Dinheiro bem gasto

Nesta temporada, o Manchester City disputa apenas os torneios do futebol inglês. No ano passado, estava em todos esses torneios, mas também na Copa Uefa, onde alcançou as quartas de final. A temporada apenas mediana, porém, fez com que a equipe entrasse na temporada 2009/10 sem ter competições europeias para jogar.
Sinal de que a equipe piorou? À primeira vista, talvez. Mas a impressão cai por terra quando se vê o desempenho da equipe no Campeonato Inglês: um estilo de jogo rápido no ataque, sem perder força na defesa. O que permitiu fazer jogo duro para cima do rival Manchester United, e ganhar muito bem do Arsenal. Mas, afinal, qual a razão de um time respeitável a ponto de ser bem cotado na disputa por vagas na Liga dos Campeões?
A chave não está tanto no esquema. Mas, sim, nos jogadores que o formam. Desde seu início, na temporada passada, Mark Hughes é bastante adepto do 4-4-2 e do 4-3-3, com leves variações, como o 4-4-1-1 ou mesmo o 4-1-2-3. Entretanto, ao chegar no meio da turbulência que faria com que Thaksin Shinawatra acabasse deixando o clube, Mark Hughes recebeu reforços como Robinho, Jô e Tal Ben Haim.
Somado a isso, Hughes teria de lidar com o que já havia no elenco: Michael Ball, Dietmar Hamann, Darius Vassell, Gelson Fernandes. Todos jogadores razoáveis, mas incapazes de levar o time a desafiar Chelsea, Arsenal, Liverpool e o arquirrival Manchester United. Afinal, esta foi a intenção com que o Abu Dhabi United assumiu o grupo, tendo à frente Mansour bin Zahyed Al Nahyan.
Os desajustes começavam no gol. Joe Hart é promissor, mas ainda não é um arqueiro em que se possa confiar na hora de iniciar um projeto de time (até por isso, o seu empréstimo, para que ganhe experiência). Na linha de quatro zagueiros, Micah Richards tinha a seu lado um bom zagueiro em Richard Dunne. Porém, a lateral direita perdeu muito com a transferência de Vedran Corluka. Além disso, Ben Haim nunca foi totalmente seguro, e Ball por vezes não correspondia, na esquerda. Muito menos Garrido. Ou Nedum Onuoha.
Para tentar fortalecer a proteção, Mark Hughes variava. Ora deixava apenas um homem na cabeça de área (em regra, Vincent Kompany), ora colocava Hamann a acompanhar o belga, ora enchia o meio campo com até cinco jogadores, num 4-5-1. Todavia, pouco resolvia, mesmo quando Gelson Fernandes ajudava. Até porque os armadores também não conseguiam dar velocidade ao ataque.
Wright-Philips se esforçava, mas não conseguia ser responsável por toda a armação, o mesmo caso de Stephen Ireland. Elano até começou bem, mas foi decaindo. E Robinho, em má fase, não era o homem a trazer a bola para o ataque, ajudando Jô, ou Benjani, ou mesmo Daniel Sturridge.
Porém, ao invés de sair por aí comprando jogadores estelares a rodo para resolver o problema do time, Al Nahyan preferiu esperar. E ouviu mais Mark Hughes, na hora de escolher os reforços. O que se iniciou na metade da temporada 2008/09. Ali viu-se como o dinheiro seria gasto de modo inteligente.
Para o gol, poucos na Premier League seriam mais indicados para acalmar a defesa do que Shay Given, ótimo arqueiro. Wayne Bridge foi pego do Chelsea e chegou tomando conta da lateral esquerda. Finalmente, no meio, Craig Bellamy caiu como uma luva para ser o jogador a acelerar o ritmo das jogadas de ataque dos Citizens. E Nigel de Jong serviria como um parceiro mais ágil do que Hamann – e mais imponente no aspecto físico do que Gelson Fernandes.
Essas aquisições já serviram para que a equipe crescesse de produção na Copa Uefa. Mas não conseguiram melhorar o desempenho no Inglês. A equipe chegou na 10ª posição, e algo precisaria ser feito. Novamente, entrou em campo a sintonia mais afinada entre Al Nahyan e Mark Hughes: foram dispensados, ou emprestados, Ball, Vassell, Sturridge, Gelson Fernandes, Elano, Tal Ben Haim, Richard Dunne e Jô. E os espaços foram abertos para que chegassem jogadores não só necessários, mas de qualidade reconhecida.
Para a defesa, o dinheiro quase inesgotável que o City tinha foi suficiente para atrair Kolo Touré e Joleon Lescott, parceiros de qualidade indubitável para dividir a zaga com Micah Richards. Pela esquerda, caso Bridge não possa jogar, existe agora a experiência valiosa de Sylvinho. Se já havia boa qualidade de marcação, pelo meio-campo, a contratação de Gareth Barry trouxe maior qualidade na saída de bola. E, para ampliar a rapidez que Bellamy já trazia, talvez o reforço mais indicado: Tevez, de aplicação conhecida e incansável na marcação à saída de bola adversária.
Bellamy e Tevez, por sua vez, têm o auxílio de Ireland, Wright-Philips e Martin Petrov, de volta à boa fase. E todas as jogadas que estes criem têm um finalizador de grande respeito em Emmanuel Adebayor – sem contar Roque Santa Cruz, na reserva. Com o 4-4-2 já enraizado por Hughes, a adaptação dos novos jogadores foi rápida.
E, então, o Manchester City tornou-se um adversário respeitável, nas primeiras rodadas da temporada. É ver se continuará assim – até para que Mark Hughes veja suas apostas darem certo, e não prossiga com a pecha de que não é técnico para time grande sobre sua cabeça.


