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Eslováquia passada a limpo

“Garrinchu´ zlákala Európa” (Garrincha chega a Europa), este foi o título que o jornal eslovaco PRAVDA estampou quando o atacante brasileiro Daniel Machado (foto ao lado) chegou ao país, em 2002, acompanhado do ex-craque santista Edu, para assinar com o Inter Bratislava, um dos clubes mais expressivos da Eslováquia. Neste bate-papo, o ex-atacante do São Paulo e da Portuguesa, relata como foi sua experiência em solo eslavo, os bastidores e muito mais. Lembrando que Daniel foi contemporâneo de Marek Mintal, que hoje atua no Nuremberg, da Alemanha. O artilheiro da Bundesliga 2004/5, atuava no MSK Zilina, quando o brasileiro estava por lá. Confira!

Foi o Edu, ex-jogador do Santos nos anos 60 e 70, que intermediou sua ida para o Inter Bratislava, em 2002. Como essa oportunidade apareceu para você?
Através de um currículo em DVD onde tinha meus lances de gols e dribles das equipes onde havia atuado no Brasil. Então o Edu mostrou meu video para um amigo eslovaco que gostou e levou para o inter.

Você era o único brasileiro no Inter? Quais foram as maiores dificuldades para se adaptar?
Sim, eu era o único brasileiro na Eslováquia, e minha maior dificuldade com certeza foi o frio. Saí de São Paulo em janeiro com temperaturas acima de 35 graus e cheguei a Eslováquia com temperaturas de 10 graus negativos. Quanto ao idioma demorei uns três meses para entender pelo menos o básico que necessitava, não achei muito difícil, até porque tive auxilio de um senhor eslovaco que falava espanhol, isso me ajudou muito.

Por que te chamavam de Garrincha?
Porque em meu video aparecia muitos lances de dribles curtos e sempre em direção ao gol, com objetividade, e minha principal característica era essa.

Depois de conquistar o título eslovaco em 2001, o Inter Bratislava entrou em decadência, indo parar na 2ª divisão do país. Na sua época, já havia problemas administrativos?
Ainda bem que não. Cheguei com uma Inter Bratislava organizada e bem estruturada.

O MSK Zilina tem sido a grande equipe do futebol eslovaco nos últimos anos. Pelo que você ouviu e percebeu enquanto esteve lá, o que torna o Zilina uma equipe tão forte na Eslováquia?
Acredito que a força da torcida do Zilina. Acompanhei alguns jogos deles
e a torcida não para um minuto, incentiva sua equipe, inflama seus jogadores, e também não posso deixar de mencionar a competência da diretoria muito bem organizada.

Como são os clássicos contra o Artmedia e o Slovan Bratislava? Conte-nos sobre o ambiente, a rivalidade e o comportamento dos torcedores nos clássicos?
Os clássicos entre essas equipes é normal como qualquer clássico que acontece no futebol, seja que divisão for. Mas o que vi na Eslováquia e nos clássicos que disputei por lá, é o respeito que os atletas tem um para com o outro, e o mesmo com as torcidas. Sabíamos que tínhamos que entrar em campo e vencer, sabíamos o peso e a responsabilidade de um clássico, mas sempre havia o respeito pelo atleta adversário e jogadas leais .

Na sua época (2002/3) haviam dois jogadores que iriam fazer muito sucesso no futebol alemão. O Marek Mintál, que estava no Zilina, e o Roberto Vittek, do Slovan Bratislava. Os dois hoje estão no Nuremberg, da Alemanha. Eles jogavam muito mesmo?
Jogavam sim e tem muito respeito e admiração por parte dos torcedores lá.

Como é a relação com os jogadores eslovacos? Eles são brincalhões e baladeiros como a maioria dos futebolistas brasileiros ou são diferentes?
Isso depende da personalidade de cada atleta. Conheci atletas que adoravam a noite, e também os que eram reservados e que após os treinos ou folgas ficavam com a família, isso é muito pessoal.

Conte-nos sobre a preparação das equipes durante os treinos. Quantos coletivos por semana? A parte tática é muito trabalhada?
Bem, a preparação é bem diferente daqui porque a parte tática é muito trabalhada. Eles insistem muito e exigem obediência tática. Lembro de ter feito somente uns cinco coletivos utilizando todo o espaço do campo. A maioria dos coletivos eram meio campo e com apenas um ou dois toques na bola. No verão, onde demora anoitecer, treinávamos três vezes por dia. O 1º ás 8 e meia da manhã, o 2º às 14 horas e o 3º ás 20 horas, todos com duração em média de duas horas. Outra coisa, lá tive apenas dois treinadores, Joseph Bubenko e Wladmir Goffa. Lá não se troca tanto de técnico como aqui.

Você ainda mantém contato com jogadores e técnicos que trabalharam com você por lá?
Sim, mantenho com um senhor chamado Hereny Bella, que foi como um pai pra mim naquele país me auxiliando e ensinando-me a língua eslovaca,
e com algumas pessoas ligadas ao clube.

Pelo que você viu, quais as virtudes e defeitos do jogador eslovaco?
Virtudes… valorizam a parte tática fielmente.
Defeitos… esquecem o individual, limitando os atletas a demonstrarem suas qualidades individuais em prol da tática e do coletivo.

Os jogadores reclamam bastante dos dirigentes dos clubes ou é uma relação tranqüila entre atletas e dirigentes?
Não posso reclamar do tratamento que tive nesses clubes. Foram muito corretos e leais em tudo que disseram, honrando sempre seus compromissos para com os atletas.

O trabalho de base é bem feito na Eslováquia? A molecada tem mto interesse em futebol ou é difícil ver jovens interessados em jogar?
Apesar do interesse da molecada, vi que na Eslovaquia é preciso um maior investimento na base, porque acredito que se possa ter uma base amadora, mas com visão profissional, o que não existe por lá.

Você se recorda de algum fato curioso, engraçado ou que chamou sua atenção no futebol eslovaco?
Sim, num jogo em que meu time, o Rimavska Sobota, estava jogando fora de casa e brigando pela liderança da competição, recebi uma bola na linha de fundo, entrei na área em direção ao gol, e sofri pênalti. Ao cair, comemorei com meu companheiro que foi me levantar. O treinador e a torcida adversária se irritaram e começaram a me insultar. Tive que ser substituido naquele jogo porque eles ficaram inconformados. Não entendi nada (risos).

Por que voltou ao Brasil?
Porque tive um problema com o empresário que me encaminhou pra lá. Aconteceram coisas que prefiro não comentar.

Como funciona esse trabalho que você faz de agenciar jogadores?
Através do futebol, fiz contatos com empresários, amigos, dirigentes de clubes, e hoje faço encaminhamento de atletas para estes clubes e esses empresários, dando a este atleta, que hoje se encontra desempregado ao até mesmo atuando, a oportunidade de ir para uma equipe melhor.

FICHA
Nome: Daniel Machado
Data de Nascimento: São Paulo/SP
Local de Nascimento: 23/09/1976
Clubes: São Paulo, Olímpia-SP, Portuguesa-SP, Guarujá-SP, Atlético Limense-SP, Inter Bratislava-SK, Rimavska Sobota-SK.

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