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Élber: “Nem daqui a 100 anos terá explicação!”

Uma das finais mais dramáticas da história da Liga dos Campeões da Europa está completando 10 anos neste 26 de maio. Na temporada 1998/9 o Manchester United virava pra cima do Bayern de Munique, 2 a 1, com os dois gols marcados nos acréscimos da partida, deixando atônitos os torcedores que lotaram o estádio Camp Nou (90.045 pessoas), em Barcelona, na Espanha.
Para relembrar o fato marcante batemos um papo com Élber, o único brasileiro presente nas duas equipes, apesar de não ter jogado aquela final. O ex-atacante – eleito para a seleção de todos os tempos do clube alemão – afirma que “nem daqui a 100 anos terá uma explicação para o que aconteceu naquele jogo”.
Como estamos na véspera de mais uma decisão do maior torneio interclubes da Europa, vale a pena dar uma relembrada e saber outros detalhes da grande carreira do centroavante de Londrina. 

Aquela derrota histórica do Bayern de Munique por 2 a 1 para o Manchester United na final da Champions League 1998/99, com virada nos acréscimos, está completando 10 anos. Depois de todo esse tempo, você encontrou uma explicação para o que aconteceu naquela noite?
Ainda não tenho explicação e pode passar mais 100 anos que não haverá. É muito difícil, pois fizemos o nosso dever de casa, nos preparamos e jogamos bem, estávamos em vantagem no placar, mas aconteceu aquilo (a virada com os dois gols marcados por Solskjaer e Sheringham nos acréscimos). Talvez devemos culpar o árbitro por ter dado tantos acréscimos (risos).

Qual era o ambiente pós-partida dentro do vestiário?
Triste. A luta para chegar até ali foi muito grande, o time quase ganhando o troféu e de repente tem que ver o adversário comemorar. Lá dentro (no vestiário) estavam todos caídos, chorando, parecia que tinha caído uma bomba no estádio Camp Nou.

“Eu não queria saber de mais nada”

Para recuperar a motivação foi um processo difícil, não?
Depois daquilo nós precisamos de seis meses para ter ânimo novamente. Eu não tinha vontade nem de ver futebol, não queria saber de nada. O Ottmar Hitzfield, nosso treinador, dizia: “Eu sinto o mesmo que vocês, mas não podemos relaxar e deixar os adversários dispararem na ponta da tabela, estamos no Bayern de Munique”.

Ainda falando de Champions League. No caso do Bayern de Munique, quando a partida era contra as grandes escolas do futebol europeu – Itália, Espanha e Inglaterra – havia uma preparação diferente para encarar cada uma delas?
Não, a concentração que era diferente. Contra esses grandes clubes havia um cuidado maior, uma preparação mental diferente. O treinador mostrava muitos vídeos, explicava como o adversário jogava, quem jogava, era um respeito enorme. Quando o oponente era um clube da Bulgária, por exemplo, não havia tantas nuances.

Durante seus anos na Europa, de onde eram os clubes mais complicados de se enfrentar?
Os italianos eram difíceis. Eles marcam por zona e não dão espaço. Contra os clubes espanhóis era gostoso porque eles deixam jogar. Os ingleses são mais parecidos com os alemães, fazem um jogo corrido e bruto.

Muitos diziam que naquele Bayern havia uma divisão entre a ‘turma do Lothar Matthaus’ e a ‘turma do Effenberg’.
Não existia. É claro que num plantel você se dá melhor com uns do que com outros, mas isso eu te garanto que não existia. Até pela história do Matthaus no futebol, quem iria contra ele? O Effenberg era bom de se trabalhar, a imprensa o odiava porque ele dava algumas declarações escabrosas, mas com os jogadores era gente boa.

“Effenberg foi muito melhor que o Ballack” 

O Effenberg jogou mais que o Ballack?
Sim, muito mais, é só você olhar as conquistas que ele teve. É um cara que foi beneficiado por ter jogado na Itália, uma experiência importante para qualquer jogador. O Ballack ainda precisa de mais conquistas.

O trio que você formou no Stuttgart entre 94 e 97 com o búlgaro Balakov e o atacante Fredi Bobic foi o melhor da sua carreira?
Com certeza, até hoje somos amigos. Desde que eu cheguei nos demos muito bem. O Bobic é um cara aberto, ajuda muito os outros e era um grande atacante. O Balakov eu já admirava ele quando o via jogar pelo Sporting Lisboa, só de ver ele jogar já era legal, atuando junto então…

“Nesta, Maldini, Adams e Kohler foram os zagueiros mais difíceis que enfrentei” 

Quais foram os defensores mais implacáveis que te marcaram?
Nesta, Maldini, Tony Adams e Jurgen Kohler.

O clássico com o Borussia Dortmund é o mais aguardado para a torcida do Bayern?
Eu considero ainda hoje o principal clássico do futebol alemão. É muito lindo esse dérbi, a torcida do Dortmund é apaixonada, uma coisa diferente mesmo. No sul fazíamos o clássico com o Stuttgart, mas o Borussia Dortmund é mesmo o principal dérbi.

“O Lyon é grande, mas os equipamentos e a estrutura do clube são da época da minha avó”

Sua adaptação no futebol francês foi difícil quando chegou ao Lyon, em 2003?
A realidade é muito diferente da Alemanha, tive dificuldades. Eu mesmo falava pra eles que o futebol francês era amador e isso pegou mal lá. Eu falava na dura mesmo. “O Lyon é grande, mas os equipamentos e a estrutura do clube são da época da minha avó”. Aquilo tem o nível de um clube da segunda divisão da Alemanha. Depois que eu saí eu conversei com alguns jogadores e eles me disseram que melhorou.

E dentro de campo?
Tem bons jogadores, mas não é aquele futebol que te convence que um clube dali pode ganhar uma Champions League. No caso do Lyon, nós sobrávamos na Ligue I, eu não via diferença nenhuma quando jogávamos dentro e fora de casa.

É um País aonde os clubes formam jogadores para as grandes ligas.
Exatamente.

Pessoas próximas ao Arséne Wenger, técnico do Arsenal, disseram que ele pensa que o futuro do futebol será uma mistura entre a técnica dos espanhóis e sul-americanos com a força dos africanos. O que acha?
Ele está corretíssimo. Jogando na França eu vi que os africanos são muito fortes mesmo, muitos nem tem tanta técnica, mas conseguem se destacar pelo fantástico preparo atlético. O problema deles é tático, eles não jogam com organização. Mas com a habilidade dos sul-americanos dá pra formar equipes fantásticas. É por aí mesmo..

“Rebati a grosseria do Antônio Lopes: ‘Eu sou homem, tenho contrato aqui e respeito meu clube, eu quero estar na seleção, mas não vou fugir daqui do Bayern pra isso’”.

Tem mágoa por Felipão não ter te levado para a Copa de 2002?
Nenhuma. Adoro o Felipão, adorei estar com ele na seleção, o problema todo foi com o Antonio Lopes, que era o coordenador. Faltando dois jogos para terminar as eliminatórias para a Copa, o Bayern não queria me liberar, mas eu pedi para jogar. Ele disse: “A seleção não liga pra pedir liberação para clube nenhum. Você não está amarrado, se vira aí”. Aí eu fui grosso com ele: “Eu sou homem, tenho contrato aqui e respeito meu clube, eu quero estar na seleção mas não vou fugir daqui pra isso”. Ele disse que não ia me ajudar, chamaram o Luizão, que acabou se dando bem.

Quando você voltou ao Brasil, quais os aspectos mais complicados na readaptação?
Primeiro de tudo os gramados são péssimos, horríveis. Um profissional não pode jogar em campos assim. Existem estádios onde o vestiário não tem água, o banheiro é horrível, enfim, foi um choque pra mim. Muitos falavam: “Ué, você não disse que queria voltar ao Brasil, essa é a nossa realidade”. Temos muitos estádios e campos ruins, por isso que o jogo não é rápido e com toques de primeira.

Gostaria que você comentasse sobre os principais treinadores com quem trabalhou..

Leo Beenhakker..
Infelizmente ele criou problema comigo, trouxe um jogador holandês como ele e que atuava na mesma posição que eu, e por isso me tratava mal. Nos treinos ele deixava eu tomar pancada e se eu reclamasse, ele me mandava calar a boca.

Christian Gross..
Grande treinador. Estava começando a carreira, mas já víamos que era diferenciado. Tinha caráter e pedia a opinião dos jogadores pra tudo.

Jurgen Rober..
Foi um dos melhores que eu tive, deu liberdade para mim, o Balakov e o Bobic. Jogávamos sem pressão e ao contrário dos treinadores alemães, ele não inibia os atacantes exigindo tarefas táticas. Por isso, rendemos ao máximo.

Joachim Low..
Era novo, tinha sido assistente, quando entrou no comando procurou os jogadores mais experientes para perguntar sobre metodologia de treinos etc, tomava as decisões depois de consultar os jogadores.

Giovanni Trappatoni..
Um pai. Simpático e carismático. Infelizmente era adepto do ‘catenaccio’. Fazia o time lutar para fazer 1 a 0 e depois disso imediatamente tirava os dois atacantes e colocava meio-campistas. Ele fazia isso até mesmo contra equipes como Nuremberg, Bochum e Duisburg. Eu me irritei com ele várias vezes, ele dizia que eu tinha muito que aprender (risos). O legal é que ele pegava os jovens e ficava ensinando-os alguns fundamentos após os treinos.

Ottmar Hitzfield..
Ganhou tudo. Tinha muito carisma e o grupo estava sempre nas mãos dele. Ele começava a temporada sempre com sistema de rotação dando oportunidade para todos jogarem. Ninguém falava mal dele. Ele dizia: “Eu posso até errar, mas nunca vou sacanear ninguém”. Era uma relação de respeito e profissionalismo.

Paul Le Guen..
Já tínhamos jogado um contra o outro quando ele era jogador. Ainda estava aprendendo, trabalhava bem e ganhou muito no clube.

PC Gusmão..
Quando eu voltei ele me ajudou muito, eu não conhecia e não tinha muita malícia sobre o futebol brasileiro. Eu estava com a cabeça européia ainda, então, ele me colocou aos poucos no time, tentou me explicar que aqui não soltamos a bola tão rápido, ficamos mais com ela.

Oswaldo de Oliveira..
Foi uma pena eu estar com o tornozelo ruim, pois eu teria jogado mais uns quatro anos pelo Cruzeiro se fosse com o Oswaldo no comando. Ele é excelente, um cara que fala a linguagem dos jogadores e nunca desrespeitou ninguém. Eu gostei.

Vanderley Luxemburgo..
Excelente. Um cara que sabe muito, as suas vitórias não são por acaso. Competente, experiente e sabe o que quer. Se a equipe assimilar, chega longe.

Felipão..
Se você colocar na cabeça que está num grupo e esse grupo é o ideal para se chegar as conquistas, chegam todos longe. Na preleção você sente o ânimo dele e a enorme bagagem que ele tem. Não é muito diferente do Vanderley, não. 

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Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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