Da Copa América ao Mundial?

É inegável que a Copa América é um torneio de valor técnico discutível. O título do torneio não ratifica, de forma alguma, a supremacia de uma seleção no futebol do continente. Mesmo assim, a competição ainda tem atrativos. Um deles é ser a primeira oportunidade que os técnicos têm de trabalhar com um grupo de jogadores por um período mais longo de tempo. Por isso, em tese, o grupo chamado para a Copa América poderia constituir a base da Seleção que deverá disputar o Mundial da África do Sul.
Por isso, quando Dunga convocou nomes como Alex Silva, Fernando e Afonso Alves para a Copa América, um calafrio percorreu a espinha de muitos torcedores. Será que corremos o risco de que jogadores como esses caiam nas graças do técnico e permaneçam na Seleção até o Mundial?
Para responder a essa pergunta, analisamos os elencos brasileiros que disputaram as últimas cinco Copas América pós-Mundiais (1987, 1991, 1995, 1999 e 2004 – não falamos das edições de 1989, 1993, 1997 e 2001, por terem acontecido perto de Copas do Mundo e, por isso, não servirem para comparação). Comparamos os jogadores que foram chamados para esses torneios com os elencos convocados para a disputa da Copa do Mundo seguinte.
Para alívio dos que não se conformam com a lista de Dunga, os números de jogadores que permanecem na Seleção entre as duas competições são baixos. De 110 atletas que participaram dos torneios continentais estudados, apenas 41 foram para a Copa do Mundo seguinte – ou seja, pouco mais de um terço.
Dunga a perigo
Aliás, o próprio técnico da Seleção tem motivos para se preocupar. Dos cinco técnicos que dirigiram o Brasil nas Copas América citadas, só dois chegaram até o Mundial. Foram eles Zagallo (de 1995 a 1998) e Parreira (de 2004 a 2006). Os outros três caíram: Carlos Alberto Silva, técnico do Brasil em 1987, Falcão, técnico em 1991, e Vanderlei Luxemburgo, campeão em 1999.
A troca de treinador no meio do caminho é um dos fatores que explica por que tão poucos jogadores da Copa América estiveram no Mundial seguinte. Mas não é o único. Experiências realizadas pelos treinadores, fracassos dentro de campo e astros que são poupados (ou pedem para não participar) – além da própria distância temporal – também fazem com que haja muitas diferenças entre as duas listas.
Os cinco torneios
Na Copa América de 1987, Carlos Alberto Silva não teve nenhuma restrição para escolher os jogadores que levaria ao torneio. No entanto, o técnico havia assumido a Seleção apenas um mês antes, período no qual disputou cinco amistosos. Ou seja, tratava-se de uma equipe ainda em formação, sem base definida.
O desempenho na Copa América foi desastroso, com uma eliminação já na primeira fase, após sofrer uma goleada de 4 a 0 do Chile. Mesmo assim, Carlos Alberto Silva manteve-se no cargo – só foi demitido no final de 1988. Depois dele, assumiu Sebastião Lazaroni, que gradualmente mudou a base do time. No final das contas, 10 dos jogadores chamados por Carlos Alberto foram para a Copa da Itália – número até que alto, comparado com outros anos.
Em 1991, Falcão chegou à Copa América sob fogo cerrado. O técnico não havia vencido nenhum de seus primeiros seis jogos oficiais e, mesmo depois que ganhou, não conseguiu fazer exibições convincentes. Muito disso deveu-se à decisão de Falcão de só convocar jogadores que atuassem no futebol brasileiro. Essa política, que tinha o apoio da CBF, foi parcialmente abandonada na Copa América, com a convocação de quatro ‘estrangeiros’ (Taffarel, Mazinho, Branco e João Paulo). Mesmo assim, tratava-se de um time claramente experimental.
De maneira nada surpreendente, o desempenho do Brasil na Copa América foi fraco. A Seleção precisou marcar um gol no sufoco, contra o Equador, para evitar a eliminação na primeira fase. O time acabou sendo vice-campeão, e Falcão foi demitido logo depois do torneio. Parreira sucedeu o técnico, mexeu bastante no time e só chamou oito dos convocados de Falcão para a Copa dos Estados Unidos.
Na Copa América de 1995, Zagallo convocou os jogadores que quis. No entanto, o técnico ainda não tinha um time base claro, apesar de ter chegado à competição invicto em nove jogos no comando da Seleção. Por isso, acabou fazendo várias ‘experiências’. O Brasil mostrou um futebol irregular no torneio e, novamente, foi vice-campeão. Mesmo assim, Zagallo manteve uma base mais ou menos constante para seu time e levando 10 dos jogadores da Copa América para o Mundial da França.
Em 1999, o Brasil não foi brilhante no torneio continental, mas venceu todos seus seis jogos e sagrou-se campeão de maneira merecida. Essas partidas, aliás, foram parte de uma série de 12 vitórias consecutivas da Seleção – o melhor momento de Luxemburgo no comando do time. Apesar de um ou outro desfalque, foi chamada uma equipe forte, num torneio que será lembrado como a estréia internacional de Ronaldinho Gaúcho. No entanto, a queda do técnico após a Olimpíada de 2000, combinada com a contratação e demissão de Leão, contribuiu para que a base da Seleção mudasse muito até a convocação para a Copa de 2002. Para o Mundial da Coréia/Japão, Felipão levou oito jogadores que ganharam a Copa América.
A edição do torneio que teve menos relação com a lista de convocados para o Mundial seguinte foi a de 2004. Numa competição francamente desvalorizada, Parreira decidiu poupar todos os jogadores que considerava titulares absolutos e levou ao Peru um time experimental. No torneio, Adriano firmou-se como indispensável ao time, e a conquista do título acabou aumentando a confiança do país, com muita gente achando que até os reservas poderiam ser campeões mundiais. Parreira, no entanto, não entrou nessa e levou só cinco desses jogadores para a Copa de 2006.
Com tudo isso, fica claro que, com exceção de um ou outro caso isolado, a Copa América deste ano não deverá ter nenhum impacto sobre a decisão de quem vai ou não para o próximo Mundial. Aliás, nem um bom desempenho na competição adiantaria, como atesta o caso de Luxemburgo, em 1999. Dunga chega a esta Copa América sem uma base formada e com um time misto, com alguns titulares, mas muitas ‘experiências’. Quem jogar bem pode até ganhar uma vaga no começo das eliminatórias. Para o Mundial de 2010, é uma história completamente diferente.
OS SOBREVIVENTES
Confira abaixo quais jogadores foram convocados para uma Copa América como a deste ano e conseguiram estar também entre os chamados para a Copa do Mundo seguinte:
Copa América 1987 / Copa do Mundo 1990
Ricardo Rocha, Muller, Careca, Valdo, Zé Carlos, Jorginho, Ricardo Gomes, Dunga, Silas e Romário
Copa América 1991 / Copa do Mundo 1994
Taffarel, Ricardo Rocha, Mauro Silva, Branco, Cafu, Marcio Santos, Raí e Mazinho
Copa América 1995 / Copa do Mundo 1998
Taffarel, Aldair, César Sampaio, Roberto Carlos, Edmundo, Dunga, André Cruz, Leonardo, Ronaldo e Dida (além do técnico Zagallo)
Copa América 1999 / Copa do Mundo 2002
Dida, Cafu, Roberto Carlos, Vampeta, Ronaldo, Rivaldo, Marcos e Ronaldinho Gaúcho
Copa América 2004 / Copa do Mundo 2006
Júlio César, Luisão, Juan, Adriano e Cris (além do técnico Parreira)


