Sem categoria

Correndo atrás

Nos últimos dois anos, um assunto caiu no colo dos torcedores brasileiros, ainda acostumados com gestões amadoras em seus clubes de coração: a figura dos fundos de investimento. Essa figura havia surgido em forma de patrocínios vultuosos a clubes brasileiros na virada do século, por exemplo com a Nations Bank investindo no Vasco, a ISL investindo em Flamengo e Grêmio; a Hicks & Muse investindo em Corinthians e Cruzeiro. Todas essas parcerias foram desastrosas para os investidores, que não encontraram ressonância de visão de negócios por parte dos dirigentes de futebol brasileiro.

Em 2005, surge a MSI, grupo de investimento representado no Brasil pelo iraniano Kia Joorabchian, trazendo milhões ao Corinthians e trazendo jogadores de muita qualidade e mercado, como Tévez, Mascherano, Carlos Alberto, entre outros. O resultado foi inicialmente um Campeonato Brasileiro, mas após tensões existentes entre o presidente do clube e o grupo de investimento, a parceria ruiu, foram abertas várias denúncias sobre lavagem de dinheiro, e culminou com o rompimento da parceria e o posterior rebaixamento do clube paulista para a Série B.

Porém, alguns anos depois, a Traffic, empresa de marketing de grande entrada no mercado sul-americano, entrou definitivamente no futebol ao fundar um clube-empresa, o Desportivo Brasil, e com ele um fundo de investimento, onde os ativos eram jogadores de futebol, visando a margem de lucro em alguma negociação futura. Esse fundo, como qualquer outro, diversificou seus investimentos em diversos jogadores, alguns obtendo o direito ao lucro total de uma transferência, alguns obtendo uma fatia de algum jogador com mercado no exterior, e assim foi progredindo.

Usando como experiência as fracassadas tentativas de investidores no futebol, o seu clube-empresa nesse investimento é fundamental, pois é ele que assegura os direitos federativos sobre os atletas de seu fundo de investimento, garantindo assim que a receita chegue diretamente aos cofres do fundo, sem a necessidade, na maioria das vezes, de um clube tradicional para repassar o que lhe cabe no investimento.

No exterior os fundos de investimento são uma realidade, mas em grande maioria são geridos pelo próprio clube. Os pioneiros deste modelo são os portugueses. Graças ao modelo empresarial criado especificamente ao futebol (com a transparência e regime de gestão adequados ao mercado financeiro), foi criado junto ao Banco Espírito Santo o First Portuguese, um fundo de investimento, gerido por especialistas da área financeira, que pretende seduzir investidores de risco interessados em alta rentabilidade a médio e longo prazo, com claras ressalvas à especificidade do produto em causa, muito arriscado, precisamente porque levam em conta os mercados internacionais de transferências de jogadores e os períodos (janelas) em que os mesmos abrem. Neste fundo, cada clube abre sua carteira de ativos (jogadores os quais detém os direitos federativos e com ampla possibilidade de lucro numa futura negociação), e os investidores optam por um, ou na maioria das vezes diversificam os investimentos buscando maior segurança de lucro.

A limitação dos clubes brasileiros a adotarem práticas semelhantes parte principalmente do regime fiscal adotado por 90{4e6004d4b2dec836d33dc5172bfddf26d3363bd8dda1f1bebd6a41477248514f} dos clubes brasileiros, na forma de associação sem fins lucrativos. Com isso, os fundos de investimento não podem ser implementados (por gerar lucro), e devidamente fiscalizados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que desaconselha os investidores brasileiros a aderirem a este tipo de investimento, por seu risco alto e pela total falta de respaldo legal que proteja esses investidores de possíveis fraudes ou prejuízos indevidos.

Com isso, os clubes brasileiros ficam expostos a um modelo bem diferente, como o proposto pela MSI, que coloca cláusulas em contratos de trabalhos de seus ativos (jogadores) que retiram a autonomia dos clubes que empregam seus atletas sobre o momento de transferência dos mesmos para outros clubes. Sobre essa prática, a Fifa já reagiu com veemência, ao criar em seu regulamento a proibição à Third-Party Influence (influência de terceiros interessados) em transferências de atletas de futebol, coibindo investimentos suspeitos dentro do mercado do futebol.

Ou seja, enquanto não forem adotadas medidas que façam os clubes brasileiros serem geridos como uma atividade econômica de fato, com tudo o que o mercado pode oferecer, estes clubes serão reféns de empreendimentos que fazem exatamente o que eles deveriam fazer, como por exemplo o Desportivo Brasil. Ou seja, talvez um dia seu time de coração, tradicional e de massa tenha lucro ínfimo comparado a um clube-empresa sem torcida, porém gerenciado de maneira competente e profissional, como um negócio sério e lucrativo.

Carlos Eduardo R. de Moura é advogado, especializado em Direito Desportivo e dissídios na Fifa e Tribunal Arbitral do Esporte (TAS).

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo