Egmar: Paixão e nostalgia

O centroavante Egmar Gonçalves ficou mais de uma década em Cingapura, cravando seu nome na história do futebol daquela ilha com centenas de gols marcados pelo Home United, único clube que defendeu durante seus 11 anos por lá. De volta ao Brasil, o capixaba naturalizado cingapureano nos recebeu para um longo bate-papo. Falando com muita intensidade, Egmar, de 36 anos, é do tipo que se sente totalmente à vontade contando sobre suas experiências, demonstrando muita paixão e nostalgia da sua extensa carreira em Cingapura, onde também jogou pela seleção local.
Atualmente, corre atrás da bola na modesta Desportiva, do Espírito Santo, apenas para satisfazer amigos dirigentes. “Por mim, eu pararia de jogar, mas eles querem que eu jogue, e eu vou” explica.
Você está retornando depois de 11 anos no futebol de Cingapura, onde você foi ídolo. Como você avalia todo esse tempo nos gramados daquele país?
Eu estou satisfeito por ter jogado todo esse tempo por lá, sempre no mesmo clube, o Home United, e ter feito um bom trabalho. Eu poderia ter feito muito mais, mas achei que era hora de voltar. Financeiramente foi bom, mas chega uma hora que você enjoa, a idade chega, você sente que é hora de voltar. A família está toda aqui, os irmãos, os amigos. Minha filha (Brenda, 12 anos) sempre dizia “pôxa, pai, todo ano você sempre fala que vamos voltar ao Brasil e no final acabamos ficando por aqui”. Essas coisas te tocam e te fazem pensar melhor.
Depois desse tempo todo por lá, como estão sendo seus primeiros meses no Brasil? Pinta saudade do Home United?
Sem dúvida, o tempo todo eu tenho saudade. Eu olho os troféus aqui em casa e lembro das conquistas, dos jogos, dos gols. Foram 11 anos! As vezes, eu visito o site do clube e ainda tenho contato com o ‘Maní’ (Subramani, zagueiro), com o Lionel (Lewis, goleiro) e com o ex-presidente, que teve uma atitude incrível comigo no dia que eu embarquei de volta ao Brasil. Ele foi às 5 horas da manhã no aeroporto para se despedir e agradecer pelo que eu fiz pelo clube. O ‘Maní’ me escreveu esses dias dizendo que sente minha falta porque eu animava e descontraía o ambiente. Ele disse que durante os treinos sente que ‘falta algo’. Esses caras virão aqui na minha casa ainda!
Você teve propostas para continuar no Home United ou no sudeste da Ásia?
A nova diretoria que assumiu o clube recentemente conversou comigo e quis reduzir meu salário para eu ficar. Eu não aceitei. Eles justificaram dizendo que eu estava velho e que eu teria que entender a redução. Eu não gostei! Depois de tudo que eu fiz pelo clube, achei uma desfeita. Como eu já estava interessado em voltar ao Brasil, não quis saber de conversa. Eu quase acertei com um time do Brunei, que disputa a liga malaia (Brunei DPMM). Eles me fizeram uma ótima proposta, mas quando eu estava perto do aeroporto me informaram que por não ter mais o passaporte de Cingapura eu não poderia ir por causa das cotas para estrangeiros na Malásia. Mas foi até bom, eu estava arrependido de ter dado minha palavra para os caras. Também tive propostas do Pahang, da Malásia, e de um clube da Indonésia.
Você e o também brasileiro Peres, agora no Tampines Rovers, sempre fizeram um tremendo sucesso na S-League. Durante esse tempo, não houve propostas de países mais expressivos?
Teve muitas, todo ano tinha, mas era de países dali do sudeste asiático mesmo, como Malásia e Indonésia. Aí, não me interessava, era melhor ficar em Cingapura. O problema todo é que quando as chaves eram divididas, nos torneios de clubes da Ásia, nós só jogávamos contra equipes da região mesmo, por uma questão de critério da AFC. Nisso, não tinha como, por exemplo, os coreanos e japoneses nos observarem. Por isso nunca saímos de lá.
Como surgiu essa proposta para você jogar em Cingapura, há 11 anos?
Foi no finzinho de 1995. Eu estava no Bayer, do Rio de Janeiro. O supervisor do clube, João Silva, era irmão do Carlinhos, que treinava o Home United na época. O João Silva falou comigo: “Egmar, o Carlinhos quer você lá”. No início, eu não queria, eu dizia que naquela região só tem guerra. Mas o João me convenceu. Quando cheguei em Cingapura e vi a estrutura do Home United, pensei: “Minha nossa! Não volto mais!” (risos). Depois, percebi que o clube paga certinho, o país tem boa qualidade de vida, não tem assalto, nem violência. Alguns meses depoi,s minha esposa também foi para lá.
A melhor temporada sua em Cingapura foi, sem dúvida, no título do Home United, em 2003, quando vocês bateram recordes de pontos e gols na liga. Quais lembranças você tem daquele ano?
Foi o nosso melhor ano, muita união dentro do clube e um treinador sensacional: Steve Darby! Que treinador! O melhor que eu já tive. Nosso jogo fluía fácil. Estávamos bem entrosados. Em campo, um sabia onde ia achar o outro. Jogávamos no 3-5-2, com o Peres se aproximando de mim e do Indra, no ataque. Juntos, só nós três fizemos quase uns 100 gols naquele ano (foram 92 gols).
Acha que o nível de qualidade da S-league cresceu ou se manteve igual durante o tempo que você jogou lá?
Nos cinco primeiros anos, houve um crescimento muito grande, depois caiu. Agora, nos últimos dois anos, voltou a crescer. Apareceram muitos jovens de valor, e a quantidade de patrocinadores é enorme.
A S-league tem muito espaço na mídia local?
Toda sexta-feira à noite tem jogo transmitido na TV. Mas Cingapura não tem uma população apaixonada por futebol como a Malásia e a Indonésia, onde o interesse do povo é igual ao Brasil. O problema são os jornais, que falam mais da liga inglesa. (indignado) Cara, são sete páginas só do Campeonato Inglês. Três páginas só para o Manchester United, duas para o Liverpool e duas para os outros clubes ingleses. Para a S-league, é só uma página!
Como é o comportamento dos torcedores em Cingapura?
Eles gostam muito de apostas! (risos) Eles apostam tudo que você imaginar! Quem vai marcar o primeiro gol do jogo, quem vence, quem perde, quem vai ser campeão, etc. No Home United, tínhamos a torcida organizada, que até agitava um pouco. Eles tinham até uma música dedicada a mim quando eu marcava gol. Mas, no geral, eles acompanham a partida de forma tranqüila. Dentro dos estádios não pode beber nem fumar. A lei é muito rígida para quem desobedecer.
Como é o clima nos jogos da S-league? A situação dos estádios é boa?
O clima é quente e o gramado é sempre úmido porque quase todo dia chove. Cai um ‘pé d´água’ de quase 40 minutos! Mas isso não impede os gramados de serem bem tratados. O governo faz a manutenção também das pistas de atletismo e das barras que ficam no entorno do gramado para a população que mora na redondeza poder usar. Nos primeiros dois anos que eu joguei lá, os jogos que eram disputados no estádio nacional, que é o principal do país, eram transmitidos ao vivo. Hoje, só a final da Copa da Cingapura e os jogos da seleção são lá.
É interessante que 75% da população de Cingapura é composta por chineses. No entanto, é muito difícil ver jogadores chineses na S-league. A maioria é malaio e indiano, não é?
É verdade. Os chineses querem que seus filhos estudem. Geralmente, as crianças e jovens chineses só estudam e praticam natação. Jogar bola, nada. Quem joga são os malaios e alguns indianos.
Você concorda com a opinião do treinador da seleção de Cingapura, Radojko Avramovic, e de seu ex-técnico no Home United, Steve Darby, que dizem que o futebol da Malásia é mais competitivo que o de Cingapura?
Na Malásia, a liga é mais dura mesmo, mas não acho a seleção deles forte. Existe muita rivalidade tanto em clubes quanto nas seleções de Malásia e Cingapura. Já joguei várias vezes contra times malaios, e, em campo, os jogadores se estranham o tempo todo, chegam junto, não dão espaços. Nós somos mais técnicos e eles (malaios) jogam mais na correria.
Você disse que Steve Darby foi o melhor treinador com quem você trabalhou. Como é a metodologia dele?
Com o Steve Darby, a pré-temporada não é tão desgastante. Depois, com o decorrer da competição, vai ficando mais puxado. Ele intensifica os treinos com o tempo. Normalmente, treinávamos uma hora pela manhã e uma hora à tarde. Às vezes, nem isso. Ele prioriza muito o trabalho com bola. Até quando dávamos piques, tinha que ser com a bola. Ele gostava também de fazer coletivos em curtos espaços: três contra três, quatro contra quatro. Outra coisa: jogávamos na sexta-feira e no fim de semana tínhamos folga. Antes do jogo, ele sempre dizia “Quero os três pontos. Como? Vocês vão buscar”. O time jogava para ele, pois todos tinham um respeito enorme por ele.
E o Radojko Avramovic na seleção de Cingapura, como ele é?
O ‘Raddy’ também é maravilhoso. Os treinos dele são longos. Ele gosta muito de aperfeiçoar a parte tática e treinar muita bola parada e jogada ensaiada. Tinha quatro anos que eu não jogava pela seleção de Cingapura e voltei por ele. Ele ficava em cima de mim, toda convocação ele me ligava e dizia que ia me chamar. Mas eu sempre recusei nos últimos anos, não queria voltar. Aceitei por ele. Mas falei com ele que não aceitaria novamente.
Você marcou um gol contra o Iraque, na derrota por 4 a 2, em Bagdá. Esse time do Iraque tem bons talentos?
O time é muito bom e joga junto há um bom tempo. São jovens e rápidos. Vencemos em casa por 2 a 0 no outro jogo, mas só deu eles! O número 10 (Younis Mahmoud) joga muito, e o 11 (Hawar Mulla Mohammed) nem se fala. Estilo Ryan Giggs! Não só o Iraque, mas em geral os árabes estão na nossa frente, pois investem mais em comissão técnica de peso e eles têm mais porte físico.
Você acha que falta mais porte físico para os jogadores cingapureanos e do sudeste asiático, em geral?
Com certeza. A comida deles é pimenta o dia todo. Eles não ganham massa. Sempre me perguntavam como eu podia ter tanto músculo. E eu dizia que no meu país nós comemos melhor (risos). Na seleção deles, o ‘Raddy’ colocou um preparador físico que ‘pega pra capar’. Ele elaborou uma dieta especial e trabalha muito a musculação. Por isso, a seleção cresceu. Mas eu vi que alguns jogadores comem um pouquinho e saem para comer fora…
Como é jogar um torneio como a AFC Cup, que é a segunda competição de clubes mais importante da Ásia?
Os mais fortes são os clubes árabes, especialmente os da Jordânia e do Líbano. Era muito difícil jogar na casa deles, pois o clima era diferente e o nível mais alto. Em casa, até dava para encarar, mas fora não. No sudeste asiático, poucos jogadores têm habilidade e malandragem. Falta mais estatura e porte físico, como já falamos.
Pelo que vivenciou, qual seria o caminho ideal para o futebol no sudeste asiático engrenar?
Fazer como o Japão. Trazer técnicos e preparadores físicos estrangeiros, de preferência brasileiros, ou da mesma qualidade de gente como Steve Darby e ‘Raddy’. Abrir academias onde se trabalhe com as crianças questões de alimentação desde cedo. Já se está dando passos nesse sentido. Ano passado, o Fábio Koff foi lá propor um trabalho a longo prazo, abrindo academias de futebol com técnicos e preparadores brasileiros. Eu falei com eles (dirigentes cingapureanos): “Esse aqui não veio enganar vocês não”. Como vim embora em janeiro, não sei qual foi o desfecho, se acertaram com o Koff ou não.
Falemos agora sobre as principais estrelas da S-league. O Qiu Li, centroavante chinês, destaque do Young Lions na ótima campanha da equipe, em 2006, teria potencial para te substituir no Home United?
Quando o time chinês (Sinchi) participou da S-league (em 2005), ele se destacou. Daí foi para o Young Lions e fez uma grande temporada. Agora chegou numa equipe ‘top’. Faz gols, mas não tem nada de especial não. No Brasil, não teria a menor chance.
E o Mirko Grabovac, centroavante croata do Tampines Rovers, artilheiro cinco vezes do campeonato e eleito melhor jogador de todos os tempos da S-league?
Ele tinha mais sorte do que eu de ter o time sempre jogando para ele. Ele é muito habilidoso e faz muitos gols. Fiz dupla com ele na seleção e não funcionou. Eu xinguei ele porque ele ficava levantando os braços e balançando a cabeça negativamente quando eu não passava a bola (risos). Jogaria aqui tranqüilamente.
E quanto ao Peres de Oliveira, meia do Tampines Rovers e seu parceiro durante cinco anos no Home United?
Muita qualidade, sem comentários. Aprendeu tudo muito rápido em Cingapura, se aprofunda nas coisas. Adaptou-se bem demais ao país. Cracaço de bola!
FICHA
Egmar Gonçalves
Data de nascimento: 15/agosto/1970
Local de nascimento: Vila Velha, no Espírito Santos
Clubes que defendeu:
1989: Grêmio
1990: Grêmio
1991: Ituano e Itaperuna
1992: Bangu, Barreira e Rio Branco-ES
1993: Bayer-RJ
1994: Bayer-RJ
1995: Madureira e Bayer-RJ
1996: Home United
1997: Home United
1998: Home United
1999: Home United
2000: Home United
2001: Home United
2002: Home United
2003: Home United
2004: Home United
2005: Home United
2006: Home United
2007: Desportiva


