Entre a festa e a reflexão

Por Felipe dos Santos Souza e Felipe Lobo
“Fugir da degola”, “inferno”, “drama”. Não são animadoras as descrições que vemos sobre rebaixamento. E estamos falando da queda da Série A para a Série B. O que será, então, de um time que disputa a disputa a Série C? Ou mais: a Série D?
A vida nas divisões menores do futebol brasileiro não é nem um pouco fácil. No último final de semana, várias torcidas comemoraram o acesso, e neste pelo menos mais duas o celebrarão. Os times deixaram para trás meses de muito sofrimento, perambulando por gramados terríveis, sempre desamparados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Mas se Salgueiro (CE) e Ituiutaba (MG) disputarão a segunda divisão nacional em 2011 (com Macaé e Criciúma e Águia e ABC brigando pelas outras duas vagas), tantos outros permaneceram nos subterrâneos do nosso futebol. Como, por exemplo, São Raimundo (PA), Alecrim (RN), Gama e Juventude que trocaram de lugar com os alegres (ao menos neste final de semana) América (AM), Guarany (CE), Madureira (RJ) e Araguaína (TO).
Para entender como foi…
Em 2008, a CBF mudou as regras para a Série C do ano seguinte. Diminuiu o número de clubes para 20, já que a ideia era levar a mesma fórmula de disputa das duas principais divisões para a terceira. Além disso, foi criada a Série D, que teria formato parecido com a Série C dos anos anteriores – regionalizada e com várias fases. Com essa modificação, apenas os 20 primeiros ficaram na Série C, enquanto os demais teriam que se classificar via estaduais para a Série D.
Com os times da terceira divisão sem dinheiro para bancar os custos de viagens e hospedagens, a ideia do regulamento de pontos corridos em dois turnos foi abolida. As duas últimas divisões do Campeonato Brasileiro, então, tornaram-se praticamente uma Copa, com muitas fases eliminatórias.
O clima de “roleta russa” foi flagrante, pelos regulamentos dos dois torneios, e a falta de apoio oficial. “Ajuda da CBF, só na fase final. Eles pagam passagem, hospedagem e translado”, diz Homero Santarelli, gerente de futebol do Criciúma, ainda está na briga pelo retorno à segunda divisão.
Para Santarelli, o formato de disputa da Série C é um entrave para a venda de diretos televisivos. “Se a CBF fizesse um campeonato da terceira divisão atraente, poderia sim ter transmissão de TV. Mas temos que entender o lado das emissoras também. Do jeito que é a Série C hoje, a TV não tem interesse”. As duas séries sofrem por não ter transmissão de televisão, uma das maiores receitas dos clubes brasileiros. Só o Flamengo faturou R$ 44,2 milhões em 2009, clube que mais arrecada nesse quesito no Brasil. Mesmo clubes de segunda divisão conseguem ter alguma receita de TV, como a Portuguesa (R$ 9,2 milhões), Ponte Preta (R$ 2,07 milhões), São Caetano (R$ 2,04 milhões), Paraná (R$ 1,4 milhão) e Figueirense (R$ 869 mil).
As equipes que caem da Série B acabam perdendo os direitos de televisão. A Série C só tem transmissão televisiva na fase final, pela TV Brasil, depois de uma negociação de última hora com a CBF. Nenhuma outra fase foi transmitida, já que os direitos não são comercializados pela entidade. Já a pobre Série D não tem transmissão de nenhuma emissora.
Se a Série C é pouco atraente para a TV, a Série D é menos ainda. Para Raimundo Demore, assessor da presidência do Juventude, nem mesmo regionalmente deve haver interesse nessa comercialização. “Não vejo com grande facilidade [vendas de direitos de TV regionalmente para a Série D], mas nós vamos tentar”, afirmou Demore, que enfrentará o martírio da quarta divisão em 2011.
Os dois dirigentes concordam que a mudança do regulamento seria benéfica para o campeonato. “A Série C teria que ser nos mesmos moldes da Série A e B. Quem não conseguir [se manter nesse sistema], que não se estabeleça. Deveriam ser pelo menos dois grupos de 10, regional norte e sul, com dois times classificando”, diz Santarelli. “O regulamento da Série C deveria ser como a Série B e ter disputa por ao menos seis meses. Ao menos poderia ser dois grupos de 10”, completa Demore.
Tanto Criciúma quanto Juventude já passaram por períodos de glória nacional e de prestígio na Série A. O time catarinense foi campeão da Copa do Brasil em 1991, sob o comando de Luís Felipe Scolari, enquanto o Juventude foi campeão do mesmo torneio em 1999.
O Tigre não disputa a primeira divisão desde 2004, quando foi rebaixado pela última vez. Caiu para a Série C em 2008, não conseguiu voltar em 2009 e busca o acesso em 2010. Depois de cair para a Série C, o Criciúma teve dificuldades em 2009. Fez má campanha no Campeonato Catarinense e não conseguiu fazer boa campanha na Série C, correndo o risco de rebaixamento para a Série D. No início de 2010, a crise aumentou e o time ficou próximo do rebaixamento também no estadual.
O time ainda tinha que lidar com um outro problema dos times que caem para a Série C e D: o calendário. Por causa da Copa do Mundo, a competição, que normalmente começa em junho, foi adiada para o meio de julho, depois do Mundial. O primeiro jogo foi apenas no dia 17 de julho.
“A Copa Santa Catarina foi importante para criar uma base para montar o time”, explica Santarelli. Como muitos dos times dos estados ficam parados a maior parte do ano, por não participarem de competições nacionais, as federações fazem copas sem a participação de times das Séries A e B. É uma forma de manter os times em atividade e ainda premiar o vencedor com uma vaga na Copa do Brasil.
Na Série C, o equilíbrio e a fórmula de disputa fizeram o Criciúma entrar na disputa com objetivos que parecem antagônicos. “Nosso objetivo na Série C era: primeiro, não cair; segundo, classificar; terceiro, classificar em primeiro; e, claro, subir para a Série B”, declarou o gerente de futebol do Criciúma.
Deu certo. O time fez boa campanha e conseguiu se classificar para a fase final da competição. “O objetivo [de subir para a Série B] está bem próximo”.
“Mais difícil do que a Série B”
O Juventude esteve na Serie A por 13 temporadas consecutivas, até ser rebaixado em 2007 para a Série B. Caiu para a terceira divisão duas temporadas depois, em 2009, e em 2010 foi rebaixado para a Série D. No espaço de quatro anos, o time deixou a primeira divisão para integrar a última do país.
“Cair da Série B para a C é um grande impacto. A Série C e D estão abandonadas, muito fora”, conta Demore, que diz que a CBF não paga nenhum auxílio às equipes, que normalmente fazem viagens longas à medida que o torneio avança. “As divisões [Série C e D] estão desamparadas, mesmo a Série B, que disputamos, está desamparada. Teríamos que repensar isso”, conta Demore. “Em 2010, nossa folha salarial é de R$ 10 milhões, e não temos receita nenhuma jogando a Série C”.
“Disputar a Série C é mais difícil do que a Série B, porque qualquer deslize já resulta em problemas, rebaixamento. Ninguém gostaria de estar na situação que estamos”, completa o dirigente gaúcho.
O Juventude ficou no Grupo D da Série C em 2010. Com cinco times, os jogos eram de ida e volta dentro do grupo – um total de oito partidas. O time conseguiu apenas uma vitória, empatou cinco vezes e perdeu duas. Ficou com oito pontos. O líder – e classificado à fase final – foi o Criciúma, que ficou com 12 pontos.
“Ficamos em uma chave difícil, a quatro pontos do líder”. O sorteio dos grupos segue critérios regionais, para evitar que os times fazem viagens muito longas. No grupo do Juventude, dois times eram catarinenses (Criciúma e Chapecoense) e três do Rio Grande do Sul (Caxias, Brasil e o próprio Juventude). O Marília, do Grupo C, ficou com seis pontos – menos do que o Juventude -, mas conseguiu escapar o rebaixamento, já que o lanterna foi o Gama (DF), que somou apenas cinco.
Para Demore, a Série D é desnecessária, já que a Série C continua com fórmula parecida. “A Série C e a B não são muito diferentes [em nível técnico]. A Série C e D deveriam se fundir, com o apoio da CBF e dos governos, com apelo. É preciso fazer um mutirão”, pede.
Com o rebaixamento para a Série D e uma perspectiva de orçamento ainda menor, o time terá que diminuir os gastos. E um dos pontos afetados será as categorias de base do clube. “Poderemos ter problemas em manter os jogadores, mas estamos preocupados com a sustentabilidade. Teremos que diminuir recursos das categorias de base e apostar naquelas que acreditamos que darão resultados”.
Demore sabe que a dificuldade de trazer jogadores será grande. Por isso, a prioridade será a manutenção do elenco. “Trazer jogadores é mais difícil. Tentaremos manter os jogadores, com algumas exceções”. Segundo ele, os jogadores terão férias antecipadas para começar a se preparar para o campeonato estadual mais cedo, ainda em novembro. “Vamos tentar fazer um bom Campeonato Gaúcho”.
Sobre a Série D, o Juventude espera conseguir alguma mudança no que considera ser um sistema de disputa prejudicial aos clubes. “Tentaremos mudar, politicamente, a Série D. O Juventude, de forma pacífica e ordeira, vai tomar uma atitude, para podermos ter uma perspectiva de futuro”.
Enquanto isso, nenhuma perspectiva de melhora para a terceira e a quarta divisões nacionais surge no horizonte. Enquanto a milionária CBF exibe com orgulho seus patrocinadores em Abu Dhabi, no amistoso da Seleção, os clubes menores brasileiros definham.
A reportagem da Trivela entrou em contato com a CBF, mas não conseguiu resposta.


