Devo sim, pago quando puder

Clubes endividados são uma premissa comum no futebol brasileiro. Quase todos possuem dívidas, normalmente altas, que chamam a atenção. Os clubes europeus, olhados por muitos como exemplos, também vivem essa realidade da dívida. Nem toda dívida, porém, atrapalha o funcionamento do clube.
“Dívida é um recurso que não tenho e uso de terceiros”, define Amir Somoggi, especialista em marketing esportivo e consultor da Crowe Horwath RCS. “Endividamento é pegar um empréstimo e antecipar esse recurso que você não tem“, diz o consultor. “Ela gera um custo anual para o clube”.
A empresa divulgou uma lista das dívidas dos clubes brasileiros em 2009, que traz os 13 clubes com maiores dívidas do país, numericamente. Os números são altos, com cinco times da lista com dívidas acima dos R$ 100 milhões. Muitos dos clubes brasileiros recorrem a empréstimos com as federações locais, a CBF e até as emissoras que detém os direitos de transmissão para antecipação de cotas para saldas dívidas imediatas, como salários atrasados.
Explicação das dívidas
Segundo Somoggi, cerca de 40{4e6004d4b2dec836d33dc5172bfddf26d3363bd8dda1f1bebd6a41477248514f} das dívidas dos clubes brasileiros são relativas à Timemania – acordo dos clubes com o governo federal para o pagamento de dívidas tributárias com a União. Parte da redá da loteria fica retida com o governo para quitar, em suaves prestações, as dívidas.
Excluindo a Timemania, o total das dívidas dos clubes alcança R$ 1,6 bilhão, que é o total que deve ser administrado pelos clubes. Isso porque a loteria não mexe no dinheiro do clube, apenas no faturamento em relação a essa loteria. Com isso, essa dívida torna-se menos importante no dia a dia.
“Muitas vezes as dívidas atuais são trabalhistas”, explica Somoggi, sobre um dos fatores que gera a dívida dos clubes. O líder da lista dos endividados, Fluminense, tem R$ 329,278 milhões em débito. Destes, R$ 138 milhões são relativos à Timemania.
Dos R$ 190 milhões restantes, R$ 35 milhões são relativos a processos judiciais. Somoggi diz que um dos itens que pesam na conta dos clubes são as dívidas trabalhistas. Só no Fluminense, são R$ 21 milhões, sendo R$ 8 milhões despesas financeiras e R$ 13 milhões tributárias. É praticamente um terço da receita do clube, que é de R$ 61 milhões.
Exemplos europeus
Na Europa, há situações semelhantes. O Portsmouth, rebaixado na temporada passada no Campeonato Inglês, acumulou dívidas de cerca € 136 milhões, que acabou por levar o time em concordata e perder nove pontos, o que antecipou o rebaixamento. Sem um mecenas para comprar e salvar o time, o resultado foi um estado catastrófico de finanças.
O Pompey não é o único caso. O Chelsea é o clube mais endividado da Europa. Segundo dados informados por Amir Somoggi, a dívida chega a € 837 milhões, com uma receita de apenas € 242,3… A diferença para outros clubes em situação financeira ruim é que o mecenas, o dono do clube, Roman Abramovich, saldou todas as dívidas tornando-se o principal credor, ou seja, injetando rios de dinheiro.
O Manchester United também tem uma dívida alta. O clube foi comprado pelo norte-americano Malcom Glazer, em 2005, por um total de € 910 milhões. Para a compra, fez um empréstimo milionário, comprou o clube e transferiu a dívida para o United.
A diferença para o Chelsea é que o time tem uma receita maior. O United anunciou um recorde de receita na última temporada, que chegou a € 326 milhões, apesar do prejuízo de € 95 milhões na temporada passada.
A dívida do clube está em € 853 milhões, sendo que uma parcela de € 60 milhões é paga anualmente. Assim, o clube torna-se financeiramente viável. Porém, a dívida tem que ser paga até 2017, caso contrário a família Glazer perderia a posse do clube, já que a dívida aumentou e o lucro da temporada 2008/09 foi perdido para um prejuízo na temporada 2009/10.
Anfield Road e City of Manchester
O caso do Liverpool tem algumas semelhanças. Os donos da equipe, Tom Hicks e George Gillett, contraíram um empréstimo alto para comprar o clube e a dívida foi repassada ao clube. A dívida com o Royal Bank of Scotland, principal credor, é de cerca de € 227 milhões. A total do clube chega a quase € 400 milhões
Um dos grandes problemas é a folha salarial. Os Reds gastam cerca de € 121 milhões com salários, uma quantia considerada muito alta por Somoggi. Para o consultor, a folha deveria ser algo em torno de € 90 milhões – o clube tem receita de cerca de € 217 milhões.
O Manchester City é outro clube que vive de mecenas, assim como o Chelsea. O clube inflacionou o mercado de transferências na última janela e chegou a dívidas na casa dos € 261 milhões.
Porém, o riquíssimo dono que tem, Sheikh Mansour, que assim como Abramovich, cobre todos os gastos da equipe, sem que precise que o clube seja sustentável. A folha salarial dos Citizens foi de cerca de € 100 milhões, com uma receita de € 102,2.
Dívida como investimento
Nem sempre contrair uma dívida é algo negativo para o clube. O Arsenal é o maior caso de sucesso de um clube que contraiu uma dívida alta para investir no próprio clube e conseguiu resultados positivos.
Segundo explica Amir Somoggi, o que os Gunners fizeram foi algo comum nas empresas: se endividar para investir na própria expansão. “Com dívidas como essas, se for estruturado, se reverte em benefícios”, diz Somoggi.
O empréstimo que o Arsenal contraiu foi para a construção do novo estádio, o Emirates. O clube alugou o espaço do antigo estádio para a construção de um condomínio de luxo, depois que seu novo estádio estava pronto. A equipe pagava cerca de € 20 milhões anuais só de juros do empréstimo que fez.
Mesmo com esse cenário, o clube diminuiu, pouco a pouco, a sua dívida e, no caminho inverso, aumentava suas receitas. O empréstimo, de cerca de € 455 milhões, foi sendo pago à medida que a receita aumentava substancialmente. Ano a ano, a dívida foi caindo: € 318 no ano seguinte, um pouco mais de € 100 em seguida e caiu para € 5 milhões na última temporada.
O time ainda consegue manter uma folha salarial equilibrada com a dos rivais (€ 125 milhões). Mais do que isso, vê os rivais terem prejuízo enquanto o time do norte de Londres vê sua receita chegar a € 356 milhões, com um lucro líquido de € 40 milhões.
Um dos motivos que impulsionaram esses bons resultados financeiros foi o lucro gerado pelo estádio. Com o Highbury, o Arsenal faturava € 45 milhões. Com o Emirates, o número chegou a € 114,8 milhões.
Para Amir Somoggi, o caso do Arsenal é o exemplo mais bem acabado de como uma dívida por ser convertida em benefícios para o próprio clube.


