Edu Dracena: “Agora é o filé”

O zagueiro Edu Dracena ajudou o Fenerbahçe a conquistar o Campeonato Turco no ano em que o clube comemora seu centenário. Ele chegou ao clube no ano passado, dando início à segunda experiência no futebol europeu, após uma breve passagem pelo Olympiacos na temporada 2002/3. Em Istambul, além de ser dirigido por Zico, o ex-cruzeirense tem a companhia de outros brasileiros – Alex, Deivid e o naturalizado turco Mehmet Aurélio – e forma dupla de zaga com o uruguaio Lugano, que defendeu o São Paulo.
De férias no Brasil, Dracena recebeu a Trivela no dia 4 de junho para uma entrevista exclusiva. O defensor, de 26 anos, falou sobre a experiência na Turquia, tanto dentro quanto fora de campo, e de suas expectativas para o futuro no Fenerbahçe.
Edu, que balanço você faz de sua primeira temporada como jogador do Fenerbahçe?
Quando eu cheguei, o clube tinha acabado de ser eliminado na fase preliminar da Liga dos Campeões, e disputaríamos a classificação para a fase de grupos da Copa Uefa – o que conseguimos. O pensamento principal era de ganhar o título da liga turca. Seria uma conquista importante para o clube, por se tratar do ano do centenário, e eles fizeram várias contratações importantes. Assim, era nossa obrigação conquistar o título. O mais importante é que o trabalho foi bem realizado pelo Zico, por todos os jogadores, especialmente os estrangeiros que estão por lá. No fim, acabamos premiados com a conquista do título nacional.
Como foi para você trabalhar com o Zico?
Foi muito importante. Além de ser um excelente treinador, uma pessoa capacitada, ele é uma pessoa extremamente humilde. Ele conversa, brinca com todos, desde o funcionário que limpa o vestiário até o jogador mais importante do clube. Foi importante a união que ele transmite aos jogadores, a experiência que ele adquiriu jogando e agora passa como treinador.
Por ser o primeiro trabalho do Zico em um clube, você acredita que também tenha sido um aprendizado para ele?
Sem dúvida. Ele só havia dirigido o Japão, e em uma seleção você não trabalha sempre no dia-a-dia. Fica no máximo um mês junto com os jogadores. Conosco, ele pôde aprimorar a parte técnica e a parte tática do time, e teve uma grande parcela de contribuição para o título.
Você tem atuado em dupla com o Lugano, ex-São Paulo. Como é a parceria em campo?
Nós tivemos um bom entrosamento, dentro e fora de campo. Eu só conhecia o Lugano de jogar contra ou ver pela televisão. Juntos, temos completado um ao outro, fazendo as coberturas quando um sai de posição. Esperamos que no próximo ano, em que vamos jogar a Liga dos Campeões, ter êxito também na competição européia.
Como foi voltar a jogar com o Alex, companheiro no Cruzeiro vencedor do Brasileiro em 2003? Você acha que ele foi responsável por uma abertura de portas para os brasileiros por lá?
Outros brasileiros também foram importantes para essa abertura. Além da qualidade do jogador brasileiro, que é indiscutível, o povo turco gosta muito dos brasileiros. Os jogadores que passaram pelo Fenerbahçe deixaram uma ótima marca, como o Washington, atacante, que teve aquele problema no coração, e o volante Simão. O Parreira teve uma boa passagem como treinador. E o Alex está lá há três anos, sempre como artilheiro da equipe, jogador importante e decisivo. Voltar a jogar com ele foi uma satisfação, porque juntos conseguimos a tríplice coroa no Cruzeiro.
Você faria algum paralelo entre os povos turco e brasileiro, em termos de estilo de vida?
A cultura é um pouco diferente, mas apesar de eles serem muçulmanos, há algumas características semelhantes. Eles tratam todo mundo bem, se esforçam para te entender, apesar da língua difícil. São preocupados, no dia-a-dia, dentro e fora de campo, saber se você está bem e se precisa de alguma coisa. O que mais dificulta lá é a língua, o resto é praticamente igual. Estamos aprendendo inglês, a maioria dos jogadores turcos também fala inglês.
Um dos destaques do Fenerbahçe é o meia ganense Appiah. Você o compararia a algum jogador brasileiro com quem você tenha atuado, pelo estilo de jogo?
Não consigo identificar algum agora. É um jogador técnico, de muita força, chuta muito bem de fora da área. São posições diferentes, o esquema na Turquia é diferente do brasileiro. Jogam com duas linhas de quatro. Não é exatamente um meia armador, é quase um ponta, e ele joga pela direita, chegando muito bem à frente.
A Turquia é conhecida pelo ambiente nos estádios, autênticos caldeirões. Como foi a experiência de encará-los?
Nunca vi torcedor tão fanático como o turco. O brasileiro é fanático, mas na minha opinião o turco supera. Em nosso estádio, o público mínimo era de 30 mil pessoas. Nos clássicos, a rivalidade é muito grande. No último, contra o Galatasaray, passei até medo, tamanho é o ódio entre eles. O torcedor do Fenerbahçe odeia o torcedor do Galatasaray, os jogadores do Galatasaray. Isso às vezes ultrapassa o campo esportivo e chega à violência. Cruzeiro e Atlético? Perto disso, não é nada.
Em entrevista à Trivela há dois meses, Alex reclamou por ainda não ter sido chamado pelo Dunga para a Seleção Brasileira, enquanto jogadores atuando em Rússia e Ucrânia tem oportunidades. Por que você acha que ele não é lembrado?
Isso vai do que o treinador pensa para a equipe, de seu esquema tático. Pode ser que a característica do Alex não seja a que o Dunga espera, pode ser que ele queira jogadores com outras características. Ninguém discute a qualidade do Alex, o jogador importante que ele é. Sempre vai haver uma discussão, vai agradar a um e não ao outro.
Ele chegou a lamentar com você ou com os outros jogadores brasileiros do time?
Conosco ele não comentou nada. Em toda convocação a gente conversa sobre quem foi, mas não a esse ponto.
Aqui, no Brasil, é costume o torcedor “patrulhar” os jogadores na noite, especialmente quando o time vai mal. Como funciona isso na Turquia?
A privacidade não é invadida. Você sai com sua família, ou sozinho, e pode fazer o que quiser sem ser incomodado. Obviamente existe cobrança dos torcedores no dia-a-dia, mas não é como aqui.
Sua namorada mora com você na Turquia?
Não, ela continua aqui, estudando, ainda vai se formar.
E como é a vida noturna na Turquia? A questão do islamismo interfere?
Nem tanto. Eu tinha uma visão completamente diferente. Tudo o que tem em uma grande cidade da Europa, tem em Istambul. Quando você sai à noite, eles não são tão rigorosos. Gostam de se divertir, ir a restaurantes, bares, tomar aquele cafezinho e fumar um charuto.
No final da temporada houve uma confusão entre os jogadores de Fenerbahçe e Besiktas, depois de um desentendimento entre o Mehmet Aurélio e o Ricardinho (que teria feito ofensas racistas ao volante). Como você viveu este episódio?
Antes de mais nada, foi triste para nós, brasileiros. O mundo todo viu. Foi um incidente lamentável, é ruim para o esporte, para nós como pessoas públicas. A discussão dentro de campo acabou saindo dele, mas só vi as cenas da confusão no estacionamento depois, pela televisão.
Na Liga dos Campeões, há algum time ou jogador em especial que você deseja encontrar?
Sempre é bom enfrentar times grandes, como Barcelona, Real Madrid, Manchester United. Quem não quer enfrentá-los? Queremos fortalecer mais nossa equipe. Com o bom trabalho do Zico, nosso sonho é passar pela fase de grupos, algo que o time nunca conseguiu.
Considerando também a passagem pelo Olympiacos, qual o jogador mais difícil que você enfrentou na Europa?
Difícil citar nomes, mas na Grécia, apesar de ter ficado apenas seis meses, disputei a Liga dos Campeões. Enfrentamos o Van Nistelrooy, que estava no Manchester United, e é um jogador muito difícil de ser marcado.
E na Turquia, como são os atacantes?
Os jogadores são muito fortes, é um estilo diferente. Não existe falta por qualquer coisa. O juiz manda seguir. O pessoal chega duro, você tem que ir firme na bola. Do contrário, é perigoso até se machucar. Aqui, você dá um carrinho e leva cartão amarelo, até vermelho. Em um mesmo lance, lá, talvez se marque a falta, no máximo.
É melhor para você jogar dessa forma?
Agora o brasileiro está aprendendo a jogar desse jeito, principalmente na Libertadores. No Brasileiro, qualquer coisa era falta. Na Libertadores, já é diferente, os caras chegam junto e não é qualquer coisa que o juiz marca. Até por isso o jogador brasileiro tinha um pouco de dificuldade para se adaptar.
(Colaborou Carlos Eduardo Freitas)


