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Entre gregos e lituanos

Com apenas 23 anos, Armando Tarlazis, ou simplesmente Mandinho, é mais um daqueles casos de jogador brasileiro que sai cedo do país, totalmente desconhecido, e atinge algum sucesso em ligas secundárias da Europa. Levado por empresários do interior paulista para o Velho Continente, Mandinho nesta temporada foi contratado pelo Siauliai, da Lituânia, após passagens por clubes dinamarqueses.

Nesta entrevista concedida à Trivela por email, o meia fala sobre suas experiências tanto no Brasil como na Europa, os problemas enfrentados na carreira (muito mais aqui do que lá) e sobre a possibilidade de defender a seleção da Grécia – Mandinho tem cidadania grega. Fala também, de maneira bem clara e objetiva, como a interferência de empresários influencia na escalação de algumas equipes.

Fale um pouco sobre sua carreira. Onde você começou e quando?
Comecei jogando na escolinha do Rivellino, em São Paulo. Fui convidado para jogar futsal no AD Guarulhos quando eu tinha sete anos. Joguei futebol de salão também pelo Paineiras por uns cinco, seis anos. Nesse meio tempo acabei indo para o Juventus. Não segui em nenhum dos dois por causa dos meus estudos. Quando completei 18 anos e acabei o colégio, acertei com o profissional do Palmeiras-B. Nesse tempo eu já tinha contato com o Brondby IF, da Dinamarca. A minha idéia sempre foi ir pra lá. Até que no final de 2005, depois de uma passagem muito difícil pelo Paraguaçuense, decidi que era hora de vir para a Europa. Acertei com o Brondby, mas tive uma contusão na panturrilha. Aí eles me emprestaram pra um clube menor, para que eu pudesse me recuperar.

Como foi o período que você passou na Dinamarca?
O meu período na Dinamarca foi muito importante, porque eles fizeram um trabalho muito forte comigo de adaptação física, principalmente muscular. No Paraguaçuense, antes de ir para a Dinamarca, cheguei a pesar 67 kg. Saí da Dinamarca com quase 80 kg. Foi muito importante para mim tudo o que eu vivi lá, mas o país é muito complicado com estrangeiros. Existem leis que acabam tornando muito difícil a vida lá.

Como foi parar na Lituânia?
Eu estava jogando na Dinamarca. Esse clube, Siauliai, ligou para o meu empresário (Vasilis Margaritis, de um grupo britânico chamado Stellar Group, que “possui” vários atletas de diversas modalidades agenciados) pedindo um jogador com as minhas características. Meu empresário conversou comigo e era interessante para mim, para o clube e para ele que eu jogasse como titular numa primeira divisão nacional. Vim e em uma semana acertamos.

Desde quando você possui empresário?
Eu tenho contato com empresários desde que eu comecei a treinar no Palmeiras e no Juventus. Futebol no Brasil é assim, infelizmente. Com certeza eu já coloquei muito jogador melhor do que eu no banco, assim como fiquei no banco para muito jogador pior do que eu. Tudo por causa de empresário. Futebol é um negócio.

E a adaptação ao país e uma cultura totalmente diferente, como está sendo?
Tem sido muito tranquilo. Depois do que eu passei no Brasil, tudo fica muito mais fácil. Na Dinamarca a adaptação foi muito tranquila também, mesmo com o frio. Aqui só tenho mais dificuldade com a língua, porque não é como na Dinamarca (79% da população fala inglês, de acordo com a União Européia), que todos falam inglês. A comida aqui que é muito parecida com a brasileira também.

Siauliai tem cerca de 130 mil habitantes e quase 800 anos de história. Como é a cidade e a vida aí?
Eu moro na avenida principal da cidade, a dez minutos a pé do estádio. Eu passo o tempo todo lá. É bem tranquilo, parece um pouco com Piracicaba, mas o pessoal diz que é bem perigoso longe do centro. O clube tem me ajudado muito em tudo. Me sinto em casa. Não conheci a história da cidade. Conheci a historia do clube, assim como alguns monumentos, como o “Golden Boy”, que é o símbolo do time também.

No seu time, o Siauliai, não há outros brasileiros, mas em algumas outras equipes sim. Você mantém um relacionamento com eles?
Eu conversei com o Pedro (zagueiro), quando jogamos contra o Vetra. Temos um amigo em comum, então eu já sabia dele antes. Também joguei no Brasil com o Rodney, zagueiro do Vilniaus. Somos bons amigos, mas soube que ele se transferiu pra Romênia, então não vou encontrá-lo mais aqui.

Em termos de futebol, como é o campeonato lituano?
O campeonato lituano é muito corrido. Seria algo entre o Brasileiro e o Dinamarquês, para ser mais preciso. Nem tão técnico como o Brasileiro, mas nem tão físico como o Dinamarquês. É bom de ser jogado. Tenho tido bastante facilidade para me adaptar, para ser sincero.

O Kaunas é o atual campeão nacional e time mais tradicional do país. Como foi enfrentá-los?
Meu time não enfrentou eles depois que eu cheguei, mas pelo que eu tenho visto não há nenhum time que não possa ser batido. Mesmo o Vetra, que estava numa fase adiantada da Copa Intertoto, nós conseguimos bater. Meu time é muito novo, então complicamos alguns jogos fáceis. Mas ao mesmo tempo é muito talentoso. Os jogadores são quase todos das seleções nacionais sub-21 e sub-19 da Lituânia. Temos dois jogadores mais experientes, que já foram campeões nacionais.

Qual a expectativa da sua equipe na temporada, agora que já estamos um pouco além da metade do campeonato?
Esse ano a ideia é fazer um bom campeonato e formar um grupo forte para o ano que vem. Também temos como objetivo ganhar a Copa nacional, mas isso é mais para o ano que vem mesmo. O time precisa de mais maturidade.

Como você tem jogado aí na Lituânia em termos táticos?
Tenho jogado como meia esquerda no Siauliai. Na Dinamarca cheguei a jogar como atacante e ponta, mas aqui tenho muita liberdade tática. Eles gostam do meu futebol, meio que sou a referência ofensiva do time. Mas eles me cobram muito na parte defensiva também.

Existe algum tipo de rejeição ao jogador estrangeiro na Lituânia?
Não, acho que não. Até porque tem muitos brasileiros aqui. A todo momento me perguntam como é o futebol de outros países, me tratam muito bem, me ajudam em tudo o que eu preciso. A torcida tem me apoiado desde que eu cheguei.

Como você analisa sua ida para o Siauliai: um sonho por atuar no futebol europeu, ou apenas um passo para conseguir uma boa transferência para outro país na Europa?
Jogar futebol profissional, ainda na Europa, é mesmo um sonho que eu tenho vivido, mas ao mesmo tempo tenho algumas metas. Existe a chance de jogar pela seleção grega, já que tenha dupla nacionalidade. Tudo depende dos meus próximos três, quatro anos. A idéia, tanto minha, como do meu empresario e do clube, é de me negociar com um clube maior de algum outro país.

Até quando vai o seu contrato? Pretende cumpri-lo até o final?
Eu tenho um ano e meio de contrato, com mais um ano se entrarmos em um acordo. A idéia é uma transferência. Gosto da vida aqui, mas quero sempre algo melhor. Acho que nunca vou estar satisfeito, mas ao mesmo tempo vou sempre estar feliz com tudo o que tem acontecido, principalmente depois do que passei no Brasil.

Quais são suas chances de defender a seleção grega?
Honestamente, eu não sei de nada. Eu e meu empresário temos esse objetivo, mas é uma coisa mais para o futuro. Nem conversamos muito sobre isso.

Entre uma proposta de um time médio brasileiro e um time médio lituano, por exemplo, por qual você optaria?
Tudo depende, mas não vejo com bons olhos voltar a jogar no Brasil. Aceitaria daqui, principalmente porque o contrato assinado aqui na Europa vale. No Brasil não é bem assim.

Quais foram as maiores dificuldades que você encontrou para seguir sua carreira no Brasil?
No Brasil tenho histórias para mais de uma vida. Sou de família de classe média, mas tive que me aventurar às minhas custas, principalmente porque meu pai não queria que eu jogasse. Passei muita dificuldade, tanto na mão de empresário, quanto na mão de diretores e treinadores. O futebol é um dos meios mais sujos que existem. Tem de tudo: prostituição, drogas, violência, pobreza…. Em Paraguaçú, a gente quase não comia, perdi 15 kg em dois meses. O que menos tem é futebol. Hoje, aqui na Europa, eu sei que valeu a pena ter passado por tudo isso. Mas sei também que ainda há muita gente passando hoje pelo que passei, e sei que a maioria deles vai se perder pelo caminho.

Nome: Armando Tarlazis Vieira dos Santos (Mandinho)

FICHA

Local e data de nascimento: São Paulo (28/01/1984)
Posição: meia
Clubes: Palmeiras-B (2002), XV de Piracicaba (2003), Juventus-SP (2003), Taboão da Serra (2004), Paraguaçuense (2005), Brondby-DIN (2005/2006), Greve Fodbold-DIN (2006/2007) e Siauliai-LIT (2007)

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Equipe Trivela

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