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CONHEÇA A SELEÇÃO: Bélgica: Com o futuro nos pés

Por Marcus Vinícius Garcia

Quando se fala em “Diabos Vermelhos”, a primeira coisa que vem em mente é o Manchester United. Mas esse apelido não se limita somente ao gigante inglês: há uma seleção europeia conhecida pelo mesmo nome – mais pelas cores do que pelo futebol. A Bélgica nem sempre correspondeu em campo da mesma forma que os Diabos Vermelhos mais famosos, mas tem uma história rica e com uma participação bem ativa dos criadores do esporte bretão.

Os belgas começaram a jogar futebol nas escolas em Bruxelas no ano de 1865. Importado da Inglaterra, o esporte também era praticado nas empresas britânicas no porto de Antuérpia e por engenheiros ingleses em Liége. Posteriormente, a prática do futebol se espalharia pelo país. No norte, os franceses também influenciaram com o crescimento do esporte. Os jovens belgas aprendiam a jogar nos colégios.

Com a grande ascensão do esporte bretão no país, em 1º de setembro de 1895, por incentivo de Louis De Schrijver (que seria o fundador do SCK Menin), a União Belga de Sociedades de Esportes Atléticos (UBSSA) foi fundada por 10 clubes de futebol e atletismo (entre eles o Gent, o Brugge), para que ficasse responsável pela organização de torneios realizados no país.

A Federação belga se tornaria a quarta entidade não-britânica a existir, surgindo após as fundações da Federação Holandesa e Dinamarquesa em 1889 e da Associação de Futebol Argentino, fundada em 1893 (a AFA seria a primeira entidade de futebol, fora da Europa, a existir).

A primeira partida oficial do selecionado belga foi realizado em maio de 1904 (mesmo ano em que a federação filiou-se a FIFA) na cidade de Uccle, contra a França. O jogo foi o primeiro realizado fora da Grã-Bretanha e terminou empatado em 3×3. Mas a história começava quatro anos antes.

Em 1900, os belgas disputariam a sua primeira competição oficial nos Jogos Olímpicos em Paris, mas o time de futebol foi representado pelos alunos da Universidade Livre de Bruxelas, que no final voltou pra casa com a medalha de bronze no peito (a França ficou com a prata e a Grã-Bretanha ficou com a medalha de ouro).

Um ano após conquistar o bronze em território francês, a Bélgica enfrentou a Holanda com um plantel formado por jogadores nascidos no país mais alguns atletas ingleses. Em campo, massacre belga por 8×0. Após a goleada sobre os vizinhos, foi combinado que as duas equipes se enfrentariam duas vezes por ano á partir de 1905. Uma partida em Antuérpia e a outra em Roterdã (mais tarde se transferindo para Amsterdã). E sem o apoio dos ingleses. O acordo deu certo aos laranjas, que venceram os dois amistosos por 4×1 fora de casa e 4×0 em casa. Em outro amistoso contra a Holanda, em 1906, os belgas venceram o jogo por 3×2. Vitória que rendeu ao time a alcunha de “Diabos Vermelhos”, criada pelo jornalista belga Pierre Walckiers. Uma alusão as cores do uniforme da seleção.

Em 1920, a federação, desmembrada do atletismo e reconhecida pela realeza, muda de nome. Passa a ser chamada como Real Associação Belga de Futebol. Ainda no mesmo ano, o país sediaria a sétima edição dos Jogos Olímpicos na cidade de Antuérpia, após oito anos de ausência por decorrência dos conflitos na I Guerra Mundial. O torneio de futebol teve o total de 14 equipes e foi disputado na fórmula do mata-mata. A anfitriã Bélgica entrou nas quartas de final junto com a França. Os Diabos Vermelhos enfrentaram a Espanha na estreia, vencendo o jogo por 3×1 com um hat-trick do atacante Robert Coppée. Nas semifinais, mais uma vitória com 3 gols – desta vez, a vítima foi o seu frequente adversário desde o surgimento da federação, a Holanda. O placar foi de 3×0 para os belgas.

A final do torneio olímpico foi contra a Tchecoslováquia, que estava jogando o seu primeiro torneio internacional. Com 30 minutos de partida, a Bélgica abriu 2×0. No minuto seguinte, a seleção tcheca teve uma baixa: o defensor Karel Steiner foi expulso após cometer uma falta dura. Os companheiros de Steiner não aceitaram a decisão do árbitro inglês John Lewis e decidiram abandonar o jogo, alegando que o árbitro estava favorecendo o time da casa e também pela pressão fora do campo. A federação tcheca emitiu um comunicado declarando que os soldados belgas, que estavam nas arquibancadas e que invadiram o campo junto a multidão, os desrespeitaram. E que não retornariam a campo sem um pedido de desculpas. Após as confusões e o abandono do time tcheco, a organização dos Jogos de Antuérpia tomou uma decisão controversa, eliminando a seleção da Tchecoslováquia do torneio de futebol e premiando os belgas com a medalha de ouro.

Nos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928, a Bélgica não passou da primeira fase. Depois dos jogos de Amsterdã, a Bélgica só voltaria a disputar a competição em 2008, nos jogos de Pequim, onde perdeu a disputa da medalha de bronze para a seleção Em 1930, os Diabos Vermelhos fariam presença na primeira edição da Copa do Mundo, realizada no Uruguai. O time teve um desempenho decepcionante e ficou pelo caminho, após ser derrotado na fase de grupos para EUA (3×0) e Paraguai (1×0), voltando pra casa mais cedo.

Após a Copa do Mundo no Uruguai, a Bélgica não demonstrou força nos Mundiais seguintes: nas edições de 1934/38/54 e 70, o time nem passou da primeira fase. Em 1950/58/62/66/74/78/06 e 2010 o time ficou de fora. No Mundial do México em 1986, os Diabos Vermelhos fizeram a sua melhor participação em Copas do Mundo.

Na primeira fase, a Bélgica jogou em Toluca e na Cidade do México. O time teve dificuldade na disputa do Grupo B, terminando em terceiro colocado – atrás do time anfitrião e do Paraguai. A campanha belga foi: derrota para o México (1×2), vitória sobre o Iraque (2×1) e empate com o Paraguai (2×2). Os Diabos Vermelhos se classificaram como melhor terceiro colocado na primeira fase do Mundial.

Nas fases finais, a seleção belga passou por URSS por 4×3 (2×2 no tempo normal decidindo a partida na prorrogação) e pela Espanha nas quartas de final, depois de empatar por 1×1 e vencer na disputa de pênaltis por 5×4. Na semifinal, o adversário seria a Argentina do técnico Carlos Bilardo, de Burruchaga, Passarella, Ruggeri e Maradona. A grande fase do time alvi-celeste abreviou a campanha belga com um futebol muito superior e cheio de técnica – principalmente do seu grande craque, do seu camisa 10. Os Diabos Vermelhos não resistiram e foram derrotados por 2×0 (os dois gols marcados pelo “El Pibe de Oro”).

Na disputa pelo terceiro lugar, nova derrota: dessa vez para a França de Platini por 4×2, terminando a competição em quarto. Na campanha belga no Mundial, jogadores como o goleiro Jean-Marie Pfaff, o volante Franky Van der Elst, o meia Enzo Scifo e dos atacantes Nico Claessen e Jan Ceulemans foram os destaques.

Nos anos 90, com o goleiro Michel Preud'homme como titular substituindo o veterano Pfaff, ao lado de outros jogadores belgas de destaque como: Scifo, Van Der Elst, Celeumans e do jovem Marc Wilmots, os Diabos Vermelhos foram discretos nas disputas. Na Copa de 98, a Bélgica contou com um meia-atacante brasileiro no seu plantel. Luís Oliveira ficou famoso no Brasil por ter deixado o país jovem para fazer a carreira por lá.

Em 2002, com Marc Wilmots como o principal craque do time, a Bélgica chegou a Ásia sem muitas pretensões. Ficou em segundo no Grupo H, atrás do Japão, eliminando na última rodada a Rússia, com uma vitória por 3×2. Nas oitavas o adversário seria a seleção brasileira. O jogo teve polêmica quando o árbitro jamaicano Peter Prendergast anulou um gol de Wilmots no momento que o jogo estava 0x0. O lance abateu os belgas, que na sequência sofreram dois gols. Rivaldo e Ronaldo garantiram a classificação do Brasil para as quartas de final contra a Inglaterra.

Na principal competição da Europa, os belgas apareceram menos ainda. Filiado a UEFA desde a fundação da entidade em 1954, a Bélgica só foi disputar a sua primeira Euro em 1972, como anfitriã, e não decepcionou a sua torcida. Na fase classificatória eliminou Portugal do atacante Eusébio, Escócia e Dinamarca do também atacante Finn Laudrup (pai dos craques Michael e Brian Laudrup). Nas quartas de final, os belgas, que tinha  no seu ataque um excelente Paul Van Himst, enfrentaram a vice-campeã mundial de 1970, Itália do atacante Gigi Riva, em duas partidas. A primeira partida, disputada em Milão, empate de 0x0. A partida de volta, disputada em Bruxelas, vitória belga por 2×1. Na sua primeira participação em Eurocopas, os Diabos Vermelhos estariam na disputa pela taça, e em casa. Só que os belgas não contavam em enfrentar justamente a Alemanha de Franz Beckenbauer, Sepp Maier e Paul Breitner nas semifinais. Em campo, a superioridade do campeão mundial de 1954 fez a diferença e Gerd Müller decidiu a favor dos germânicos com dois gols, classificando o time para a final contra os soviéticos. Já a surpreendente Bélgica, ficou com o prêmio de consolação ao vencer a Hungria por 2×1, terminando a competição em terceiro lugar.

Mais surpreendente ainda foi a segunda participação da seleção belga na sexta edição da Euro em 1980, realizada na Itália. Com uma campanha irretocável, superando seleções campeões europeus como a Espanha e mundiais como Inglaterra e Itália, a Bélgica chegaria à final da competição em um novo encontro com a Alemanha, campeã da Europa em 1972. Mas a experiência e a técnica alemã superou a raça e dedicação belga. O time de Rummenigge conquistaria o segundo título europeu ao bater os Diabos Vermelhos por 2×1.

Nas edições de 1984, na França e 2000, em casa, os belgas não tiveram forças para repetir as campanhas de 1972 e 80. Decepcionaram e ficaram pelo caminho, sem passar pela fase de grupos. Em 2008 não se classificaram nas eliminatórias – fato repetido nas eliminatórias para a Euro de 2012, que será realizada na Polônia e Ucrânia. Jogando pelo Grupo A, os belgas sucumbiram diante de Alemanha, que foi soberana, se classificando com 100% de aproveitamento e a Turquia, segundo colocado, que foi disputar a repescagem contra a Croácia – que seria eliminada pelos balcãs com uma derrota por 3×0  em Istambul e um empate por 0x0 em Zagreb.

Sem disputar competições oficiais desde os Jogos Olímpicos de Pequim (fora as eliminatórias da Eurocopa e da Copa do Mundo), a Bélgica trabalha forte para mudar o quadro que assola os seus torcedores. Sem tradição entre as grandes potências no futebol mundial, o campeonato nacional também não se compara entre os melhores, como por exemplo: os campeonatos inglês, espanhol e o italiano. E seus clubes raramente figuram com força nos torneios europeus.

Jan Celeumans foi o jogador que mais vestiu a camisa dos Diabos Vermelhos, de 1977 a 1991. O atacante disputou 96 partidas pela seleção, com 23 gols marcados. Falando em bola na rede, Bernard Voorhoof é o maior artilheiro belga da história da seleção, marcando 30 gols em 61 jogos disputados de 1928 a 1940. Trinta e quatro anos mais tarde, o atacante Paul Van Himst igualou o número de gols marcados por Voorhoof em 81 partidas de 1960 a 1974. Marc Wilmots é o terceiro maior artilheiro belga com dois gols a menos em 70 partidas disputadas pelos Diabos Vermelhos.

Na briga por uma vaga no Mundial do Brasil em 2014, a Bélgica tenta buscar forças para melhorar o seu futebol. Para isso conta com o retorno do técnico Georges Leekens que substituiu o holandês Dick Advocaat (que foi treinar a seleção russa) em maio de 2010. Leekens foi o treinador da seleção na Copa de 1998 e foi demitido após a péssima campanha na França. No plantel belga, o técnico conta com nomes bem conhecidos no mundo: o volante Daniel Van Buyten do Bayern de Munique, os zagueiros Thomas Vermaelen do Arsenal e Vincent Kompany do Manchester City, os meias Marouane Fellaini do Everton e Axel Witsel do Benfica e os atacantes Igor de Camargo (brasileiro naturalizado belga) do Borussia Möchengladbach, Moussa Dembélé do Fulham e do jovem Romelu Lukaku do Chelsea. Uma nova geração que tenta fazer seus torcedores esquecerem os craques históricos. Até 2013, veremos se os Diabos Vermelhos farão jus ao apelido.

Ficha Técnica

Nome: Associação Belga de Futebol
Fundação: 01 de setembro de 1895
Site Oficial: www.footbel.com
Estádio: Rei Balduíno – Capacidade para 54.024 mil espectadores
Títulos: Campeão Olímpico (1920)
Participações em Copas do Mundo: 11 (1930, 1934, 1938, 1954, 1970, 1982, 1986, 1990, 1994, 1998, 2002)
Posição no Ranking da FIFA: 44ª posição (até abril de 2012)
 

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