Concachampions ou Libertadores?

Custou uma epidemia de “gripe suína” e uma reformulação no modelo do torneio oficial da Concacaf para que o México começasse a desviar-se da Copa Libertadores e inclinar a cabeça para a sua região e de seus vizinhos. Apesar de os melhores times do campeonato nacional assegurarem vaga para a Liga dos Campeões da Concacaf, a menina dos olhos dos aztecas sempre foi, na verdade, a vizinha: a taça da Conmebol.
O modelo antigo da Concachampions, antes chamada de Copa dos Campeões, vigente até 2007, passava longe de ser um atrativo econômico para os clubes e seus patrocinadores e para as emissoras televisivas. No formato que perdurou de 1962 até o ano retrasado, participavam apenas oito equipes, que caíam direto no mata-mata. Duas mexicanas, duas norte-americanas, e outras quatro vagas para América Central e Caribe. Desta maneira, o torneio não empolgava e não trazia receita útil aos times envolvidos, que disputavam apenas seis jogos. Não valia a pena.
Assim, acontecia o óbvio: jogadores de má vontade, técnicos poupando atletas para o campeonato nacional, queda no nível da competição…
A solução criada trouxe nova vida ao campeonato. O nome copiou o padrão europeu, modelo de campeonato de sucesso: Liga dos Campeões. Os mexicanos passaram a ter quatro vagas, disputando com mais outros 12 times (Há uma fase preliminar, em que 16 times jogam um mata-mata em ida e volta, onde os oito vencedores dos confrontos juntam-se com outras oito equipes). Com mais adversários e com mais times de prestígio, a televisão passou a ter mais interesse em comprar os direitos da competição. Também, para reafirmar a hierarquia, asseguram a vaga os mexicanos campeões e vices do Apertura e Clausura. Os times restantes disputam uma brechinha na Libertadores.
Com 16 equipes a Concachampions passou a ter fase de grupos – quatro grupos com quatro participantes –, classificatória para o mata-mata, que vai diretamente nas quartas de final.
Já para o campeonato da Conmebol, os complicados trâmites são outros. Das três vagas disponíveis para os aztecas, uma vai para o time de melhor campanha na primeira fase do Apertura do ano, enquanto as outras duas são decididas com um torneio à parte, a Interliga.
Apesar da bagunça, o modelo funciona já há algum tempo, e congestiona o calendário das equipes mexicanas, utilizando a única brecha da intertemporada. A Interliga é disputada por oito equipes, as oito melhores “restantes” do Apertura e Clausura (ou seja, os times que não vão nem à Concachampions nem conseguiram a outra vaga para a Libertadores). A bola rola durante o mês de janeiro, nos Estados Unidos , definindo as últimas vagas do campeonato sul-americano. As oito equipes são divididas em dois grupos de quatro equipes e os dois primeiros de cada grupo fazem as semifinais e os vencedores vão para a Libertadores. Não há decisão, o título fica com o time que tiver melhor campanha entre os dois que vencerem nas semifinais.
O prestígio da Libertadores sempre foi um forte motivo para polêmica no país de El Tri. Enquanto times com pior desempenho no campeonato nacional disputavam as pelejas organizadas pela Conmebol, ao lado de grandes brasileiros e argentinos, os campeões e vices encaravam com desdém a fraca Concacaf, com vizinhos nada empolgantes, quase como um “castigo”.
O cenário tem mudado, e isso é claro nos resultados deste ano da Concachampions. Os quatro primeiro colocados das chaves são todos mexicanos (Pachuca no Grupo A, o Toluca no Grupo B, o Cruz Azul no Grupo C e o Pumas no Grupo D), que lideraram a fase de grupos com relativa tranquilidade. Os times vêm fortes, determinados, e promoveram diversas goleadas e atropelos até esta fase.
Já do outro lado, situações nada agradáveis feriram o relacionamento já sempre arranhado da Conmebol e da Femexfut (federação mexicana de futebol). O pavor generalizado pela “gripe suína” (vírus AH1N1) provocou uma delicada desavença com os times mexicanos, quando a Conmebol decidiu tirar os jogos do mando do Chivas (adversário do São Paulo) e do San Luis (adversário do Nacional-URU) de seus estádios, mandando-os para a Colômbia. O país sul-americano logo recusou, temendo trazer o perigo da doença para seu solo, aquecendo o impasse e alimentando a controvérsia.
Após mais hipóteses e sugestões, por fim, os mexicanos se retiraram e romperam com a entidade futebolística, revoltados – e com razão – com a diferenciação feita pela Conmebol, motivo de picuinhas discutidas já outras muitas vezes pelos aztecas. A decisão fez a entidade voltar atrás. Esta, sem saber como lidar com a situação, fez o inesperado: assegurou que os times excluídos ganhariam de bandeja vaga nas oitavas de final da edição 2010 da Libertadores, contrariando o restante dos países e se obrigando a um malabarismo para fazer valer uma classificação de apenas 14 times da fase de grupos para o mata-mata.
Não só a decisão foi estapafúrdia, como a ferida pelo descaso inicial da Conmebol não cicatrizou completamente para a Femexfut. Os resultados desta rusga acompanharemos neste ano, mas uma coisa ficou evidente: a presença dos aztecas já se tornou fundamental no planejamento dos torneios da Conmebol. Entretanto, o México agora tem motivos para focar cada vez mais na competição dos campeões da América do Norte, Central e Caribe, onde tem todo o prestígio e domínio de seus times, além de uma vaga bem mais fácil no Mundial de Clubes da Fifa.


