Canadá, a nova fronteira

“Seus m…, vão tomar pressão do Dallas?” O Toronto FC vencia por 1 a 0 e o jogo era válido apenas um torneio amistoso, o Walt Disney World Pro Soccer Classic, mas seus torcedores – movidos a cerveja bebida direto na garrafa, escancaradamente (algo não muito normal nos Estados Unidos) – não se conformavam. Com um a menos em campo, os canadenses estavam acuados nos minutos finais.
O orientador do estádio se aproximou do exaltado seguidor do TFC. “Senhor, não é permitido usar esse linguajar por aqui. Mais cuidado da próxima vez”. Em uma mistura de cinismo com excesso de álcool no sistema, o canadense perguntou o que de errado havia falado. “Não estou autorizado a repetir a palavra, senhor”, devolveu o funcionário do Grupo Disney. O espectador fez cara de interrogação, mas um amigo, igualmente cínico e igualmente fanfarrão, informou o colega: “acho que você não devia ter falado ‘Dallas’”. Era uma pequena vingança da torcida texana, que vaiara a execução do hino do Canadá antes da partida.
Quem conhece o comportamento médio do torcedor norte-americano, sabe que esse tipo de reação dos canadenses não é comum. Nada do espírito vamos-levar-a-garotada-para-ver-esporte-e-comer-um-cachorro-quente-em-uma-tarde-de-família. Eram torcedores mais parecidos com os que se encontram na Europa e na América do Sul, que gritavam, incentivavam, cornetavam, agitavam faixas e bandeiras e eram desaforados com as autoridades. E que ficariam muito irritados se o Toronto FC cedesse o empate aos texanos (o jogo ficou no 1 a 0).
O envolvimento daquele pequeno grupo de canadenses que estava em Orlando, Flórida, em uma fria tarde de quinta para ver um torneio de pré-temporada (enquanto poderiam estar no hotel vendo a seleção de seu país conquistar o ouro olímpico no hóquei sobre o gelo feminino), é um pequeno sinal. Nem todos podem acreditar, mas há realmente um crescimento do futebol no Canadá.
Claro que tal conclusão não se baseia apenas no comportamento dos torcedores do TFC no estádio Hess, dentro do ESPN Wide World of Sports (complexo esportivo recém-inaugurado dentro da Walt Disney World). Esse fenômeno se baseia na consolidação de três equipes, nas principais metrópoles do país.
Nas três temporadas em que disputou a MLS, o Toronto teve média de público mínima de 20.108 e máxima de 20.308. A capacidade do BMO Field é de 20.500. Ou seja, quase 100{4e6004d4b2dec836d33dc5172bfddf26d3363bd8dda1f1bebd6a41477248514f} de ocupação por três anos. O Vancouver Whitecaps já tem assegurado um lugar na liga norte-americana em 2011. E o Impact de Montréal (atualmente na USL, equivalente à segunda divisão da América do Norte) levou 55.571 torcedores para o duelo contra o Santos Laguna na semifinal da Concachampions de 2008-09. Fatos bastante interessantes para um esporte que sempre foi ofuscado por hóquei sobre o gelo (mania nacional), futebol canadense, beisebol e lacrosse (modalidade ligada ao período pré-colombiano).
O meia-atacante Dwayne DeRosario, do Toronto, reconhece o bom momento do “soccer”. “O esporte está em crescimento. É a união de um ambiente favorável para os canadenses gostarem do futebol com os imigrantes que já gostavam dele em seus países”, avalia.
Esse “ambiente favorável” não é apenas o astral dos torcedores do Canadá. Ajuda o fato de a concorrência estar em mau momento. O futebol canadense é o esporte outdoor mais popular do país, mas sofre com a dificuldade de se desenvolver mais, pois vive fechado em seu mercado e ainda convive com o fantasma de uma eventual entrada da NFL no mercado local. O beisebol já teve grande fase, sobretudo no começo da década de 1990. Mas o Toronto Blue Jays deixou de ser competitivo na MLB e o Montreal Expos foi, por decisão da liga, transferido para Washington. O lacrosse vive da tradição. O hóquei sobre o gelo está sólido e até pode ter mais equipes canadenses, mas é disputado no inverno e não compete por audiência com o futebol.
Enquanto isso, o soccer tem apreço dos imigrantes, abre espaço para o Canadá competir em menos desigualdade com os Estados Unidos e ainda oferece um universo enorme, que inclui clubes e seleções de todo o mundo. Isso criou alguns atritos entre as modalidades de verão no país. “Já há alguma rivalidade entre futebol, futebol canadense e beisebol. Nada violento, até porque todos têm seu espaço. Mas o futebol já não passa despercebido”, comenta DeRosario.
Se esse processo mantiver o ritmo, é provável que a seleção canadense comece a melhorar em breve. Internacionalmente, o desempenho é inconstante e normalmente fraco. De positivo, houve uma participação em Copas (1986, com três derrotas em três jogos), um título do extinto Campeonato da Concacaf (1985) e um título da Copa Ouro (2000). Mas já é possível sonhar com algo melhor em breve. O próprio DeRosario deixa claro isso ao se despedir do entrevistador brasileiro. “Acho que conquistei muitas coisas, mas minha carreira será incompleta sem uma participação em Mundial. Mas nos reencontraremos em 2014”.


