ainda no primeiro tempo, Van Hanegem diminuiu. E, no segundo, Kindvall apareceu mais uma vez, empatando o jogo. Um placar ótimo para a volta, em Roterdã.

Porém, no dia 9 de setembro, o time de La Plata fazia jogo duríssimo, impedindo que o clube da Het Legioen marcasse e mantendo o empate sem gols, que forçaria um jogo extra para a decisão do título. Até que, no intervalo, Ernst Happel trocou Coen Moulijn por um defensor, Joop van Daele – que jogava de óculos (curiosidade importante para daqui a pouco). E Van Daele seria o autor do gol que faria a Het Legioen, a fanática torcida do Feyenoord, explodir. O gol que fazia do Feyenoord o primeiro holandês campeão mundial.

Daí, mais uma história se somaria ao incrível anedotário daquele Estudiantes. Irritado e inconformado com a derrota, Malbernat chegou a Van Daele, após o jogo, tirou seus óculos e começou a pisar em cima deles, dizendo: “Você não pode jogar de óculos. Não na América do Sul.” Hoje, o óculos quebrado de Van Daele está no museu do Feyenoord. Como um bálsamo que, diante dos difíceis tempos atuais, é a principal lembrança do tempo mais feliz da história do Feyenoord.

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Equipe Trivela

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