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Bye, bye, Brasil

Em entrevista à Trivela em 2007, o lateral Roberto Carlos afirmou que não voltaria a jogar por nenhum time do Brasil. Três anos depois, o lateral-esquerdo mudou de ideia e estreou no último dia 20 de janeiro pelo Corinthians. Confira a matéria escrita por Carlos Eduardo Freitas há três anos na íntegra:

 

Ídolo em Madri e ainda com mercado na Europa, Roberto Carlos diz à Trivela que, pelas críticas que recebeu após a Copa do Mundo, não pensa mais em voltar a jogar em seu próprio país

Os números não mentem: Roberto Carlos é um dos maiores jogadores que vestiram a camisa do Real Madrid. Completou nesta temporada 10 anos na equipe e, recentemente, superou Di Stéfano como o estrangeiro que mais vezes jogou pelo clube. O próprio Roberto diz que não esperava ficar tanto tempo num mesmo clube. Em seu currículo com a camisa merengue, constam três Ligas dos Campeões, três Campeonatos Espanhóis e dois Mundiais de Clubes.

Aos 33 anos, com tantas conquistas na carreira, o lateral-esquerdo está em contagem regressiva para pendurar as chuteiras e, depois, voltar para o Brasil. Isso mesmo: jogar em seu país, nunca mais. “Pode até ser que eu mude de idéia, mas pretendo encerrar a carreira na Europa”, conta Roberto, nesta entrevista exclusiva concedida à Trivela.

O motivo? As críticas que recaíram sobre ele, após a derrota para a França, na Copa do Mundo de 2006, quando foi considerado o culpado no lance que resultou no gol de Thierry Henry – a famosa “ajeitada de meia”. “Não sei nem de onde inventaram isso, pois não devia nem estar ali… Só sei que o culpado sou sempre eu. Lembram da Copa de 1998, da bicicleta que eu errei”, desabafa.

Roberto diz não querer mais saber da pressão com que convive há tanto tempo no Real Madrid e que sofreu nas 132 partidas que fez pela Seleção Brasileira. Agora, quer um pouco mais de tranquilidade.

Na conversa com a Trivela, o lateral-esquerdo conta um pouco dos bastidores daquele que se auto-intitula o maior clube do planeta. Fala sobre a época de Florentino Pérez e o início, meio e fim da era dos “galácticos”, que, segundo ele, colocaram o futebol em segundo plano, no Santiago Bernabéu. O jogador não foge de comentar a passagem de Vanderlei Luxemburgo pelo clube. “Se ele tivesse chegado uns três ou quatro jogos antes, teríamos sido campeões”, diz.

Depois de tantas vitórias, sua última partida pela Seleção foi uma derrota. Você gostaria de ter uma oportunidade de mudar isso?
Queria ter me despedido da Seleção com o título mundial. Só que teve todo aquele problema lá, que inventaram a história da minha meia (risos). Não sei nem de onde inventaram isso, pois não devia nem estar ali… Ainda assim, minha época na Seleção acabou mesmo. Foram 15 anos muito bons e, pelo que me lembro, perdi apenas 16 partidas. Foi uma época muito boa, e devo todo meu crescimento no futebol à Seleção.

Então você se despediu mesmo da Seleção?
Me despedi porque… (silêncio) …o que eu tinha de ganhar com a Seleção eu ganhei. Tem a questão da idade, são muitas viagens… Você chega na segunda, treina na terça, joga na quarta, volta na quinta, treina na sexta, joga no sábado… Chegou uma hora em que cansei – tanto que cheguei nessa Copa do Mundo cansado. Foram muitos anos na Seleção. Só tenho agradecimentos a todas as pessoas com quem trabalhei na Seleção, ao grupo de jogadores, comissão técnica, presidente…

Qual será a melhor recordação que você guardará de jogar pelo Brasil?
A Copa do Mundo de 2002. Perdemos em 1998, perdemos em 2006… Toda minha passagem pela Seleção foi muito boa, mas quando você ganha é mais gostoso de relembrar. Aquela época do Felipão, aquela família, aquele ambiente, aquele grupo e tudo o que vivemos antes, durante e depois da Copa do Mundo foi inesquecível.

Já que você falou na história do jogo da França, na última Copa, e da tal ajeitada de meia, você não considera uma injustiça o segundo jogador que mais vezes vestiu a camisa da Seleção, com 132 partidas, ser lembrado por causa de um único lance?
São 180 milhões de opiniões… Eu até entendo tudo isso. O importante é que, quando estou com minha mãe e com meu pai, entramos numa salinha que tenho em casa com todos os troféus que conquistei, eles vêem o que consegui. É lá que esqueço toda a crítica que caiu sobre mim. O culpado sou sempre eu. Lembram da Copa de 1998, da bicicleta que eu errei. O problema é que, com a Seleção, por menor que seja o erro cometido, você fica marcado para sempre. O brasileiro lembra mais das coisas ruins do que das boas que acontecem na vida da gente.

Você se sente mais valorizado na Europa do que no Brasil?
Não. As pessoas me tratam super bem na rua, no Brasil. O problema é que qualquer jogo da Seleção Brasileira é transmitido para o mundo inteiro – e é normal que o brasileiro, que vive do futebol 24 horas por dia, julgue mesmo sem conhecer você, sem conhecer sua trajetória. Vejo isso como uma coisa muito normal, porque quando vejo um jogo eu também critico. É uma reação normal nossa de analisar o erro, por menor que seja, enquanto as vitórias são esquecidas.

Você mantém a intenção de voltar a jogar no Brasil, antes de parar?
Depois da Copa do Mundo, eu pensei bem e decidi que não quero voltar a jogar no Brasil. Quero trabalhar como treinador, como auxiliar técnico, mas jogar eu não jogo.

Por algum motivo especial?
Pelas críticas e por tudo o que aconteceu. Pode até ser que eu mude de idéia, mas, hoje, pretendo encerrar a carreira no futebol europeu.

Por falar em Brasil, você tem acompanhado as partidas da Seleção?
Sim. (Seco).

O que tem achado do time?
Saíram muitos dos jogadores daquela nossa velha guarda, uma época muito vencedora. Chegaram novos, com uma mentalidade diferente. A mudança de tantos jogadores, tão rapidamente, exige um pouco de paciência. Tem que dar ?muita tranqüilidade para o Dunga trabalhar e segurar a pressão que virá – ainda mais por não termos sido campeões da Copa do Mundo. Se não ganharem a Copa América, que será difícil, vai vir mais cobrança ainda. Pouco a pouco, ?o Dunga vai chamando jogadores com mais experiência. De resto, acho que o time está bem. Só no último jogo (contra Portugal), que nós tomamos dois gols de bobeira. De resto, a Seleção está bem organizadinha.

Quem você vê como seu herdeiro na lateral-esquerda?
O Gilberto está bem. Gosto de ver ele jogar, pois tem personalidade, mas ainda quero que o Marcelo volte, porque é um grande jogador.

O que você achou da ida dele para o Real Madrid?
Achei legal. Foi muito bom para ele, que é um menino bom, de caráter bom, moleque para frente e feliz.. É uma experiência maravilhosa, para a vida dele: tão novo e já num clube desse porte. Vai ficar 10, 15 anos aqui. Converso todo dia com ele, e ele tem ganho muita confiança. Só que já falei para ele que nos próximos três anos quem vai jogar sou eu (risos).

Falando em Real Madrid, o que significa para você estar há 10 anos num clube desse porte?
É difícil explicar. Para começar, confesso que não esperava ficar tantos anos num mesmo time. Sendo brasileiro e respeitado num clube tão grande como o Real Madrid, então, é motivo de muita alegria para mim. De verdade. Minha trajetória aqui é muito boa. Consegui até passar o Di Stéfano e me tornar o estrangeiro com maior número de jogos pelo clube.

Além de bater o Di Stéfano, você é um dos seis jogadores que têm mais de 100 partidas em Ligas dos Campeões. O que isso significa para você?
Sempre falo que a Liga dos Campeões é uma espécie de Copa do Mundo de clubes. Estou com quase 110 partidas na competição e, de fato, foram poucos os jogadores que chegaram a essa marca. Essa história toda começou lá em Araras, no União São João. Todo o sacrifício e a dificuldade que tive no começo estão sendo recompensados agora. É claro que, na trajetória de um jogador como eu, sempre há momentos em que se cria polêmica e em que esquecem tudo de bom que fiz, mas no dia em que escrever um livro poderei contar todas essas histórias da minha vida. É uma história super bonita. É claro que também vou contar bastidores de Copa do Mundo, coisas normais do trabalho de qualquer profissional.

Esse livro tem data de lançamento?
Tem sim: quando eu parar de jogar, daqui três anos. Quero lançar um aqui na Espanha e outro no Brasil.

Nesse livro, o que você contará sobre seus 10 anos de Real? Que momentos você considera mais marcantes?
Começaria com a Liga dos Campeões de 1997. Depois de 32 anos, chegamos de novo ao título. Esse seria um bom ponto de partida. Nesse intervalo, passaram por aqui vários grandes jogadores, mas só ganharam a Copa Uefa, não a Liga dos Campeões. São histórias de gente que encontro na rua, pessoas na casa dos 30 anos que nunca tinham visto o Real Madrid ser campeão e que puderam fazê-lo. Sempre vejo e ouço coisas boas na rua. Graças a Deus, as pessoas, aqui na Espanha, não se cansam de pedir autógrafos, de bater fotos, de agradecer, de pedir para que eu nunca saia do clube, que eu continue trabalhando no Real Madrid depois de parar de jogar bola. Esse exemplo que as pessoas vêem em mim – e não me vejo como exemplo para muita gente (risos) – é muito legal. Aos 33 anos e quase 10 só aqui, as pessoas não parecem cansadas de se aproximar de mim. Às vezes, é até difícil falar sobre isso, porque convivo com isso diariamente. Podem até falar que o Roberto está se achando o bonitão por falar assim, mas não é o caso. Estou apenas descrevendo o que vejo na rua, nos estádios…

O que mudou no clube desde que você chegou, em 1996, até hoje?
Chegou o Florentino Pérez, que é um grande empresário, pagou todas as dívidas do clube, construiu um estádio e um centro de treinamentos entre os melhores da Europa. O Real Madrid sempre foi um clube que não tinha tanto marketing. Hoje, praticamente só se fala em contratos milionários de televisão e grandes jogadores – principalmente depois que ele trouxe Ronaldo, Figo, Zidane, Beckham… Por conta disso, nestes últimos três, quatro anos, perdemos um pouco o foco no futebol. Hoje, se um jogador do Real Madrid briga com o outro no treino, não importa se todos os países do mundo estão em eleições ou se tem guerra não sei onde: só se fala do Real Madrid. Essa é a grandeza que tem o clube. Nestes dez últimos anos, mudou muita coisa nesse sentido. Isso tem sido uma dificuldade grande para a gente.

Em que essa mudança afeta o dia-a-dia de vocês, especificamente?
Bom, basicamente, todo mundo odeia a gente, em qualquer lugar onde vamos jogar. Por se falar muito mais em dinheiro do que em futebol, quando o assunto é Real Madrid, todo mundo ganha uma motivação a mais para nos derrotar. É a mesma coisa da minha época de Palmeiras, quando a Parmalat chegou e só contratou grandes jogadores. Como tínhamos a obrigação de vencer os campeonatos que o time não ganhava havia tempos, todo mundo queria ganhar do melhor time. Querem fazer o jogo da vida para ver se o Palmeiras ou, no caso, o Real Madrid contrata.

Até que ponto a instabilidade política do clube afeta o desempenho da equipe, dentro de campo?
Jogador não tem de ficar preocupado com esse tipo de coisa. No vestiário, a gente – pelo menos os mais velhos de clube – procura se distanciar de todo problema externo, como notícias sobre a diretoria ou o presidente.
Mas, recentemente, houve aquela troca de críticas entre o presidente e alguns jogadores, em que vocês rebateram…
Ele sabe as coisas erradas que falou e assumiu o erro. Naquela ocasião, fomos até ele e, sempre com muito respeito, explicamos que aquilo não poderia funcionar daquele jeito. Ele é o dono, ele que manda. Não é por isso que pode faltar com o respeito. Conversamos na boa e, depois dessa reunião, tudo voltou à normalidade.

Na edição de fevereiro, a Trivela publicou uma entrevista com Arrigo Sacchi, que foi diretor do Real Madrid e pediu demissão pouco depois da saída do Luxemburgo. Ele disse que deixou o clube por não concordar com a política do presidente, de dar privilégios a certos jogadores. Passado mais de um ano da saída dele, ainda há algo desse tipo?
O Florentino, naquela época, deu muitas facilidades a alguns jogadores, e isso acabou prejudicando o vestiário. Hoje mudou, sim, e todo mundo tem se ?ajudado bastante. É preciso entender que, em qualquer clube que você vá, sempre há o carinho do presidente por algum jogador em especial. Aí, vão lá e dão facilidades para ele. A imprensa aqui costuma chamar esses jogadores de mimados. Sempre há um ou outro que ?têm mordomias, mas nunca faltando com o respeito aos companheiros.

Por falar em Luxemburgo, como você avalia a passagem dele pelo Real?
Achei boa. Terminamos a primeira temporada dele aqui quatro pontos atrás do Barcelona. Quando o Vanderlei chegou, estávamos numa situação difícil, mas chegamos a ganhar até sete jogos seguidos. Se ele tivesse vindo umas três ou quatro rodadas antes, teríamos sido campeões. O problema é que ser estrangeiro no futebol europeu é complicado. Estamos sempre invadindo o espaço deles.

Você sente isso no vestiário?
Sempre, sempre. (Silêncio) É muito difícil. (Silêncio)

Mesmo você, que é tão respeitado dentro do clube?
Mesmo eu. (Silêncio) Nós, brasileiros, somos diferenciados. A gente chega no vestiário, e aquele que não dá risada a gente xinga. Procuramos passar essa alegria para ver se motiva um pouco mais o pessoal, porque senão fica tudo muito quieto. Essa nossa alegria contagia o grupo, mas sempre tem um ou outro que olha diferente. O cara acorda 9:30 para treinar e fica bravo. Aí, muitas vezes, dizem que o brasileiro é irresponsável, coisas do tipo: “menos samba e mais trabalho”. O europeu é muito calado, muito organizadinho. Nós, não: chegamos sempre contando piada, abraçando. Somos assim sempre, mesmo nos momentos difíceis. Essa é a diferença – e não fazemos isso como algo forçado, mas porque somos assim. Em qualquer lugar, se você não estiver feliz, não trabalha bem.

Com a saída do Ronaldo e do Beckham, chega ao fim a era dos “galácticos”. Você, que a viu de dentro, do início ao fim, o que acha dessa política? Essa história de só trazer grandes nomes prejudicou o clube em campo?
O clube não se prejudica nunca. Quem sempre sai prejudicado é o jogador. Se o clube contrata grandes nomes, vem toda a mídia e elogia. Se o jogador não está bem, já viu. O Cannavaro, por exemplo: é o melhor do mundo, e todo mundo critica muito – só porque não está se adaptando ao Real Madrid. Esse é um esquema muito arriscado. São grandes contratações, mas quem perde sempre é o jogador, enquanto o clube ganha muito dinheiro.

Entre esses grandes nomes, vez por outra, aparece um Portillo, um Soldado e outros jovens revelados pelas categorias de base. Trazer tantos estrangeiros não prejudica o surgimento de novos jogadores espanhóis?
Aqui, no Real Madrid, a maioria dos jogadores que sobem para o time principal jogam uma ou duas partidas bem, sentem-se pressionados e nunca mais voltam. Eles não têm estrutura para agüentar tanta pressão. Nesse sentido, não há escola melhor para um jovem se desenvolver que o Brasil, onde há jogadores maduros desde uma Copa São Paulo de Juniores. Aí, o clube tem alojamento, psicólogo, treinamentos… Tenho certeza de que qualquer jogador do time júnior do Palmeiras pode jogar com toda tranqüilidade no time principal. Acho difícil ?que os europeus cheguem nesse nível de desenvolvimento da base que temos no futebol brasileiro. Por isso é que digo que não adianta nada ter dinheiro ?e não ter a mentalidade para virar um grande jogador no futuro.

No final da temporada passada, sua saída do Real Madrid era dada como certa. Diziam até que Chelsea ou Fenerbahçe seria seu destino. Houve algum motivo especial para você não sair?
De fato, tive uma reunião com o Peter Kenyon (presidente do Chelsea). Conversei também com o vice-presidente ?do Fenerbahçe. Em todos esses anos, tive muitas chances para sair, mas tenho toda minha vida aqui. Ainda não renovei meu contrato e, se não chegar a 40 jogos até o final da temporada, tenho passe livre. Preciso conversar com a minha filha e com a minha ?família para ver o que é melhor. Vamos ?ver se sigo renovando meu contrato aqui ou se vou para outro país. O problema é que aqui, no Real Madrid, tem ?muita pressão. Como são tantos anos de Palmeiras, de Seleção Brasileira e ?de Real, às vezes uma mudança de clube, para um lugar com menos pressão e menos responsabilidade, pode ser boa.

A chegada do Capello teve algum efeito em sua decisão de ficar no clube?
Sempre conversei com os treinadores que vieram para cá. Expliquei meu pensamento e falei sobre a possibilidade de ir embora. Na maioria das vezes, foram os treinadores – Camacho, Vandelei e, agora, o Capello – que pediram para eu ficar. Aí, fiquei.

Como é trabalhar com o Capello?
Ah, para mim, é fácil. Foi ele que me trouxe para cá, em 1996 (risos). Ele sempre me tratou muito bem – o que não quer dizer que é diferente dos outros. Por outro lado, mesmo que tenha amizade e um respeito grande por ele, se surge um problema, não sou daqueles caras que vai chegar nele e vai falar. Não misturo confiança com profissionalismo. Gosto muito dele, respeito muito seu trabalho, e, para mim, ?está sendo muito bom trabalhar mais uma vez com ele, alguém que me ajuda muito. Sempre pergunta como estou e me trata muito bem.

Dá para comparar a fase atual com a outra passagem dele pelo Real Madrid, entre 1996 e 1997?
Ele continua muito chato de se trabalhar e briga com todos os jogadores, quando não fazem o que ele quer, mas é um amigo de todo mundo aqui no vestiário – menos um ou outro, com quem ele tem discussões. Teve problema com o Beckham, com o Ronaldo… No entanto, quando não coloca um jogador em campo, ele sempre dá o motivo e explica por que fez isso. É uma pessoa muito sincera e verdadeira.

Esse excesso de sinceridade dos europeus é uma das grandes dificuldades que os jogadores brasileiros sentem ao lidar com outras culturas?
Nós, brasileiros, não estamos acostumados à sinceridade. Para um jogador que é considerado craque, então, é claro que muitas vezes não é fácil ouvir a verdade. Fica sempre achando que é implicância e dizendo não ser compreendido, não entender por que tratam ele assim – ou diz que não vão com a cara dele.

Essa descrição se encaixa no caso do Ronaldo, que saiu do clube fazendo questão de agradecer a todos os treinadores, menos um. É isso?
Com o Capello, se você não treina bem, não está concentrado ou não está feliz, não tem jeito. Ele até disse, logo que chegou: “Se alguém não está feliz, as portas estão abertas”. Aí, teve a história do peso do Ronaldo, de ele não treinar, de estar machucado… O treinador acabou perdendo um pouco daquela confiança que sempre teve no Ronaldo, com quem ele sempre conversava – e olha que o Capello sempre falou que, para ele, o Ronaldo vai ser sempre o maior atacante do mundo. Para mim, o Ronaldo foi para uma melhor. Não foi para um Batatais da vida. Foi para o Milan, o que significa que ainda hoje é importante.

Já que o assunto é Ronaldo, em 1997, você foi considerado o segundo melhor jogador do mundo, na eleição da Fifa – atrás dele. Em 2002, quando você teve um ano excepcional, ficou na quarta posição, e ele ganhou novamente. Não ter conquistado esse prêmio te deixa frustrado?
Não. Eu não ganhei o prêmio em 2002 por causa da Copa do Mundo do Ronaldo. Ele fez um torneio sensacional. Como ele é meu amigo, aceito numa boa.

Quais são seus objetivos para os próximos anos?
Três anos mais de contrato, depois eu paro, fico um ano descansando e vou fazer um curso de treinador e voltar a morar no Brasil. Quero treinar um clube aí. Nesses próximos três anos que tenho pela frente, vou procurar sempre estar na elite. Espero nunca perder a motivação, nunca deixar de querer ser ?campeão, dar o máximo em todos os jogos. Eu sou assim: quero deixar boas recordações. Tem também essa história de eu ser brasileiro e querer representar bem o meu país, aqui fora.

E como você se vê daqui a dez anos?
Gordo (cai na gargalhada). Tudo o que não posso fazer por causa do futebol eu vou aproveitar para fazer quando eu parar de jogar. Tenho minha fazenda, quero levar meus filhos para passear e curtir ?mais minha família, pois como jogador eu não tenho muito tempo.

Matéria escrita por Carlos Eduardo Freitas, na Revista Trivela, em 2007.

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Equipe Trivela

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