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Deivid: “Penso em voltar, mas não agora”

As torcidas de Santos, Corinthians e Cruzeiro têm, até hoje, saudades dele, pelas boas atuações mostradas nas passagens pelas três equipes. Entretanto, o atacante Deivid, finalmente, encontrou a estabilidade em um clube europeu. Desde 2006 no Fenerbahçe, o fluminense de Nova Iguaçu alcançou, na vitória dos Canários Amarelos sobre o Denizlispor, pela Süperlig, a sua 100ª partida em competições turcas.

Em que pese uma fratura na fíbula esquerda que o tirou dos gramados por três meses, no início desta temporada, Deivid conseguiu retomar paulatinamente a titularidade na equipe de Luis Aragonés. Agora atuando mais pelo meio-de-campo, o brasileiro se diz adaptado à vida na Turquia e rechaça a ideia de voltar, num futuro próximo, a defender um clube brasileiro. Confira:

Na vitória por 1 a 0 contra o Denizlispor, você completou 100 jogos em competições dentro da Turquia pelo Fenerbahçe, marcando 33 gols. Além disso, você já está há três anos no clube. Você está totalmente adaptado à vida na Turquia?

Sim, estou. Fico feliz pela marca, é um número importante, até porque eu nunca havia passado três anos em um único clube, durante minha carreira.

Você se lesionou gravemente na pré-temporada, fraturando a fíbula esquerda. Como foi o processo de recuperação e volta ao time?

Foi difícil, porque eu tinha de fazer todo o trabalho sozinho, acompanhado apenas do fisioterapeuta do clube. Além disso, nunca havia ficado fora do time por tanto tempo devido a uma contusão. Foram três meses.

Após uma boa temporada 2007/08, com a chegada às quartas-de-final da Liga dos Campeões, o Fenerbahçe ficou na última colocação em seu grupo, na LC 2008/09, e perdeu até a vaga na Copa Uefa. Como explicar um desempenho tão ruim nas competições europeias? Algum tipo de demora na adaptação ao estilo de jogo do técnico Luis Aragonés?

Acho que algumas perdas no elenco foram responsáveis pela queda de rendimento. Além da minha lesão, houve a do Vederson, que era peça frequente na base do time. Sem contar a má campanha que estamos fazendo também no Campeonato Turco. Mas até entendo a decepção, pelo equilíbrio existente.

O Sivasspor, vice-líder, e o Trabzonspor, terceiro colocado, têm sido sensações do Campeonato Turco, a três rodadas do fim. O que esses times mostram de diferente para ocupar as primeiras posições na tabela?

Sem dúvida, essas equipes têm sido surpreendentes. Ainda assim, tenho a opinião de que perdemos o campeonato para nós mesmos, principalmente pelos pontos perdidos nas partidas dentro de casa, algo em que o Sivas raramente falhou, aproveitando nossos tropeços. O Trabzonspor estava bem, mas caiu e permitiu a reação do Besiktas. Já o Galatasaray está numa situação semelhante à nossa, fazendo uma campanha apenas mediana. (N.E.: a entrevista foi feita antes da última rodada do campeonato turco, na qual o Besiktas passou o Sivasspor e virou o novo líder do torneio)

As torcidas turcas são usualmente fanáticas, e a do Fenerbahçe é uma das mais notáveis nesse aspecto. Até sites em turco, homenageando você, são encontrados. Como a torcida lhe recebeu em sua chegada e como ela lhe trata?

Minha chegada ao Fenerbahçe foi fantástica. Eu nunca tinha visto tantos torcedores à minha espera. Além disso, minha família tem sido muito bem tratada. Em minha relação com a torcida, ela pegou um pouco no meu pé na primeira temporada, quando não fui tão bem. Já na segunda, as coisas foram bem melhores e fiquei bem com a torcida, até pelos gols que marquei na Supercopa Turca e, principalmente, na Liga dos Campeões, como o da vitória contra a Internazionale, na fase de grupos, e o do jogo de ida das quartas-de-final, contra o Chelsea. Nesta, a relação continuou boa, em que pese minha contusão.

Recentemente, Roberto Carlos, seu companheiro de equipe, disse que nunca viu uma rivalidade tão grande como a que existe entre Fenerbahçe e Galatasaray. Você concorda com essa afirmação?

Realmente, a rivalidade é impressionante. É exagerada, até passa um pouco do normal, às vezes. Eu já joguei em clássicos como Corinthians x Palmeiras, Corinthians x São Paulo, Corinthians x Santos, Cruzeiro x Atlético, mas nenhum desses tão intenso como Fenerbahçe x Galatasaray. Inclusive, quando uma equipe de tevê veio à Turquia e se assustou com as reações das torcidas, eu disse a eles que não era nada comparado ao que vi em meu primeiro clássico, quando vencemos o Galatasaray por 2 a 1, na casa deles (Ali Sami Yen). A torcida arrancou cadeiras, provocou incêndios… até a diretoria trata a partida como algo especial, pede que encaremos o jogo de um modo diferente.

O que houve de diferente entre a sua primeira experiência europeia, no Bordeaux, e as passagens por Sporting e Fenerbahçe, para que, desta vez, você conseguisse construiu uma carreira sólida na Europa?

A passagem pelo Bordeaux não deu certo por vários aspectos. Primeiro, eu realmente não estava preparado, minha cabeça estava no Brasil. Além disso, eu queria ir apenas em dezembro, mas o Bordeaux exigiu que eu viesse antes, para substituir o Pauleta, que deixara o clube. Depois, minha esposa estava grávida de oito meses, e chegamos no verão europeu, época de muito calor. E o clube prometera assistência à gravidez dela e não cumpriu. Sem contar que o treinador que pedira minha contratação foi demitido justo na época em que eu vim. E ainda havia as preocupações com a saúde de minha filha. Tudo isso contribuiu para que eu não fosse bem no Bordeaux. Já em minha chegada ao Sporting, eu estava bem preparado para permanecer na Europa, e ignorei as propostas para que eu voltasse.

Por motivos diversos, alguns jogadores brasileiros estão voltando da Europa, mesmo ainda tendo receptividade do mercado no continente. Você pensa em voltar a jogar no Brasil logo?

Até penso em voltar a jogar no Brasil, mas não agora. Acabei de renovar o contrato com o Fenerbahçe (até maio de 2012), e gostaria de ficar até depois do fim do compromisso, até quando eu tiver em torno de 36, 37 anos. Somente então acho que retornaria ao Brasil.

Você já foi sondado sobre a possibilidade de defender a seleção da Turquia? Aceitaria se naturalizar para isso?

Já houve sondagens nesse sentido, e até fui elogiado pelo treinador Fatih Terim. Mas eu não gosto de ficar alimentando esse assunto, pois uma eventual naturalização, e a convocação posterior, dependem de muitas coisas. Acho que é difícil que isso aconteça. E, enquanto eu continuar jogando e tiver saúde, penso em servir à Seleção Brasileira.

Você teve sucesso no Santos, onde surgiu bem nos juniores. Teve destaque maior ainda no Corinthians, onde virou um dos maiores artilheiros em uma só edição da Copa do Brasil, com os 13 gols de 2002, além dos dois títulos ganhos. No Cruzeiro, teve notável importância nos títulos da Copa do Brasil e no Mineiro de 2003. Ficou sentimento especial por estes três clubes? Ele ainda persiste?

No Corinthians, realmente tive uma passagem muito boa, com os gols nas duas partidas da final da Copa do Brasil, e os desempenhos no Rio-São Paulo e no Brasileiro. No Cruzeiro, cheguei e saí pela porta da frente, deixando respeito. Mas lembro do Santos com carinho, por ter sido o começo de tudo. Ali aprendi várias coisas. Sempre que visito o clube, tenho várias lembranças, como a de dividir o quarto do alojamento com um amigo.

Em 2001, você jogou a semifinal do Paulista pelo Santos, perdendo o jogo de volta com o famoso gol de Ricardinho nos instantes finais. Pouco depois, no Brasileiro daquele ano, você transferiu-se para o próprio Corinthians. Você chegou ao time com algum sentimento do Paulista? Caso tenha chegado, houve certa demora em se acostumar a atuar pelo Corinthians?

Bem, aquela semifinal do Paulista realmente foi traumática. Havia o caso de encararmos as partidas como “finais antecipadas”, uma vez que o adversário da final – Ponte Preta ou Botafogo – seria supostamente mais fácil de ser superado. E o Santos ainda passava pelo jejum de títulos estaduais. E vencer a partida significaria a realização de um sonho pessoal, que era comprar uma casa para a minha mãe, o que eu teria feito com o prêmio em caso de passagem à final.

Com relação à transferência para o Corinthians, não me arrependo dela, mas sim de como ela aconteceu. Hoje, não diria algumas coisas que disse em relação ao Santos na época, como ter dito que não voltaria nunca mais, ou que o presidente era mal assessorado. E, na minha chegada ao clube, tive alguns problemas que retardaram minha adaptação. Primeiro, lesionei o joelho. Depois, em meu primeiro jogo na equipe, contra o Botafogo de Ribeirão Preto, levei um pisão no tornozelo, e as dores duraram muito tempo. E ainda haviam os problemas de ordem pessoal, como a morte de minha irmã, o apartamento que eu comprara e que não me foi entregue, e o meu casamento, no fim de 2001. Por isso, demorei a me adaptar totalmente ao Corinthians.

Qual a importância das dificuldades passadas durante sua vida, como a morte de seu pai, quando você tinha apenas nove meses, ou da morte de sua mãe, durante a recuperação da fratura no Fenerbahçe, para motivá-lo, durante a carreira?

A importância foi grande. Minha mãe nunca me deixou baixar a guarda, sempre me incentivava a treinar, desde os tempos em que jogava na base, e me dizia que as dificuldades só aparecem para os homens mais fortes. Além disso, eu sempre tinha a esperança de conseguir dar certo no futebol, para retribuir o que ela fez, ao conseguir criar a mim e aos meus sete irmãos com apenas um salário mínimo. Quando fui para o Joinville, disse a ela que estava saindo de casa para não voltar mais. Felizmente, consegui emplacar na carreira, e retribuir o apoio dela, que foi tudo para mim. Por isso, hoje, não me empolgo com o que consegui, por saber o que passei. Além disso, tento dar para os filhos, como pai, o amor que não pude ter do meu, que faleceu antes.

Poucos sabem, mas você teve boa passagem pelo Joinville, no começo da carreira, em 1999. Como foi essa experiência?

Foi boa. Fui fazer um teste nos juniores do time, em dezembro de 1999, e lá fiquei até maio de 1999. Fui bem em minhas participações na Copa São Paulo e em um torneio de jovens na Itália, e também consegui aproveitar a chance que recebi entre os profissionais, dada por Paulo Bonamigo, quando ele era o técnico. Foi lá que me credenciei a ir para o Santos.

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Equipe Trivela

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