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“Chegam de bicicleta para treinar!”

O ‘Torneo Argentino B’ corresponde a 4ª divisão do futebol da Argentina e reúne 48 clubes. Para desvendar um pouco da realidade estrutural e as dificuldades de um futebolista nesta competição, conversamos com o meia Sebastián López, do Textil Mandiyú, equipe que esteve de 1988 à 1995 na principal divisão do país – contou com Maradona como treinador, em 94. O habilidoso ‘enganche’ relata para Trivela. “Os clubes sobrevivem a plenos pulmões”.

Qual é o momento vivido pelo Textil Mandiyú na 4ª divisão argentina?
Estamos em 5º lugar no Grupo B (São 8 times por chave). Se classificam as duas melhores equipes de cada grupo e os melhores terceiros colocados.  

Quais os campos mais difíceis e hostis para se jogar na 4ª divisão?
Diria que o nosso, que pertence ao Huracán, de Corrientes. Do Chaco For Ever, por ser um clássico local. Também do Guarani Antonio Franco, que é outro rival forte no seu campo. 

Nesta divisão os torcedores são fanáticos e violentos? Quais as torcidas mais vibrantes?
Eu não conheço todas, pois são muitas zonas, porém, onde o Mandiyú joga, é casa cheia! 

Na média, o salário atrasa na maioria dos clubes?
Infelizmente, os clubes aqui não ganham com transmissões televisivas e classificações para fases seguintes. Esses clubes ainda existem a plenos pulmões! No inicio, saem para conseguir empresas que remunerem os gastos que o Campeonato, os jogadores e a comissão técnica causarão. Quanto aos salários, isso varia bastante, pois as equipes tem realidades bem diferentes.  

Qual é o perfil básico dos jovens que iniciam suas carreiras nessas equipes?
Por ser de outra geração posso dizer que hoje o jogador termina de treinar e vai correndo para casa sem dar importância para melhorar e chegar a níveis mais altos. É verdade que os meninos são pressionados pelos pais que querem se salvar da pobreza através dos seus filhos. Mas o tempo só premia quem conseguir, com muito custo, chegar a 1ª divisão e ganhar dinheiro. Infelizmente muitos não respeitam o tempo que isso necessita. Um jogador da 4ª divisão vai treinar de bicicleta, existe um abismo nas realidades entre a primeira e a quarta divisão.  

A maioria é de bairros muito humildes, é freqüente o envolvimento deles com drogas e marginalidade?
Existem casos. Eu nunca vi, mas não posso negar que existem.

Muitos trabalham e tem outras profissões?
Sim, é muito comum que trabalhem e joguem ao mesmo tempo. Nesta divisão não se ganha muito e é necessário ter outra atividade para sobreviver. 

O que tem a dizer dos dirigentes envolvidos nesta divisão?
Nossa relação com eles é normal. Não é muito profissional, mas é preciso esperar… 

Ainda se fala da passagem de Maradona como técnico do Mandiyú, em 1994?
Muito pouco e as recordações não são boas já que ele não teve um bom comportamento aqui em todos os sentidos. 

Porque você não teve oportunidade de jogar em níveis mais altos na Argentina?
Em 1996 joguei no Banfield, na 1ª divisão. Mas infelizmente não tive chances com o treinador na época e fiquei livre ao final da temporada.

Você jogou pelo Artmedia Bratislava, da Eslováquia, pouco antes do clube viver seus meses de ouro participando da Champions League, em 2005. Porque saiu?
Foi uma linda experiência onde qualquer um aprende a ser mais profissional. Horário 100%, organização etc. Saí porque o empresário que me levou teve uma briga com o treinador. Mas foi inesquecível e a maior satisfação foi ter jogado contra o Besiktas, na Turquia, onde o técnico Christopher Daum mostrou interesse por mim. Foi uma honra! 

Também esteve na Malásia, não?
Sim, é um país em crescimento, mas outros países asiáticos ainda estão acima. Joguei no DPMM Brunei, país vizinho, onde não se vive o futebol como em outros países. É apenas uma atividade a mais. Foi difícil, a cultura é diferente. 

 

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