Especial Tiger Cup (Parte I)

Com a chegada da AFF Suzuki Cup, a popular ‘Tiger Cup’, a Trivela preparou uma série de entrevistas com profissionais envolvidos no principal torneio de seleções do sudeste asiático, organizado pela AFF, entidade regional (ASEAN Football Federation). Para começar, o técnico B. Sathianathan, da Malásia. Ele nos conta sobre a situação que sua seleção chega ao torneio, além de esclarecer os problemas do futebol em seu país.
“Não temos muitos jogadores e nem pessoas interessadas em nos assistir. A maioria prefere as ligas européias e esse torcedor não acrescenta nada ao futebol malaio. Os jornalistas acham que somos o Brasil e temos que ganhar tudo” desabafa ‘Sathia’.
Quais são seus principais planos para a seleção da Malásia?
Nosso objetivo é a Tiger Cup, que também servirá como preparação para as Eliminatórias para Copa da Ásia 2011. Eu não sei se estarei no comando, pois meu contrato acaba em dezembro, após a Tiger Cup.
A Malásia chegou a ser número 75 no ranking da FIFA em 1993, hoje é a número 151. O que aconteceu de errado nos últimos 15 anos para o futebol malaio cair tanto?
As escolas não tem uma parte ativa no desenvolvimento de esportes. Nós temos poucas academias de futebol por aqui, são aproximadamente 12 academias para uma população de 25 milhões de habitantes. Nas escolas malaias o único interesse são os estudos e não desenvolver esportes. Temos uma média que mostra que um garoto malaio disputa somente quatro competições anuais. Uma minoria que faz parte das academias de futebol competem um pouco mais. Este é um dos motivos do declínio esportivo aqui.
Sabemos que na Malásia a pressão é muito grande em cima do treinador. Como tem sentido isso?
Sim, a pressão existe e todos os jornalistas aqui pensam que a Malásia deveria ser como o Brasil, vencendo tudo. Eles sempre falam da nossa história, mas eles não entendem que os tempos mudaram. Por exemplo, nós não temos muitos futebolistas, mas temos muitas pessoas interessadas em assistir e torcer para clubes europeus. Este tipo de torcedor é ativo, mas não liga pro futebol local. Como já disse, hoje em dia as crianças daqui não jogam futebol o suficiente. Nós paramos de progredir enquanto o resto da Ásia tem progredido.
Sobre a medida de banir os estrangeiros do país. É interessante que Cingapura cresceu após naturalizar estrangeiros, Vietnã e Tailândia melhoraram suas ligas com estrangeiros etc..Porque na Malásia é diferente?
Se os clubes contratassem bons profissionais, eu apoiaria a importação, mas infelizmente muitos clubes não tem dinheiro, então eles contratam estrangeiros de qualidade duvidosa que não são melhores que os malaios. Eu sinto que nós deveríamos usar os jogadores locais, todos os times usavam atacantes estrangeiros e isso me deixava sem opção para convocar jogadores bons o suficiente para atuar em níveis internacionais.
Mas a seleção cingapuriana melhorou consideravelmente nos últimos tempos.
Eu discordo. Eles tem sido campeões de competições regionais porque eles usam muitos estrangeiros e não jogadores locais, como nós fazemos. Se tivéssemos que escolher, teríamos dois grandes atacantes naturalizados e para um técnico como eu, certamente seríamos campeões. Mas não, nós temos orgulho disso, de colocar nossos próprios cidadãos em campo.
Estrangeiros atuando no Japão e na Coréia do Sul melhoram os jogadores locais e a liga, mas não no nosso caso, muito raro.
O Vice-Presidente da Federação Malaia, Khairul Jamaluddin, foi o autor da medida que proibiu estrangeiros na Malásia a partir de 2009. Ele também é membro de um partido que expõe a supremacia malaia no país, está bem claro que ele tem interesse político nessa medida, não?
É um dirigente soberbo, sem problemas e faz bem seu trabalho. Na Malásia nós precisamos de políticos que se mexem, senão nada acontece.
Na sua estréia a Malásia perdeu para o Bahrein pelas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010. Você herdou um elenco totalmente sem motivação, não?
Foi duro, eu usei oito jogadores sub-23 e somente quatro seniores, meu objetivo era preparar o time para o SEA Games, eu não estava preocupado em perder o jogo porque eu sabia que não tínhamos chances de classificação.
Os jogadores do sudeste da Ásia são muito frágeis fisicamente, existe uma preocupação em mudar a dieta, inserir mais carboidrato, e fazer um trabalho de fortalecimento muscular?
O Japão não mudou a dieta e mesmo assim eles competem com os melhores. Eu penso que não é a comida, mas a cultura. Aqui não se dá tanta importância para o futebol, os pais sonham que seus filhos se tornem advogados, engenheiros e doutores e não Pelés, Maradonas e Ronaldos como aí no Brasil e na Argentina. Aqui você não vê crianças jogando bola nas ruas, você os vê jogando futebol na internet. Essa é a diferença.


