Esperança de reconhecimento

Horas antes da abertura da primeira edição da Libertadores feminina, no último sábado (3 de outubro), Marta disse que sempre sonhou em “jogar em um estádio repleto de torcedores”.
Repleto não é o adjetivo que melhor descreve a situação da Vila Belmiro no jogo, mas os 4.177 ocupantes das arquibancadas do estádio (que tem capacidade para mais de 20 mil) ainda assim transformaram a data em um marco para a categoria.
Nunca uma partida de futebol feminino no Brasil atingiu esse público – que é maior do que alguns jogos da Série B do Brasileirão. A partida da 20ª rodada entre São Caetano e Bragantino no Anacleto Campanella, em 25 de agosto, teve 856 pagantes.
“[A realização da Libertadores feminina] é um incentivo para o futebol feminino”, afirmou o santista Jorge de Oliveira Silva, 54 anos.
Quem está na categoria comemorou. “Esperamos que o torneio continue e que possamos ter cada vez mais meninas no esporte”, disse Vanessa Silva, 29 anos, jogadora do Nacional, que fez amistoso dias antes contra as Sereias da Vila. O Nacional foi goleado por 6 a 0, mas ela fez questão de prestigiar as colegas no sábado. “Poder jogar com a Marta foi uma honra”, afirmou Vanessa Carneiro, 21, outra jogadora do Naça.
Quem esteve lá viu um jogo irregular, com momentos cansativos, principalmente no segundo tempo. O White Star mostrou-se apático, com quase nenhuma finalização, e deu pouco trabalho para a defesa santista. O único gol foi uma falha da goleira alvinegra Andreia – uma bola quase gratuita para que Nicole marcasse um de honra.
Mas alguns momentos de brilho recompensaram os torcedores, como o escanteio de Marta que deu chance para Cristiane marcar seu segundo gol, de cabeça. E o momento pelo qual a maioria ali esperava: o gol da própria Marta, no fim do primeiro tempo.
“As mulheres jogam com mais paixão, enchem os olhos da gente”, comentou Neusa Oliveira, 75 anos. Antes de qualquer comentário, é bom registrar que dona Neusa não é palpiteira – ela acompanha o Santos desde 1952 pelo Brasil afora. Viu Pelé estrear e se despedir do Peixe e não se intimida na hora de criticar o atual elenco masculino. “A Marta e a Cristiane são melhores do que essa porcaria de Kléber Pereira”, dispara.
Nem só santistas ocupavam a arquibancada. Ana Paula Frucci, palmeirense roxa, tentava esconder os adesivos do Verdão que enfeitam seu celular. Fez um bate-e-volta de São Paulo a Santos só para assistir ao jogo. “Não vim torcer para o Santos, vim torcer para o futebol feminino”, declarou.
O placar final marcou 3 a 1 para as Sereias – a diferença não foi maior por causa das ótimas defesas da peruana Fiorella. Os entusiastas do futebol feminino esperam que o resultado seja mais representativo: o crescimento da categoria que hoje pena por público e patrocínio.
“Nada mais justo para a gente, que trabalha tanto”, diz Vanessa Carneiro, que deixou a Vila com um sorriso de quem vê a possibilidade de que, finalmente, o futebol feminino seja reconhecido.
Reportagem: Jordana Viotto


